Lançado em 2021,
o primeiro Kill It With Fire
é basicamente uma demo glorificada. Tendo como principal proposta a eliminação
massificada de aranhas das mais variadas formas possíveis, o jogo tem escassez
como palavra de ordem, apresentando uma dificuldade notória em desenvolver seu
potencial naquele momento, carecendo de variedade nos objetivos, no design de
fases e até mesmo na quantidade de armas. Por sorte,
Kill It With Fire 2 conseguiu correr para além das suas amarras e
oferecer uma aventura diversa e de fluidez ímpar.
Um verdadeiro Aranhaverso
A premissa básica de Kill It With Fire é basicamente matar aranhas das mais
diversas formas que o jogo oferece. No original, o título se sustentava com
várias fases fechadas apresentadas de forma quase linear e o jogador precisava
ir aumentando cada vez mais a quantidade de aranhas mortas a fim de ir
desbloqueando (e cumprindo) novos objetivos e áreas dentro de cada estágio.
A premissa básica da sequência não é muito diferente disso, mas o jogo se
preocupou em encorpar todos os seus sistemas e se transformar em um verdadeiro
collect-a-thon, com um montão de elementos a serem colecionados em meio
à matança aracnídea.
Kill It With Fire 2 começa com um cenário familiar, que é o da casa do
primeiro jogo, quase como um déjà vu, e é onde o jogador é
apresentado às suas mecânicas básicas de movimento, busca de aranhas em
locais específicos, como as gavetas e mobília, além de introduzir a primeira
arma: a prancheta de objetivos, que, como a descrição bem sugere, pontua os
objetivos da fase.
Logo em seguida, a situação começa a escalar e logo percebemos que aquela
não era uma casa comum, mas um modelo dentro de uma loja de móveis e
construção. Após escapar daquele lugar por um portal, é liberado o acesso ao
hub, uma nave que funciona como uma base de resistência contra a invasão.
O acesso às instalações do local está parcialmente interditado porque é
necessário coletar o Composto X para desbloqueá-las. Para isso, o jogador
precisa utilizar o portal não só para colecionar o dito elemento — adquirido
ao completar as missões secundárias da lista —, mas também para ir
adquirindo o acesso a outros mundos aracnídeos até, eventualmente,
reconquistar o acesso completo à nave antes de, enfim, rumar ao desafio
final.
No total, há cinco estágios principais acessados pelo transportador —
casarão abandonado, cidade, loja de construção, Velho Oeste e inferno das
aranhas — e mais um que existe como uma espécie de simulação virtual dentro
da rede da base. Cada um conta com um objetivo principal, mas também com as
já mencionadas tarefas secundárias, que rendem novas armas e o desbloqueio
de um novo fragmento de Composto X.
A graça, então, é que a estrutura geral de Kill It With Fire 2 funciona como
a de Super Mario 64, com um hub universal e os vários estágios com caráter
de exploração livre cuja variedade de objetivos estimula a decisão do
próprio jogador em relação a qual ele quer seguir e completar.
Enquanto as fases do primeiro título eram pouco inspiradas e com um design
consideravelmente incômodo de se transitar em várias instâncias, a sequência
fez um excelente trabalho em cada um dos ambientes disponíveis, deixando o
jogador bem encorajado a completar toda a lista de afazeres propostos além
da missão principal determinada.
Esses estágios, inclusive, estão carregados de referências externas para
qualquer indivíduo mais atento e a maneira como elas são introduzidas
pareceu bastante natural. O primeiro deles, por exemplo, é um dos mais
simples e corresponde a uma construção mal-assombrada cujo carpete reproduz
as mesmas formas geométricas de O Iluminado, além da presença de um triciclo
bastante incômodo que fica seguindo o jogador aonde quer que ele vá.
A fase seguinte é a da cidade, mas não é uma simples representação urbana.
Tal metrópole é habitada apenas por aranhas e, por isso, ela existe em uma
escala favorável a elas. Esse diferencial imediatamente coloca o jogador
como uma figura gigantesca para os pobres aracnídeos, que terão o dia
arruinado por uma figura em uniforme hazmat derrubando todas as construções
em seu caminho como uma simples maquete — tal como acontece com o Godzilla.
Para reforçar esse intertexto, não só o jogador garante acesso a um bafo
atômico de destruição em massa, como a própria trilha sonora evoca o tema
musical do lagartão em questão.
Enquanto o estágio da loja de material de construção assume o mesmo tom
quase tradicional do primeiro, o casarão, o cenário do Velho Oeste é um
pouco mais incomum, uma vez que o principal dele depende de um desafio muito
específico em que o jogador precisa encarar as ondas de aranhas gigantes que
chegam de trem todos os dias durante o período de uma semana útil enquanto
cultiva cactos atiradores que, quando plantados em vasos de durabilidade
distinta e posicionados estrategicamente pelo território da vila, ajudam na
empreitada de proteger o saloon das invasoras.
Embora a ideia de propor um sistema de jogo fora do padrão seja realmente
admirável, é importante ressaltar que a dinâmica, na prática, não é muito
interessante por uma série de motivos.
O principal deles é que não há desafio algum nessa empreitada, uma vez que
as aranhas gigantes são lentas e pouco resistentes, sendo possível
erradicá-las em todas as frentes por onde elas vêm sem a ajuda de qualquer
cacto cultivado. Em segundo lugar, o tempo despendido nessa atividade, mesmo
que limitando as ações possíveis ao longo do período de cada dia, funciona
mais como uma maneira de inflar o tempo de jogo do que de fato convertê-lo
em entretenimento prático.
Adicionalmente, há o estágio virtual, que, justificado como um sistema de
treinamento para caçadores de aranhas, traz uma série de minijogos que
dependem de várias capacidades do jogador, além do inferno das aranhas, a
última adição ao título em seu lançamento oficial após acesso antecipado,
que serve para concluir a campanha-base e ainda bebe diretamente da estética
de Doom, mas não antes de cumprir uma série de tarefas menores na própria
nave/hub.
Definitivamente infestado, mas não só de aranhas
Nota-se que, além dos objetivos principais, que desbloqueiam o portal de
volta, e dos secundários, que em sua maioria rendem novos fragmentos de
Composto X, o design das fases incentiva a exploração que recompensa com
outras séries de colecionáveis, como novas armas, novos projetos que podem
desbloquear novos equipamentos quando impressos na oficina, elementos
cosméticos (para o personagem que normalmente não vemos, pois o jogo é em
primeira pessoa), aranhas mutantes a serem mortas, fitas de registro da
história, módulos de upgrade para as armas ou dinheiro espacial, que conta
com utilidades múltiplas.
Esse leque de coletáveis é realmente bastante robusto e eles estão
espalhados ou escondidos com bastante naturalidade pelos ambientes
exploráveis, muito provavelmente funcionando como uma resposta às críticas
justas a respeito da falta de variedade do primeiro título.
Tal abordagem resolutiva, que preza pelo volume, também se aplica à
variedade de armas e equipamentos, cuja maioria traz funcionalidades e
efeitos próprios, mesmo que separados em grupos temáticos maiores, como
armamento leve, pesado ou armas de fogo, além de corpo a corpo.
A criatividade, nesse quesito, reina e, embora algumas armas sejam bem mais
práticas, úteis ou fortes do que outras, os desenvolvedores fizeram um
excelente trabalho ao conseguir incluir um arsenal tão variado, permitindo
que o próprio jogador as utilize da forma que preferir. Além disso, ao
cumprir certas tarefas, os equipamentos podem ser evoluídos e oferecer ainda
mais formas de serem usados em seu objetivo central de erradicar os
aracnídeos.
Essa variedade toda oferecida por Kill It With Fire 2 é suficiente para
criar um fluxo de jogo muito agradável ao longo de suas sete ou oito horas
de duração. Isso pode não ser muito, mas é um tempo que você sente ter sido
bem gasto e ainda estabelece um contraste em relação a seu antecessor, cuja
curta duração e falta de modulação rendia uma experiência insatisfatória — o
que definitivamente não é o caso aqui.
Nota-se que essa continuação é visualmente mais complexa também, mantendo o
jeitão geral da estética low-poly do primeiro, mas adicionando uma
quantidade a mais de detalhes a fim de retratar os mundos de maneira viva,
encorpada e estimulante, deixando bem agradável o ato de vasculhá-los atrás
desses segredos todos.
Em contrapartida, é importante ressaltar que há alguns tropeços que podem
gerar frustração, como alguns bugs visuais e de câmera; além de ser bem
chato ter que lidar com algumas “caças ao pixel” devido à natureza diminuta
de certas tarefas ou que dependem do sistema de mira — um pontinho bem
pequeno no centro da tela — para fazer com que alguns elementos se tornem
interativos, em vez de ativá-los por aproximação. Como um complemento, as
poucas seções de plataforma são desproporcionalmente frustrantes, já que
elas foram incluídas sem que os sistemas gerais de movimento tenham sido
adaptados para tal.
Reunindo os parças para montar uma firma de dedetização
Uma das principais características do Kill It With Fire 2 é a possibilidade
de jogatina multiplayer. Ela está disponível em dois modos: o primeiro é a
própria campanha, que pode ser completada integralmente de forma cooperativa
— o que a torna muito mais fácil do que deveria, ressalta-se, uma vez que os
desafios aparentemente são projetados em primeira pessoa.
O outro é o modo de extermínio, quando os jogadores são divididos em dois
times: o das aranhas e o dos caçadores. Basicamente, trata-se de um
esconde-esconde em times. O lado das aranhas tem a vantagem de ser pequeno e
de poder se esconder em várias localidades específicas, como atrás dos
quadros, embaixo dos móveis ou dentro dos armários e gavetas, além de poder
lançar teias que atrasam a movimentação.
O lado dos exterminadores, por sua vez, pode se municiar das várias armas do
jogo espalhadas pelo estágio enquanto busca pelos jogadores do time
adversário, além de contar com um orçamento que é imediatamente convertido
em munição de acordo com o equipamento utilizado.
Enquanto a vitória do lado dos caçadores pode ser alcançada assim que todas
as aranhas inimigas forem exterminadas, a do lado das aranhas vai depender
do tempo corrido da fase, que pode ser configurado logo no início, durante a
criação da sala, assim como o número de rodadas alternadas entre cada um dos
times e o estágio onde a ação ocorre.
Nota-se que, nas condições do teste, tal como um esconde-esconde da vida
real (ficar simplesmente escondido sozinho, por alguns minutos, sem ter
algum papel ativo na brincadeira), a função de aranha acabou sendo a mais
tediosa delas.
Ainda assim, com as cópias de análises enviadas pela assessoria, conseguimos
jogar algumas partidas apenas com duas pessoas e deu para se divertir com
essa dinâmica, embora haja a concordância que a modalidade só mostra seu
potencial completo em salas cheias, com um número mais robusto de aranhas e
exterminadores jogando simultaneamente. Por conseguinte, é um recurso que
com certeza trabalha a favor de aumentar o fator replay do game.
Mate-as com fogo, com água, radiação, tiros, shurikens, sopro atômico, e por aí vai...
Saindo de um Early Access de um ano e meio para enfim alcançar o estado de
um lançamento definitivo, Kill It With Fire 2 é uma sequência que conseguiu
entender todas as mazelas apresentadas pelo seu antecessor e retorcê-las
para entregar um produto muito mais robusto, interessante e fluido por si
só. Se o primeiro Kill It With Fire parecia uma demo, sua continuação é uma
experiência completa de respeito. E é muito bom ver uma evolução tão nítida
para uma proposta dessas.
Prós
- Fluxo e estrutura da campanha bastante agradáveis, repleta de atividades para o jogador seguir no ritmo que lhe agradar;
- Variedade significativa de missões secundárias a serem completadas, além de armas, projetos e outros colecionáveis;
- Fases temáticas surpreendentemente criativas e com paródias à cultura pop inseridas de forma natural;
- Exploração divertida e bem recompensada, com objetivos principais e secundários bem distribuídos, que incentivam a curiosidade da audiência;
- Fator replay significativo graças aos sistemas de multiplayer.
Contras
- Nem toda tentativa de fazer algo diferente deu certo na prática, como o desafio das aranhas no Velho Oeste;
- Algumas atividades parecem mais longas do que deveriam;
- A campanha não reajusta o desafio prático durante o modo cooperativo;
- Problemas técnicos ocasionais, com bugs visuais e de câmera que atrapalham a fluidez da experiência;
- Alguns sistemas não parecem muito bem calibrados e poderiam ser melhor lapidados, como a interatividade de elementos no cenário dependendo do pontinho de mira ou seções de plataforma mal adaptadas ao sistema de movimento.
Kill It With Fire 2 — PC/PlayStation 5/Xbox Series — Nota: 7.0Versão utilizada para análise: PlayStation 5
Revisão: Ives Boitano
Análise produzida com cópia digital cedida pela TinyBuild


















