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Análise: Beyond Good & Evil - 20th Anniversary Edition é o retorno modesto de um clássico cult

A nova versão da aventura da repórter Jade traz melhorias pontuais e conservadoras.


Produzido por Michel Ancel, criador de Rayman, e lançado originalmente em 2003, Beyond Good & Evil é um caso curioso: na ocasião, o jogo de aventura foi um fracasso de vendas, mas, com o passar dos anos, passou a ser notado e elogiado, alcançando o status de cult. Uma sequência foi anunciada em 2017, mas até hoje continua no limbo, frustrando os fãs.


Eis que a Ubisoft surpreende a todos com Beyond Good & Evil - 20th Anniversary Edition, uma nova edição do clássico para as plataformas modernas que conta com melhorias técnicas e até mesmo pequenos extras inéditos. Apesar de conservadora, a versão que comemora 20 anos do lançamento original é sólida, por mais que a aventura em si se mostre um pouco datada e limitada para os padrões atuais.

Revitalizando a aventura com vários upgrades

Acredito que é mais interessante avaliar primeiro as melhorias da 20th Anniversary Edition, afinal esse é o grande chamariz desta versão.

A novidade mais notável está na ambientação, que recebeu melhorias significativas. Em uma primeira olhada, parece que pouco foi feito nesta área, mas com observação é possível notar modelos redesenhados, texturas de maior qualidade, iluminação superior, música remasterizada e mais. Um ponto legal é que as alterações foram equilibradas e sem grandes exageros, não interferindo na identidade visual do título original. Quando colocadas lado a lado com a versão HD lançada em 2011, as modificações ficam ainda mais aparentes.


Além disso, muitas características práticas do jogo foram modernizadas: os controles foram redesenhados e simplificados, foi incluído salvamento automático e progressão cruzada entre as plataformas, as cenas de história podem ser saltadas, novas conquistas e troféus foram adicionados, entre outros vários detalhes. Um ponto importante é que o texto está completamente localizado para o português, seguindo a tendência dos últimos títulos da Ubisoft. Com isso, a experiência geral ficou mais suave e acessível.

Tecnicamente, o título é capaz de alcançar os 60 fps e resoluções até 4k. Joguei no PC e encontrei alguns problemas, como engasgos e travamentos. Alterando alguns arquivos de configuração, consegui rodar o jogo em taxas maiores de quadros, o que resolveu completamente os saltos na ação, mas acho que a Ubisoft poderia ter feito um trabalho melhor nesse sentido — um título com 20 anos de idade deveria ter desempenho impecável. De qualquer maneira, nos consoles o jogo roda satisfatoriamente.


Fora as melhorias técnicas, foi incluído conteúdo inédito. Pelo mundo, é possível encontrar novas roupas para os protagonistas, e há também itens que fazem ligação com a sequência que ainda está em produção — as adições são simples, mas são um ótimo incentivo para veteranos visitarem novamente a aventura. Já o modo speedrun desafia os jogadores a terminarem a aventura o mais rápido possível.

Por fim, a edição de aniversário conta com uma galeria repleta de imagens, vídeos e textos que detalham a concepção e desenvolvimento do jogo. Ao meu ver, este é um dos pontos altos dessa versão, pois mostra com clareza a transformação da aventura com o passar dos anos, mostrando principalmente os desafios e obstáculos que apareceram pelo caminho. Porém, ao meu ver, o apelo é maior para quem é fã de longa data de BG&E.



Explorando um planeta em uma aventura diversificada

Fora as melhorias, Beyond Good & Evil continua intocado, para o bem e para o mal. A trama se desenrola no planeta Hillys, que trava uma guerra contra uma raça alien de nome DomZ. Um órgão do governo chamado Alpha Sections supostamente protege a população, mas há suspeitas de que na verdade o grupo tenha uma aliança secreta com os invasores.

Nesse contexto, acompanhamos Jade, uma repórter que cuida de órfãos junto com seu tio Pey’j, um porco humanoide. Ela acaba se juntando ao IRIS Network, um grupo de resistência que tenta trazer à tona a verdade sobre a invasão dos DomZ. Para isso, Jade precisa utilizar suas habilidades como fotógrafa e investigadora para coletar evidências que corroborem a conspiração. No processo, ela acaba descobrindo também mistérios sobre seu próprio passado.


A jornada de Jade mescla diferentes estilos em uma aventura variada. Na maior parte do tempo, atravessamos diferentes localidades em busca de tesouros, resolvendo puzzles e enfrentando inimigos. A fotografia é um elemento importante: além de registrar evidências, é possível tirar fotos de dispositivos para desbloqueá-los e de criaturas para receber dinheiro. Para se locomover entre lugares distantes, a repórter pilota um hovercraft, que pode ser incrementado com melhorias diversas, o que permite acessar novas áreas.



Em uma investigação um pouco datada

Beyond Good & Evil é amplamente aclamado por sua ambientação simultaneamente fantasiosa e séria, em conjunto com personagens carismáticos e uma boa mistura de estilos de jogabilidade. Porém, na verdade, o título é mais limitado do que parece, e essas características ficam ainda mais aparentes 20 anos depois.

De longe, o melhor do jogo está na exploração. Hillys é vibrante e repleto de atividades fora da missão principal, como minigames, corridas de hovercraft, o trabalho de fotografar todos os seres vivos do planeta e a busca por pérolas, que são utilizadas para melhorar o veículo de Jade. Além disso, há um esforço para tentar deixar o mundo vivo, com personagens e veículos em todos os cantos.


O tema principal de investigar uma aliança entre as forças de defesa e os aliens é instigante, principalmente a parte de tirar fotos das evidências. Além disso, os personagens esbanjam carisma e é muito divertido acompanhar suas interações — gosto demais da relação leve entre Jade e Pey’j, que ficam implicando um com o outro em diálogos divertidos. É uma pena que a história mal se desenvolva, deixando várias pontas soltas no final, mas não deixa de ser interessante e diferente.

Nas mecânicas, BG&E se revela simples demais. Para começar, os calabouços são básicos, com puzzles extremamente fáceis de resolver, como empurrar caixas, esconder-se de inimigos ou encontrar chaves em lugares óbvios. Já o combate é rudimentar, resumindo em apertar o botão de ataque repetidamente para fazer Jade destruir os inimigos com seu bastão. Há alguma tentativa de trazer variedade com habilidades dos parceiros e uma luva que permite lançar discos para ativar dispositivos e inimigos distantes, mas as ideias não saem do lugar comum — por sorte os combates acabam bem rápido.


A progressão é completamente linear, em uma aventura que dura menos de dez horas. Há várias atividades opcionais e segredos que ajudam a tornar a experiência mais rica, mas é uma pena que o mundo em si seja tão compacto. É lamentável também que as ideias de Hillys sejam subaproveitadas em ambientes sem graça e parecidos, como uma caverna, uma fábrica e uma base militar. No entanto, apesar dos problemas, a aventura é agradável e tem alguns bons momentos.

No fim, a sensação que fica é que BG&E é só um esboço ou início de algo maior. Claramente nota-se que a equipe de desenvolvimento tinha intenção de criar um universo mais rico e elaborado, mas limitações e desafios impediram que esse objetivo fosse alcançado — a galeria incluída nesta versão confirma isso por meio de imagens e vídeos que mostram a transformação do jogo durante a produção.



Uma boa oportunidade de revisitar um clássico cult

Beyond Good & Evil - 20th Anniversary Edition é uma remasterização que consegue capturar a essência do original ao mesmo tempo em que oferece melhorias bem-vindas para as plataformas modernas. O visual revitalizado, os ajustes nos controles e a inclusão de conteúdo inédito são destaques que certamente agradarão tanto aos fãs antigos quanto aos novos jogadores. Embora o jogo ainda apresente algumas limitações técnicas e de design, especialmente evidentes 20 anos após seu lançamento original, ele mantém seu charme e continua a ser uma experiência envolvente.

Prós

  • Aventura agradável que mescla exploração, combate, furtividade e fotografia;
  • Ambientação envolvente com personagens carismáticos e um universo intrincado;
  • Boa adaptação visual para as plataformas modernas, com direito a alguns extras.

Contras

  • Apesar das melhorias, o jogo ainda sofre com engasgos técnicos;
  • O conteúdo inédito é simples demais;
  • Muitas das ideias e mecânicas do jogo são rasas e subdesenvolvidas.
Beyond Good & Evil - 20th Anniversary Edition — PC/PS4/PS5/XBO/XSX/Switch — Nota: 7.5
Versão utilizada para análise: PC
Revisão: Vitor Tibério
Análise produzida com cópia digital cedida pela Ubisoft


é brasiliense e gosta de explorar games indie e títulos obscuros. Fã de Yoko Shimomura, Yuzo Koshiro e Masashi Hamauzu, é apreciador de roguelikes, game music, fotografia e livros. Pode ser encontrado no seu blog pessoal e nas redes sociais por meio do nick FaruSantos.
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