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Análise: Torn Away (Multi): a resiliência de uma garota em meio à realidade infernal da guerra

Acompanhe a jornada de uma pequena menina tragada pela brutal realidade da Segunda Guerra Mundial em busca de sobrevivência.

Guerras são acontecimentos históricos que impactam profundamente as vidas dos cidadãos nos territórios em que são travadas, especialmente em relação a públicos mais vulneráveis, como as crianças. Quando se trata de um conflito de grandes proporções, tais como a Segunda Grande Guerra, as marcas deixadas na sociedade podem ser tão profundas que é comum, mesmo após mais de 75 anos de seu término, surgirem manifestações artísticas retratando o sofrimento e a angústia da população de países invadidos por forças estrangeiras.


Torn Away, título de estreia do estúdio russo perelesoq, é ambientado justamente no período histórico da Segunda Guerra Mundial, retratando o impacto do conflito entre o exército nazista alemão e a União Soviética sob um ponto de vista bem diferente do habitualmente adotado por games do gênero: pela ótica de uma pequena garotinha russa que perdeu quase tudo em sua vida, menos a esperança de sobreviver.


Quando o mundo começa a ruir

Em Torn Away, conhecemos Asya, uma jovem e esperta menina de 10 anos de idade, moradora da cidade de Stalingrado, na União Soviética dos anos 1940.

Assim como outras crianças de sua idade, Asya gosta de desenhar, conversar com seus brinquedos e viver feliz e em paz com seus pais. Porém, sua vida começa a mudar a partir da convocação de seu pai para atuar pela força aérea soviética contra os invasores alemães.

Em 23 de agosto de 1942, querendo preparar uma surpresa de aniversário para sua mãe Katya, que desde a partida do esposo andava triste e angustiada, Asya deixou a casa toda preparada: pintou diversos desenhos para presenteá-la, costurou a antiga luva deixada por seu pai e que precisava de reparos, colocou a música que ela gosta para tocar na vitrola, só aguardando sua chegada em casa… até que uma bomba cai sobre a cidade.

Era a invasão do exército alemão sobre Stalingrado, que vitimou mais de 90 mil pessoas e aprisionou cerca de 60 mil cidadãos soviéticos para realização de trabalhos forçados, dentre eles Asya e Katya. Logo, as duas se veem aprisionadas em um campo para Ostarbeiter (OST), termo usado pelos nazistas para designar trabalhadores do Leste Europeu obrigados a suportar duras condições de trabalho pela sobrevivência.
 
A partir desse trágico acontecimento, o jogador deverá guiar Asya em busca de sua liberdade, não sem antes se deparar com situações inimagináveis de tão fortes.

Uma mão amiga

A história de Torn Away é contada majoritariamente pelo ponto de vista de Asya, com a especial ajuda de Camarada Mitten: trata-se da luva que seu pai deixou em casa e que a menina, ao consertar a vestimenta, acrescentou dois botões e costuras que acabaram por formar um “rosto”.

É por meio de Mitten que descobrimos muito sobre o que Asya sente e pensa nesse caos todo; muito de sua inocência e pureza acabam sendo transmitidas pelas “falas” da luva.

Durante boa parte do enredo, Mitten também é responsável por interagir com o jogador por meio de avisos sobre os elementos em cena, conversas com Asya sobre as situações vivenciadas e da proposição de ações para avançar na jornada.
 
As atividades que ajudam a garota a tentar fugir desse pesadelo não respeitam uma sequência temporal restrita. Muitas vezes, avançamos ou voltamos no tempo para relembrar (e realizar) ações passadas, como forma de contar a história de uma maneira lógica e estruturada.

Em busca de sobrevivência

Em uma situação catastrófica como a vivenciada por Asya, ela precisará realizar ações diversas para se manter viva, como cozinhar e fazer reparos no campo de trabalhos forçados. Para essas ações manuais, é adotada pelo game a perspectiva tridimensional em primeira pessoa. A mesma perspectiva é adotada também em situações de exploração de ambientes abertos e amplos.


Nessas situações, o controle dos objetos se dá por meio de um ponteiro em tela, sendo apresentadas pequenas dicas ao posicioná-lo sobre os elementos a serem manuseados. Por exemplo: indicações na tela sobre a área a se posicionar um martelo para pregar o fundo de uma bota ou instruções para girar o analógico do gamepad após selecionar uma manivela, fazendo-a rotacionar.

Já ao explorarmos ambientes internos, como em casas e esconderijos, o game permite o controle tridimensional da personagem em terceira pessoa. Itens do cotidiano localizáveis pelos cenários, como fósforos, canecas e papeis, serão de alguma forma úteis para que a pequena menina consiga ir sobrevivendo aos percalços e avançando em sua jornada.

Situações em que se precisa localizar um item no cenário ou realizar alguma ativação de elemento específico são auxiliadas por um recurso que marca com um losango branco o local de interação ao pressionarmos um botão do gamepad (no caso do Xbox, o botão RT). Esse auxílio é importante sobretudo quando é necessário resolver enigmas no jogo.
 
Uma perspectiva 2D é implementada em Torn Away nos momentos em que Asya precisa fugir dos soldados nazistas praticando stealth, ou em cenas mais contemplativas da situação corrente da personagem. Nesses casos, dependendo do contexto, a pequena russa poderá correr, agachar, pular, empurrar objetos, se esconder atrás de outros elementos do cenário, dentre outras ações.

Ambientação gráfica e sonora

Como forma de imergir o jogador no universo de Asya, os desenvolvedores de Torn Away resolveram adotar um estilo gráfico que apresenta semelhanças com os desenhos que a menina gostava de pintar ainda no começo da história.

Tanto há beleza na representação dos cenários quanto um uso adequado de tons de cores, de brilho e de contraste que conseguem refletir o estado de espírito da garota e a carga emocional pesada de determinados acontecimentos presenciados.

Efeitos visuais são aplicados para dar ênfase a determinados momentos da história, tais como a utilização de perturbações escuras ao redor do centro da tela quando Asya está prestes a desmaiar devido ao sofrimento que vivencia.

O uso de sons de fundo e efeitos sonoros também foi muito bem pensado a cada situação apresentada no game, permitindo uma intensa imersão e constante senso de tensão por parte do jogador.

As falas de Asya, de Camarada Mitten e dos outros personagens de Torn Away podem ser acompanhadas tanto em russo quanto em inglês, com legendas em diversos idiomas, incluindo português.

Embora sempre bem-vinda, a localização em português de Torn Away deixa a desejar pela presença constante de erros de concordância nominal, verbal e falta de padronização da terminologia utilizada, o que não impede a realização das atividades propostas, mas denota que provavelmente a desenvolvedora acabou por não submeter a legenda em português do game a uma revisão mais criteriosa, que certamente corrigiria a maioria dos erros encontrados.

Ritmo de ação

Uma das escolhas da equipe de desenvolvimento de Torn Away em relação às mecânicas de interação com o game foi deixá-lo em um ritmo de movimentação bem mais lento do que o habitual para jogos de exploração. Essa escolha reflete-se em uma proposital “lentidão” de Ayla ao caminhar pelos cenários.

Essa abordagem foi utilizada tanto como forma de demonstrar a menor aptidão física de uma criança em relação aos enormes desafios que enfrenta quanto como uma maneira de fazer o jogador acompanhar de forma compassada o desenrolar da ação em momentos-chave da história.

Dessa forma, permite-se ao gamer contemplar o cenário, as falas e ações demonstradas, fazendo com que se reflita sobre a situação do momento e, de modo geral, sobre o impacto da guerra na vida da garota. Vale ressaltar que os desenvolvedores, na apresentação de Torn Away às plataformas, o descrevem como uma “história interativa”, o que valida a intenção e a aplicação do método adotado.

Mecânicas de jogo

Dada a grande quantidade de perspectivas visuais e de controle da personagem principal e de suas ações (2D, 3D em primeira pessoa, 3D em terceira pessoa), existe também uma grande variedade de ações a serem realizadas. Porém, neste ponto, Torn Away acaba pecando um pouco por tentar “abraçar o mundo” de uma forma não tão bem refinada.

Em alguns momentos em que é necessário interagir com elementos específicos do cenário para prosseguir, sobretudo no começo da jornada, encontrar a sequência exata dos elementos pedidos e controlar as ações a serem tomadas não é tão intuitivo quanto poderia ser.

Ações que aparentemente foram pensadas primeiro para serem executadas com um mouse em um computador (como a costura dos botões/olhos na luva) são mais difíceis de ser executadas com exatidão por meio do combo “apontador virtual em tela + analógico” de um gamepad.

A movimentação de Asya nos cenários em primeira pessoa, em que a menina precisa vencer o vento e a neve, é mais difícil que o habitual, além do controle da personagem em perspectiva 2D não abrir muita margem a erros em determinadas fases que necessitam de pulos com exatidão.

Uma dura realidade

Embora seja uma história contada sob a ótica de uma criança, a realidade da guerra acaba por se impor de forma brutal. Pela exposição de Asya a situações fortes, como bombardeios, tiroteios, morte de animais e de pessoas (inclusive de entes queridos da jovem) e até mesmo uma tentativa de violação, acabamos por presenciar gradativamente a inocência e a pureza da garota sendo arrancadas de si durante a jornada.

Porém, da mesma forma que a guerra consegue jogar luz ao pior do ser humano, em determinados momentos desse pesadelo é possível notar a bondade de algumas pessoas que, mesmo se arriscando, tentam ajudar a protagonista.

Esse mix de situações, que consegue refletir muito bem o ambiente de convulsão social que uma guerra proporciona, acaba por moldar os comportamentos e sentimentos de Asya, fazendo-a amadurecer muito cedo por causa do sofrimento que vivenciou.

Uma forma poética encontrada pelos desenvolvedores do jogo para ilustrar esse processo é por meio do diário de Asya. Nele, podemos encontrar inscrições feitas pela garota desde antes de começar seu calvário até os momentos finais, e pode-se notar claramente, por meio da escrita e de ilustrações, sua transformação. 

Em seu diário, Asya também guarda documentos e cartas que encontra em seu caminho, referente à história de outras pessoas. Uma bela forma encontrada pela perelesoq para homenagear outros atores relevantes na história real da Segunda Guerra Mundial, como os judeus e os prisioneiros de guerra.


Ensinamentos

Embora o desfecho da história real da guerra seja de conhecimento amplo, até o fim da jornada o jogador sente-se atraído ao enredo pelas surpresas e reviravoltas às quais Asya é submetida (em sua maioria, desagradáveis), fazendo com que se crie uma relação forte de empatia com a menina.

A história envolvente, em conjunto com a bem-planejada direção de arte, faz com que Torn Away de fato seja um convite a se refletir profundamente sobre como o ambiente extremamente hostil que a guerra proporciona pode impactar tão severamente a integridade física e mental de seres inocentes como as crianças, trazendo consigo uma mensagem pacifista importante, sobretudo em tempos bélicos como os que vivemos atualmente.

Mesmo que apresentando deficiências na execução de algumas das mecânicas de jogo propostas, Torn Away consegue cumprir com louvor um papel importante, demonstrando de fato a potencialidade que a mídia videogame tem de ser arte de fato, podendo transmitir mensagens importantes e sendo, indiretamente, catalisador de mudanças benéficas à sociedade.

Prós

  • Uma surpreendente e tocante demonstração artística dos horrores da guerra pelos olhos de uma criança;
  • Ambientação gráfica em estilo desenhado muito bela e condizente com a proposta geral do título;
  • Variadas mecânicas de interação e exploração em 2D e 3D;
  • Uso inteligente de recursos de áudio, proporcionando imersão do jogador na jornada;
  • Coragem e sensibilidade no uso de cenas fortes para contar uma história densa e necessária.

Contras

  • A execução de algumas das mecânicas de interação com o game deixa a desejar;
  • A localização em português apresenta falhas ortográficas, gramaticais e de terminologia.
Torn Away — PS4/PS5/XBO/XSX/PC/Switch — Nota: 8.5
Versão utilizada para análise: XBO
Revisão: Davi Sousa
Análise realizada com cópia digital cedida pela perelesoq

Entendo videogames como sendo uma expressão de arte e lazer e, também, como uma impactante ferramenta de educação. No momento, doutorando em Sistemas da Informação pela EACH-USP, desenvolvendo jogos e sistemas desde 2020. Se quiser bater um papo comigo, nas redes sociais procure por @RodrigoGPontes.
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