Blast from the Past

Strider: a aventura futurística do ninja acrobático completa 35 anos

Sucesso nos fliperamas e Mega Drive, o jogo foi uma colaboração entre mídias distintas.

Na febre dos fliperamas, a Capcom lançou o Capcom Play System, um conceito inovador de hardware de arcade que utilizava placas intercambiáveis para trocar os jogos, em vez de ter que substituir todo o circuito. O sistema se tornou lar de clássicos como Street Fighter II, Final Fight, Cadillacs & Dinosaurs e Strider.


Lançado em 1989, o título nasceu como um mangá, numa parceria entre a Capcom, um grupo de artistas conhecido como Moto Kikaku e a publicadora Kadokawa. A ideia era ser uma mídia compartilhada, em que os quadrinhos contariam a história de origem do protagonista Hiryu, enquanto um jogo para NES seria sua sequência. A Capcom viu mais potencial em produzir uma aventura de ação para sua nova placa, entregando assim um título mais ambicioso.

O temor da Guerra Fria do passado, no futuro

Ambientado no ano de 2048, Strider narra a operação do ninja Hiryu contra o tirano Grandmaster Meio, que conquistou poder global após a construção de sua poderosa base e arma, The Third Moon. Hiryu faz parte do grupo mercenário conhecido como Striders, que foi contratado pelos rebeldes que se opunham ao império de Meio. Equipado com a espada de plasma Cypher, o ágil agente deve enfrentar todo um exército e qualquer outro obstáculo em seu caminho.

Começando a aventura na antiga República Socialista Soviética do Cazaque (atual Cazaquistão), Strider já destaca um de seus maiores atrativos: a ambientação. Situado em um futuro distante, somos apresentados a um país com uma estética que combina elementos da Rússia com ficção científica. Há referências à época da Guerra Fria, como se ainda estivesse ocorrendo em 2048 e a União Soviética existisse — um dos vilões, curiosamente, é inspirado em Mikhail Gorbachev.

Essa ambientação se mantém durante todo o jogo, tornando-se ainda mais interessante à medida que exploramos as fases. Somos apresentados a cinco níveis bastante extensos, permitindo variações de ambientes em um mesmo estágio. Por exemplo, a primeira fase começa do lado de fora numa área urbana e progressivamente adentramos um prédio que abriga uma espécie de congresso político; já a segunda se passa na base de uma montanha na Sibéria, atravessando fábricas, instalações elétricas e culminando com a invasão a uma base aérea inimiga no topo de uma torre.

A trilha sonora do jogo entrega músicas atmosféricas mesmo dentro das limitações de um sintetizador de som FM. As melodias são bem marcantes, e o título sabe usar o silêncio ou sons mais cacofônicos para criar momentos de tensão. Um destaque especial deve ser dado às vozes nas cenas, pois Strider tem a peculiaridade de retratar cada personagem em seu idioma nativo, apresentando diálogos em inglês, japonês, russo, mandarim, espanhol e suaíli.

Acrobacias “ninjísticas”

Strider era um jogo de ação bem distinto para a época, focado na movimentação do jogador para superar diversos desafios. Basta pular em alguma direção para ver Hiryu realizar acrobacias impressionantes para 1989, reagindo ao relevo dos terrenos por onde passa, além de conseguir escalar paredes e se pendurar em tetos.

A principal arma é a Cypher, uma espécie de espada com lâmina de plasma que corta facilmente qualquer coisa no caminho. Até hoje é satisfatório fatiar robôs e inimigos menores com facilidade, ouvindo o estridente barulho metálico a cada espadada. Além disso, o ninja conta com alguns drones auxiliares que podem ser adquiridos durante as fases, como um minissatélite que persegue ameaças e um pássaro bombardeiro.

Claro que a missão não é fácil, como em todo bom título de fliperama. A desatenção não é permitida e, por mais que possamos ser atingidos três vezes, passos em falso podem nos colocar em situações complicadas ou de morte imediata, como cair em buracos. 

Os chefes também são grandes ameaças e exigem estratégias diferentes para serem derrotados — especialmente aquele que é um núcleo antigravitacional. Ainda assim, não é um dos jogos mais complicados de sua época e o aprendizado torna os desafios mais justos.

Importante nos arcades e consoles

Como boa parte dos grandes sucessos dos fliperamas, Strider recebeu alguns ports para outros sistemas. Além das versões de qualidade duvidosa para os PCs da época — “cortesia” da U.S. Gold e Tiertex, que mencionarei em breve —, a maior edição foi para o Mega Drive, em 1990.

Naquela época, a Nintendo obrigava as third parties a desenvolver apenas para seus consoles, então a Sega teve que adquirir os direitos para desenvolver o port. Isso resultou numa conversão quase perfeita para o 16-bits, fortalecendo a proposta de "arcade na sua casa” do videogame.

Após a mudança de foco no desenvolvimento, a Capcom providenciou uma nova aventura para o NES que, infelizmente, se resumiu a um jogo de ação medíocre, apesar de ser mais fiel ao mangá. O Master System também recebeu sua dose de ação ninja, mas, nas mãos da Tiertex, resultou em um jogo de qualidade inferior. 

Ainda em 1990, essa mesma desenvolvedora criou Strider II para Mega Drive e computadores, mas a péssima qualidade condenou o título ao ostracismo. Apenas em 2000 a verdadeira sequência, Strider 2, chegou aos fliperamas e ao PS1.

E claro, Hiryu é uma presença constante em diversos crossovers da Capcom. É um personagem obrigatório na franquia Marvel vs. Capcom, está presente nos RPGs táticos Project X Zone 1 e 2, e seu legado influencia o passado em Street Fighter V na figura de Zeku, representando a origem da ordem dos Striders.

Dormente, mas não esquecido

Apesar de termos recebido um jogo novo em 2014, Strider é uma franquia relativamente adormecida. Como a temática de ninjas nunca saiu de moda e a Capcom parece disposta a ressuscitar suas séries antigas, não seria surpresa ver o retorno de Hiryu em mais uma missão perigosa.

Até lá, temos um legado interessante para revisitar e confrontos contra figuras da Marvel e de outras empresas para desfrutar.

Revisão: Juliana Paiva Zapparoli

Estudante de enfermagem de 24 anos, está nesse mundo dos joguinhos desde criança. Fã de games com vibe mais arcade e arqueólogo de velharias, mas não abandona experiências mais atuais. Acompanha a mídia de podcasts, dublagem e ouvinte assíduo de VGM. Pode ser encontrado como @AlecFull e semelhantes por aí.
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