Blast from the Past

Street Fighter III: New Generation marcou o início conturbado de uma geração diferenciada

A tão aguardada sequência de um jogo revolucionário ficou envolta de diversos problemas e decisões controversas.

Como sempre citado, Street Fighter II foi um divisor de águas no mundo dos videogames. Iniciando a primeira febre dos jogos de luta e estabelecendo diversas regras, muitos títulos passaram a seguir seu caminho de várias maneiras, enquanto a franquia da Capcom experimentava outras vertentes, como a série Alpha.


Contudo, o público clamava por uma verdadeira sequência, que abalasse as estruturas dos games novamente. Demorou até 1996 para a Capcom lançar a continuação que os jogadores desejavam, com Street Fighter III: New Generation, mas o jogo teve uma recepção negativa para o que deveria ser o título que revolucionaria o gênero.

Um desenvolvimento contra o legado da franquia

Street Fighter III não teve um ciclo de desenvolvimento tranquilo; na verdade, ocorreu uma série de problemas de má gestão por parte da Capcom ao assumir a terceira entrada da franquia. Desde considerar (na fase de planejamento) o desastroso jogo baseado no filme de 1994, como o terceiro jogo até dar toda a responsabilidade do título para uma equipe inexperiente, que estava desenvolvendo um game sem relação com a principal franquia da casa.

Com várias outras produções do gênero sendo desenvolvidas simultaneamente, o trabalho em Street Fighter III começou em 1994. Conforme outros projetos eram concluídos, veteranos se juntavam à equipe e percebiam a bagunça que estavam as ideias para a sequência de um clássico incontestável e o peso que isso representava.

Como se não bastasse o trabalho de criar um jogo tecnicamente ambicioso, a Capcom introduziu sua nova placa de fliperama, a Capcom Play System III (CPS-3), destinada a combater a ascensão dos hardwares 3D. O trabalho com pixel art exigia muito esforço artístico, então conciliar o trabalho criativo com o conhecimento técnico do novo arcade tomou muito tempo de desenvolvimento, o que influenciou diretamente no polimento do título.

Recomendo fortemente o vídeo do canal Thorgi’s Arcade, que tem um extenso vídeo (em inglês) falando sobre toda a criação conturbada do game. 

O poder do pixel art

O fator que mais impressiona em toda a trilogia Street Fighter III é a parte visual. A CPS-3 conseguia armazenar mais memória em relação à segunda placa, que, nos seus últimos anos, sofria por não conseguir lidar com mais armazenamento. Os personagens são carregados com um número significativamente maior de frames de animação, e até movimentos simples como um hadouken apresentavam seis vezes mais quadros que o mesmo movimento em Street Fighter II. Era o poder dos 60 quadros por segundo para os sprites.

Os cenários também têm mais cores e detalhes que em Street Fighter Alpha 2, permitindo a inclusão de mais elementos pré-renderizados sem perder a qualidade de compressão. Há uma influência notável de Darkstalkers no traço das fases, com estruturas que se tornam mais angulares à medida que se elevam na tela.

Por mais irônico que pareça, Street Fighter III dá mais ênfase ao aspecto “street”, com uma ambientação urbana mais marcante. A fase de Nova York para Alex, situada num beco abandonado e sujo, as ruas comerciais de Hong Kong que servem de ringue para Yun, e as vielas londrinas para Dudley são exemplos de obras-primas de pixel art.

Infelizmente, esse zelo artístico não se estendeu a outras áreas do jogo, começando pela jogabilidade. Entre 1991 e 1996, muitas novidades foram adicionadas à franquia dentro e fora da Capcom, mas Street Fighter III acabou sendo mecanicamente limitado. Não há defesa aérea, custom combo, alpha counter, nem os diversos supers simultâneos; o ritmo voltou ao velho sistema de um super por personagem, combate mais pé no chão e combos mais comedidos. Desde o início, o objetivo dos desenvolvedores era criar um sucessor ao sistema de Super Street Fighter II Turbo, e nisso conseguiram, visto a simplicidade do combate.

No entanto, Street Fighter III trouxe algumas adições em New Generation. Cada lutador conta com três super especiais, chamados de Super Arts, que devem ser escolhidos na tela de seleção. Também foi o primeiro jogo da franquia a apresentar sistema de avanço e recuo rápido (os dashes), já presente em outros games da Capcom, pulos largos como em The King of Fighters e o parry, mecânica de bloqueio perfeito que define essa geração. O problema é que nada disso tinha o polimento necessário para chamar a atenção dos jogadores, que preferiram Street Fighter Alpha 2, lançado no mesmo ano.

Mas nada causou um impacto negativo tão grande quanto o elenco de personagens. Oito dos dez personagens selecionáveis eram completamente novos, e alguns seguiam um design diferente do costumeiro, como Necro, Oro e o chefão da vez, Gill. A popularidade dos novos lutadores aumentou à medida que as edições seguintes eram gradualmente aceitas — especialmente Alex, Dudley, Elena, Ibuki e os irmãos Yun e Yang.

Outra parte crucial de Street Fighter é uma boa trilha sonora, e New Generation não conseguiu causar impacto algum com suas músicas. Há uma clara falta de impacto na instrumentação, e as composições simplesmente não são marcantes. Felizmente, as duas versões seguintes melhoraram significativamente tanto nas melodias quanto na qualidade técnica.

O peso do 2D

O perfeccionismo pelo 2D de alta qualidade enfrentou um grande obstáculo com os consoles da época. Embora a indústria de arcades estivesse em alta em 1996, os consoles estavam cada vez mais ganhando espaço. O PlayStation e o Sega Saturn conseguiam lidar com as obras de Neo Geo e de CPS-2 com alguma capacidade, mas a CPS-3 estava em um nível tão alto que nenhum console conseguia manter o detalhamento sem cortes bruscos. Apenas em 1998 houve uma conversão caseira, no Dreamcast, em uma coletânea com o upgrade 2nd Impact. Atualmente, o jogo está disponível por emulação na coletânea Street Fighter 30th Anniversary Collection.

É curioso pensar na trajetória de Street Fighter III nos anos seguintes, especialmente com todo o trabalho investido nas versões subsequentes. É a “série de uma entrada” mais diferenciada da franquia, que foi melhorando aos poucos, conquistando os fãs mais céticos e uma nova geração de jogadores. Mesmo com seus diversos problemas, o sucesso de 3rd Strike começou modestamente graças às bases de Street Fighter III: New Generation.

Revisão: Heloísa D'Assumpção Ballaminut

Estudante de enfermagem de 24 anos, está nesse mundo dos joguinhos desde criança. Fã de games com vibe mais arcade e arqueólogo de velharias, mas não abandona experiências mais atuais. Acompanha a mídia de podcasts, dublagem e ouvinte assíduo de VGM. Pode ser encontrado como @AlecFull e semelhantes por aí.
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