Análise: Kill It With Fire 2 traz diversão destrutiva para além do Aranhaverso

Sequência do título lançado em 2021 tece uma teia que une humor, destruição e exploração de uma forma bem mais competente.

em 24/11/2025


Lançado em 2021, o primeiro Kill It With Fire é basicamente uma demo glorificada. Tendo como principal proposta a eliminação massificada de aranhas das mais variadas formas possíveis, o jogo tem escassez como palavra de ordem, apresentando uma dificuldade notória em desenvolver seu potencial naquele momento, carecendo de variedade nos objetivos, no design de fases e até mesmo na quantidade de armas. Por sorte, Kill It With Fire 2 conseguiu correr para além das suas amarras e oferecer uma aventura diversa e de fluidez ímpar.

Um verdadeiro Aranhaverso

A premissa básica de Kill It With Fire é basicamente matar aranhas das mais diversas formas que o jogo oferece. No original, o título se sustentava com várias fases fechadas apresentadas de forma quase linear e o jogador precisava ir aumentando cada vez mais a quantidade de aranhas mortas a fim de ir desbloqueando (e cumprindo) novos objetivos e áreas dentro de cada estágio.




A premissa básica da sequência não é muito diferente disso, mas o jogo se preocupou em encorpar todos os seus sistemas e se transformar em um verdadeiro collect-a-thon, com um montão de elementos a serem colecionados em meio à matança aracnídea.

Kill It With Fire 2 começa com um cenário familiar, que é o da casa do primeiro jogo, quase como um déjà vu, e é onde o jogador é apresentado às suas mecânicas básicas de movimento, busca de aranhas em locais específicos, como as gavetas e mobília, além de introduzir a primeira arma: a prancheta de objetivos, que, como a descrição bem sugere, pontua os objetivos da fase.




Logo em seguida, a situação começa a escalar e logo percebemos que aquela não era uma casa comum, mas um modelo dentro de uma loja de móveis e construção. Após escapar daquele lugar por um portal, é liberado o acesso ao hub, uma nave que funciona como uma base de resistência contra a invasão.

O acesso às instalações do local está parcialmente interditado porque é necessário coletar o Composto X para desbloqueá-las. Para isso, o jogador precisa utilizar o portal não só para colecionar o dito elemento — adquirido ao completar as missões secundárias da lista —, mas também para ir adquirindo o acesso a outros mundos aracnídeos até, eventualmente, reconquistar o acesso completo à nave antes de, enfim, rumar ao desafio final.




No total, há cinco estágios principais acessados pelo transportador — casarão abandonado, cidade, loja de construção, Velho Oeste e inferno das aranhas — e mais um que existe como uma espécie de simulação virtual dentro da rede da base. Cada um conta com um objetivo principal, mas também com as já mencionadas tarefas secundárias, que rendem novas armas e o desbloqueio de um novo fragmento de Composto X.

A graça, então, é que a estrutura geral de Kill It With Fire 2 funciona como a de Super Mario 64, com um hub universal e os vários estágios com caráter de exploração livre cuja variedade de objetivos estimula a decisão do próprio jogador em relação a qual ele quer seguir e completar.




Enquanto as fases do primeiro título eram pouco inspiradas e com um design consideravelmente incômodo de se transitar em várias instâncias, a sequência fez um excelente trabalho em cada um dos ambientes disponíveis, deixando o jogador bem encorajado a completar toda a lista de afazeres propostos além da missão principal determinada.

Esses estágios, inclusive, estão carregados de referências externas para qualquer indivíduo mais atento e a maneira como elas são introduzidas pareceu bastante natural. O primeiro deles, por exemplo, é um dos mais simples e corresponde a uma construção mal-assombrada cujo carpete reproduz as mesmas formas geométricas de O Iluminado, além da presença de um triciclo bastante incômodo que fica seguindo o jogador aonde quer que ele vá.




A fase seguinte é a da cidade, mas não é uma simples representação urbana. Tal metrópole é habitada apenas por aranhas e, por isso, ela existe em uma escala favorável a elas. Esse diferencial imediatamente coloca o jogador como uma figura gigantesca para os pobres aracnídeos, que terão o dia arruinado por uma figura em uniforme hazmat derrubando todas as construções em seu caminho como uma simples maquete — tal como acontece com o Godzilla. Para reforçar esse intertexto, não só o jogador garante acesso a um bafo atômico de destruição em massa, como a própria trilha sonora evoca o tema musical do lagartão em questão.

Enquanto o estágio da loja de material de construção assume o mesmo tom quase tradicional do primeiro, o casarão, o cenário do Velho Oeste é um pouco mais incomum, uma vez que o principal dele depende de um desafio muito específico em que o jogador precisa encarar as ondas de aranhas gigantes que chegam de trem todos os dias durante o período de uma semana útil enquanto cultiva cactos atiradores que, quando plantados em vasos de durabilidade distinta e posicionados estrategicamente pelo território da vila, ajudam na empreitada de proteger o saloon das invasoras.




Embora a ideia de propor um sistema de jogo fora do padrão seja realmente admirável, é importante ressaltar que a dinâmica, na prática, não é muito interessante por uma série de motivos.

O principal deles é que não há desafio algum nessa empreitada, uma vez que as aranhas gigantes são lentas e pouco resistentes, sendo possível erradicá-las em todas as frentes por onde elas vêm sem a ajuda de qualquer cacto cultivado. Em segundo lugar, o tempo despendido nessa atividade, mesmo que limitando as ações possíveis ao longo do período de cada dia, funciona mais como uma maneira de inflar o tempo de jogo do que de fato convertê-lo em entretenimento prático.




Adicionalmente, há o estágio virtual, que, justificado como um sistema de treinamento para caçadores de aranhas, traz uma série de minijogos que dependem de várias capacidades do jogador, além do inferno das aranhas, a última adição ao título em seu lançamento oficial após acesso antecipado, que serve para concluir a campanha-base e ainda bebe diretamente da estética de Doom, mas não antes de cumprir uma série de tarefas menores na própria nave/hub.

Definitivamente infestado, mas não só de aranhas

Nota-se que, além dos objetivos principais, que desbloqueiam o portal de volta, e dos secundários, que em sua maioria rendem novos fragmentos de Composto X, o design das fases incentiva a exploração que recompensa com outras séries de colecionáveis, como novas armas, novos projetos que podem desbloquear novos equipamentos quando impressos na oficina, elementos cosméticos (para o personagem que normalmente não vemos, pois o jogo é em primeira pessoa), aranhas mutantes a serem mortas, fitas de registro da história, módulos de upgrade para as armas ou dinheiro espacial, que conta com utilidades múltiplas.




Esse leque de coletáveis é realmente bastante robusto e eles estão espalhados ou escondidos com bastante naturalidade pelos ambientes exploráveis, muito provavelmente funcionando como uma resposta às críticas justas a respeito da falta de variedade do primeiro título.

Tal abordagem resolutiva, que preza pelo volume, também se aplica à variedade de armas e equipamentos, cuja maioria traz funcionalidades e efeitos próprios, mesmo que separados em grupos temáticos maiores, como armamento leve, pesado ou armas de fogo, além de corpo a corpo.




A criatividade, nesse quesito, reina e, embora algumas armas sejam bem mais práticas, úteis ou fortes do que outras, os desenvolvedores fizeram um excelente trabalho ao conseguir incluir um arsenal tão variado, permitindo que o próprio jogador as utilize da forma que preferir. Além disso, ao cumprir certas tarefas, os equipamentos podem ser evoluídos e oferecer ainda mais formas de serem usados em seu objetivo central de erradicar os aracnídeos.

Essa variedade toda oferecida por Kill It With Fire 2 é suficiente para criar um fluxo de jogo muito agradável ao longo de suas sete ou oito horas de duração. Isso pode não ser muito, mas é um tempo que você sente ter sido bem gasto e ainda estabelece um contraste em relação a seu antecessor, cuja curta duração e falta de modulação rendia uma experiência insatisfatória — o que definitivamente não é o caso aqui.




Nota-se que essa continuação é visualmente mais complexa também, mantendo o jeitão geral da estética low-poly do primeiro, mas adicionando uma quantidade a mais de detalhes a fim de retratar os mundos de maneira viva, encorpada e estimulante, deixando bem agradável o ato de vasculhá-los atrás desses segredos todos.

Em contrapartida, é importante ressaltar que há alguns tropeços que podem gerar frustração, como alguns bugs visuais e de câmera; além de ser bem chato ter que lidar com algumas “caças ao pixel” devido à natureza diminuta de certas tarefas ou que dependem do sistema de mira — um pontinho bem pequeno no centro da tela — para fazer com que alguns elementos se tornem interativos, em vez de ativá-los por aproximação. Como um complemento, as poucas seções de plataforma são desproporcionalmente frustrantes, já que elas foram incluídas sem que os sistemas gerais de movimento tenham sido adaptados para tal.



Reunindo os parças para montar uma firma de dedetização

Uma das principais características do Kill It With Fire 2 é a possibilidade de jogatina multiplayer. Ela está disponível em dois modos: o primeiro é a própria campanha, que pode ser completada integralmente de forma cooperativa — o que a torna muito mais fácil do que deveria, ressalta-se, uma vez que os desafios aparentemente são projetados em primeira pessoa.

O outro é o modo de extermínio, quando os jogadores são divididos em dois times: o das aranhas e o dos caçadores. Basicamente, trata-se de um esconde-esconde em times. O lado das aranhas tem a vantagem de ser pequeno e de poder se esconder em várias localidades específicas, como atrás dos quadros, embaixo dos móveis ou dentro dos armários e gavetas, além de poder lançar teias que atrasam a movimentação.




O lado dos exterminadores, por sua vez, pode se municiar das várias armas do jogo espalhadas pelo estágio enquanto busca pelos jogadores do time adversário, além de contar com um orçamento que é imediatamente convertido em munição de acordo com o equipamento utilizado.

Enquanto a vitória do lado dos caçadores pode ser alcançada assim que todas as aranhas inimigas forem exterminadas, a do lado das aranhas vai depender do tempo corrido da fase, que pode ser configurado logo no início, durante a criação da sala, assim como o número de rodadas alternadas entre cada um dos times e o estágio onde a ação ocorre.




Nota-se que, nas condições do teste, tal como um esconde-esconde da vida real (ficar simplesmente escondido sozinho, por alguns minutos, sem ter algum papel ativo na brincadeira), a função de aranha acabou sendo a mais tediosa delas.

Ainda assim, com as cópias de análises enviadas pela assessoria, conseguimos jogar algumas partidas apenas com duas pessoas e deu para se divertir com essa dinâmica, embora haja a concordância que a modalidade só mostra seu potencial completo em salas cheias, com um número mais robusto de aranhas e exterminadores jogando simultaneamente. Por conseguinte, é um recurso que com certeza trabalha a favor de aumentar o fator replay do game.



Mate-as com fogo, com água, radiação, tiros, shurikens, sopro atômico, e por aí vai...

Saindo de um Early Access de um ano e meio para enfim alcançar o estado de um lançamento definitivo, Kill It With Fire 2 é uma sequência que conseguiu entender todas as mazelas apresentadas pelo seu antecessor e retorcê-las para entregar um produto muito mais robusto, interessante e fluido por si só. Se o primeiro Kill It With Fire parecia uma demo, sua continuação é uma experiência completa de respeito. E é muito bom ver uma evolução tão nítida para uma proposta dessas.

Prós

  • Fluxo e estrutura da campanha bastante agradáveis, repleta de atividades para o jogador seguir no ritmo que lhe agradar;
  • Variedade significativa de missões secundárias a serem completadas, além de armas, projetos e outros colecionáveis;
  • Fases temáticas surpreendentemente criativas e com paródias à cultura pop inseridas de forma natural;
  • Exploração divertida e bem recompensada, com objetivos principais e secundários bem distribuídos, que incentivam a curiosidade da audiência;
  • Fator replay significativo graças aos sistemas de multiplayer.

Contras

  • Nem toda tentativa de fazer algo diferente deu certo na prática, como o desafio das aranhas no Velho Oeste;
  • Algumas atividades parecem mais longas do que deveriam;
  • A campanha não reajusta o desafio prático durante o modo cooperativo;
  • Problemas técnicos ocasionais, com bugs visuais e de câmera que atrapalham a fluidez da experiência;
  • Alguns sistemas não parecem muito bem calibrados e poderiam ser melhor lapidados, como a interatividade de elementos no cenário dependendo do pontinho de mira ou seções de plataforma mal adaptadas ao sistema de movimento.
Kill It With Fire 2 — PC/PlayStation 5/Xbox Series — Nota: 7.0
Versão utilizada para análise: PlayStation 5

Revisão: Ives Boitano
Análise produzida com cópia digital cedida pela TinyBuild


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João Pedro Boaventura
É jornalista formado pelo Mackenzie e pós-graduado em teoria da comunicação (como se isso significasse alguma coisa) pela Cásper Líbero. Tem um blog particular onde escreve um monte de groselha e também é autor de Comunicação Eletrônica, (mais um) livro que aborda história dos games, mas sob a perspectiva da cultura e da comunicação.
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