Análise: Bioframe Outpost faz a diversão depender da sobrevivência em um mundo hostil

Coletar informações para lidar com as ameaças de um ecossistema pode ser interessante para uns, mas trabalhoso para outros.

em 15/12/2025

Freeman acorda em um planeta alienígena. Sem saber quem é, ele se vê cercado por plantas, animais e máquinas de segurança que, em sua maioria, são hostis. Para piorar, uma infecção está se espalhando e já levou à queda da colônia humana que havia ali. A única opção é seguir a voz suspeita que o guia pelo comunicador e coletar dados que levarão à cura e, com sorte, à sobrevivência.

Bioframe Outpost é, afinal, um jogo de sobrevivência em um esqueleto de metroidvania. Com quase nenhum meio de combate direto, Freeman e a pessoa que joga terão que lançar mão de ferramentas, amostras orgânicas e conhecimento se quiserem chegar até o fim da aventura.

É uma abordagem única no gênero metroidvania e, por si só, já vale a experiência aos curiosos e pacientes. Em contrapartida, boas ideias dependem de boa execução, e é nisso que o jogo escorrega, tornando-se trabalhoso e confuso em vários momentos, de uma maneira que restringe o senso de fluidez da aventura.



Bem-vindo à selva (alienígena)

É claro que trabalho e confusão são coerentes com a proposta de sobreviver em um planeta onde até as plantas querem nos ver mortos. De certa forma, esses possíveis problemas não atrapalham o andamento da gameplay, mas podem ser empecilhos à diversão.

O lado trabalhoso está na própria dinâmica da gameplay: nosso protagonista tem em sua posse uma câmera fotográfica de pesquisa, que, além de servir para atordoar ameaças, deve ser usada para escanear robôs, animais, plantas e ninhos pelo seu caminho.



Essas criaturas têm interações entre si e apresentam estados diferentes para escanearmos e obtermos mais informações a seu respeito. Um bicho pode estar se alimentando, atacando, fugindo ou infectado, por exemplo. Então, é preciso tentar encontrá-los sob essas circunstâncias específicas para continuar a pesquisa.

Podemos arremessar as frutas favoritas dos mais agressivos, afastar morcegos com a lanterna, libertar um pequeno lagarto capturado para afugentar aranhas, provocar uma planta para que ela lance seus espinhos ao redor, congelar ameaças para passarmos tranquilamente e por aí vai.



No fundo, é um ecossistema até simples, sem muitas interações complexas. Eu cheguei ao final da campanha sem precisar me ater muito aos detalhes do funcionamento e aprender os vários usos para os muitos itens acumulados no inventário. No entanto, ainda houve vários momentos em que precisei vasculhar minhas descobertas no menu de registros à procura de alguma informação que me auxiliasse com uma estratégia para superar certos trechos.

Ou seja: mesmo que os sistemas não sejam barreiras a quem vai seguir uma via básica, acredito que os mais dispostos a testar e aprender as nuances vão tirar muito mais proveito deles e, admito, terão menos problemas do que eu. Tive algumas centenas de mortes, mas a culpa não é só minha, uma vez que Freeman não aguenta muito dano e bate as botas rapidamente.



O constante risco de morte por fauna, flora e robôs é corretamente usado como um incentivo a abraçar as regras da natureza alienígena e buscar formas seguras de manipulá-la. Felizmente, há checkpoints por toda parte, o que reforça o sentimento de que o processo de tentar, morrer, testar algo novo e morrer de novo é parte esperada da experiência.

Logo, é um jogo que, mesmo sem ser muito complexo, demanda atenção, interesse e, também, paciência de seu público. O mesmo acontece com o design do mundo, que é a parte responsável pela dose de confusão de que falei no começo.



Perdido no espaço

A confusão está, principalmente, nos cenários quase labirínticos. Há um grau de desorientação nas grandes áreas com seus muitos corredores e escadas, que, por vezes, significam apenas que há vários caminhos possíveis, mas, em outras, escondem pequenos itens importantes para a progressão e as missões secundárias.

O próprio jogo parece ter medo de que a pessoa que joga se sinta perdida e, nas horas iniciais, conduz de forma muito direcionada, com marcadores de objetivo e muitas setas pintadas nas paredes. Contraditoriamente, chega um ponto em que Bioframe larga a mão e deixa a exploração à nossa própria mercê, com o vago propósito de usar o transportador para entrar em áreas que devem ser atravessadas até encontrar o teletransporte de saída que nos leva de volta à área central.



Há certa inconsistência nisso e me senti perdido, quase vagando a esmo, embora sempre progredindo de alguma maneira. A navegação, portanto, não é muito intuitiva e complica nossa vida. Felizmente, isso é atenuado para quem fizer bom uso do menu de missões, que é muito detalhado e distingue as importantes das opcionais.

Outra maneira de ajudar na exploração é que certos itens-chave aparecem mais de uma vez, o que aumenta as chances de os encontrarmos e evita dor de cabeça e frustração se, sem saber, os tivermos deixado passar anteriormente.



Algo estranho na estrutura é que, apesar da divisão em capítulos, não há momentos marcantes para dar ritmo à campanha. Não há chefões, segmentos de ação, fuga e desafios específicos, criando uma monotonia em que o mesmo loop de gameplay, que descrevi no tópico anterior, é mantido.

Mesmo com as ressalvas estruturais, eu quis levar Bioframe Outpost até o final, que alcancei após oito horas de campanha. Há aqui os dois lados da moeda: as ideias para o nicho interessado e os defeitos decorrentes delas. A diferença está em qual terá mais valor para você.



Biologia de um sobrevivente

A dinâmica de sobrevivência em um ecossistema hostil faz de Bioframe Outpost um metroidvania com personalidade própria e muitos desafios, mas que não equilibra bem o ritmo de uma progressão que, por vezes, é trabalhosa e confusa, além de carecer de momentos-chave e clímax que alterem a monotonia. Dessa forma, o que temos é uma abordagem que, por tentar executar uma ideia própria, resulta mais voltada aos nichos dos curiosos e dos pacientes.



Prós

  • A mistura de progressão de metroidvania com sobrevivência a partir do conhecimento gradual de um ecossistema alienígena dá ao jogo uma identidade própria e confere uma camada estratégica;
  • Algumas decisões de design ajudam a evitar frustrações, como os numerosos checkpoints e a duplicidade de alguns itens-chave;
  • Textos em português brasileiro.

Contras

  • O ecossistema, embora feito de sistemas dinâmicos, é apresentado com monotonia, sem momentos-chave e um clímax que marquem a gameplay;
  • Mesmo com cenários detalhados, o tema visual hegemônico cria uma monotonia que impede que as diferentes áreas se distingam entre si ou sejam marcantes.
Bioframe Outpost — PC/PS5/PS4/XSX/XBO/Switch — Nota: 6.5
Versão utilizada para análise: PS5
Revisão: Johnnie Brian
Análise produzida com cópia digital cedida pela Omni Systems Publishing
OpenCritic
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Victor Vitório
Admiro videogame como uma mídia de vasto potencial criativo, artístico e humano. Jogo com os filhos pequenos e a esposa; também adoro metroidvanias, souls e jogos que me surpreendam e cativem, uma satisfação que costumo encontrar nos indies. Veja minhas análises no OpenCritic.
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