Análise: A Pizza Delivery — a verdadeira pizza são os amigos que fazemos pelo caminho

Uma simples entrega acaba se tornando uma jornada de autoconhecimento em um mundo surreal.

em 06/11/2025
Uma pizza pode ser muito mais que uma refeição e servir para ajudar pessoas a se conectarem. Como? Em A Pizza Delivery, um jovem entregador deve percorrer uma jornada cheia de quebra-cabeças e personagens enigmáticos antes de completar sua última entrega.

Chegou seu pedido

B é um entregador que trabalha para a pizzaria do Earl. Após entregar mais uma pizza para um cliente satisfeito, chegou a hora de partir para a última entrega, que acaba o conduzindo por um caminho atípico, com enigmas e lembranças sobre várias pessoas e até ele mesmo. 

Montado em sua Vespa, B sempre tem um telefonema para atender em um orelhão que está no meio do nada. A instrução é clara: ele está levando duas pizzas, uma para o cliente e outra que pode ser partilhada com pessoas pelo caminho, ou não. Inclusive é possível finalizar a história sem entregar nada para ninguém. Em sua rota, também aparecem alguns quebra-cabeças, como portas que são abertas com chaves incomuns ou senhas encontradas em objetos pelo caminho.

No fim, A Pizza Delivery é mais sobre narrativa do que jogabilidade, visto que, mesmo me perdido algumas vezes pelo caminho, consegui concluir a aventura em menos de duas horas. Ainda assim, aconteceram algumas falhas durante a partida que precisam de uma atenção.

A principal delas é a ausência de checkpoints. Por mais que o jogo seja curto, nem todo mundo consegue ter tempo para jogar de uma vez. O problema é que caso o jogador precise interromper sua partida, ele é obrigado a refazer as interações com outros personagens e itens da área em que ele está, retornando ao começo. Essa questão se torna mais bizarra ainda pelo fato de que itens-chave são mantidos no seu inventário, mas precisam ser coletados de novo para funcionar.

Um exemplo prático é o da porta que abre com uma estrela-do-mar, na segunda área, a da cidade escura. Eu coletei os objetos da área, entre eles a criatura marinha, mas precisei interromper minha partida. Ao retomar, fui direto para a porta que necessitava dela, mas mesmo constando no inventário, não consegui usá-la. Precisei ir para o outro lado do mapa e pegá-la mais uma vez, para assim dar prosseguimento no jogo.

Além disso, houve alguns momentos em que B. não correspondia aos meus comandos no momento exato. Como A Pizza Delivery não se trata de um jogo que necessita de respostas rápidas, é um pouco frustrante sofrer para pegar a pizza ou subir na moto, já que são os comandos mais repetidos durante a jornada.

Partilhando pedaços e histórias

Do ponto de vista narrativo, a história de A Pizza Delivery tem como foco fazer B interagir com diferentes personagens e, caso ele decida dividir um pedaço de pizza com algum deles, acaba aprendendo um pouco mais sobre suas vidas e isso os “libera” de seus fardos e os manda para casa — seja esse lar um lugar físico ou figurado, pois há diversos indícios de que estamos navegando por uma espécie de limbo, e essas pessoas sejam almas que apenas querem um alento antes de descansarem de fato.

Entretanto, caso você esteja jogando em português vai notar uma certa bagunça nos diálogos, pois há uma mistura indigesta de termos tanto do português de Portugal quanto do português brasileiro. Quem for mais novo, ou não dominar as nuances linguísticas entre essas variações com certeza irá acabar perdendo informações importantes para o entendimento da narrativa. 

Some isso há algumas palavras que ficam sem letras por questões de acentuação, tanto nos balões de diálogo quanto nos menus, e se torna mais tentador tentar a sorte em algum dos outros idiomas disponíveis, como alemão, inglês ou espanhol.

Fora esse detalhe, devo dar os devidos louros para o trabalho gráfico e sonoro de A Pizza Delivery. A escolha de usar gráficos ao estilo low poly combinou com os ambientes retratados e, fora a cidade escura e enevoada que não me agradou tanto, as paisagens são muito bonitas, com direito a auroras boreais no meio da noite, um pôr-do-sol ao cruzarmos uma longa via suspensa sobre o mar com a Vespa e até um cemitério em meio a uma chuva de fim de tarde.

A música consegue acompanhar bem o ritmo da viagem de B. Sempre se mantendo calma, com mais intensidade nos momentos climáticos e até usando o silêncio para momentos baseados nos diálogos com os NPCs que encontramos para alimentar. Ainda assim, por se tratar de um jogo essencialmente curto, fica a sensação de que algumas áreas e diálogos poderiam ser melhor explorados. 

Há diversos momentos que poderiam render mais interações e tornar a narrativa mais rica, mesmo que pelos seus elementos secundários, como as caixas de música que encontramos como colecionáveis pelo caminho, ou elementos com os quais interagimos, mas apenas existem no espaço e não tem nenhum outro tipo de significado mais profundo.

Outro recurso que poderia vir a calhar seria ter um final alternativo. Como é possível simplesmente concluir o jogo sem dar um pedaço de pizza sequer para ninguém, e nem realizar a entrega final, seria interessante ver algum tipo de consequência sobre isso no protagonista.

A aparência está boa, mas faltou tempero

A Pizza Delivery tem uma mensagem interessante que sofre a interferência de problemas incômodos. Algumas atualizações podem dar jeito na parte referente à jogabilidade e problemas de tradução, mas ainda assim a narrativa poderia ter uma riqueza maior com o tanto de possibilidades que poderiam ter sido aproveitadas dos seus elementos em segundo plano.

Prós

  • A narrativa traz momentos de reflexão com base em diálogos leves a experiência de vida dos personagens;
  • As paisagens são muito bonitas e bem trabalhadas;
  • A trilha sonora desempenha um bom papel tanto em sua presença quanto na sua ausência.

Contras

  • Algumas falhas estruturais de jogabilidade, como comandos que não respondem na hora e ausência de checkpoints;
  • Se interrompemos a partida, temos que coletar novamente todos os itens da área, mesmo que eles já estejam em nosso inventário;
  • Diversas falhas na localização para o português, misturando a linguagem de Portugal e do Brasil;
  • É um jogo curtinho que acaba não aproveitando toda a complexidade que sua narrativa poderia oferecer ou a tomada de decisões do protagonista.
A Pizza Delivery — PC/PS5/XSX — Nota: 5.5
Versão utilizada para análise: PS5
Revisão: Juliana Piombo dos Santos
Análise feita com cópia digital cedida pela Dolores Entertainment
OpenCritic
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Carlos França Jr.
é amante de joguinhos de luta, corrida, plataforma e "navinha". Também não resiste se pintar um indie de gosto duvidoso ou proposta estranha. Pode ser encontrado falando groselhas no @carlos_duskman
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