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Análise: Crow Country (Multi) é um ótimo survival horror à moda antiga, mas modernizado do jeito certo

Explore um macabro parque abandonado que guarda um mistério que nunca deveria ter sido revelado.

Em princípio, Crow Country pode parecer apenas mais um jogo indie de horror e sobrevivência que surge aos montes por aí. No entanto, ele consegue captar suas inspirações nos clássicos de maneira bastante interessante. Desenvolvido pela SFB Games, o jogo se inspira no terror dos 32 bits, mas com uma apresentação pouco utilizada no gênero.

O mistério do parque dos corvos

O enredo nos coloca na pele de Mara Forest, uma policial encarregada de investigar Crow Country, parque de diversões localizado em Atlanta, nos Estados Unidos. O local é o palco de um estranho caso: a morte de uma garota infectada por algo de natureza desconhecida durante uma visita com os pais. O fundador do local, Edward Crow, está supostamente escondido em algum canto do parque, cabendo a nós a tarefa de investigar o que realmente está acontecendo nesse lugar sinistro.

A estrutura do jogo funciona como um survival horror dos anos 1990. Devemos explorar corredores repletos de salas trancadas, coletando itens estranhos, solucionando quebra-cabeças, lendo diversos documentos espalhados e coletando recursos de munição e vida. Contudo, não estamos sozinhos na busca por Edward. Podemos encontrar algumas pessoas que estão no parque à procura do fundador, seja por curiosidade, seja por terem algum envolvimento com o fundador, ou por possuem relações com explorações em uma mina localizada no Pará, em nosso país.

Essa estrutura é apresentada de uma forma pouco utilizada em jogos que evocam estéticas retrô para dar uma sensação de estranheza ao desconhecido. A direção de arte remete a um jogo de PS1 ou Sega Saturn, mas utiliza a ideia do pré-renderizado que permeava as produções da época, só que renderizado em tempo real desta vez. Dá uma satisfação poder girar a câmera horizontalmente em ambientes que remetem a jogos como Resident Evil, que nos prendiam em ângulos específicos.

O design dos monstros continua tão esquisito quanto se espera de um título que utiliza modelagem e texturização simples para criar abominações. Seres que parecem bonecos ensanguentados, criaturas de estruturas prolongadas ou poças de carne são alguns dos problemas que encontraremos durante as idas e vindas por Crow Country, que vão ficando mais numerosos conforme progredimos na investigação.

Todos esses detalhes contribuem positivamente para a ambientação, que transforma atrações inicialmente inocentes em verdadeiros pesadelos. O barulho de passos e sons esquisitos das criaturas moldam o clima de tensão junto à trilha sonora mais ambiental, que também visa lembrar os sintetizadores de outrora.

Resolvendo nos tiros… quando realmente for preciso

Mara começa com uma simples e eficiente pistola, sendo nossa maior aliada para nos defender dos problemas e destruir objetos. O sistema de mira é livre, permitindo movimentos verticais e horizontais com uma retícula, o que nos dá a possibilidade de atirar precisamente em um alvo. A visão superior da câmera às vezes atrapalha a pontaria, mas funciona bem para um jogo do gênero que utiliza as limitações a seu favor na parte de terror. Posteriormente, obtemos algumas armas mais potentes mediante puzzles opcionais.

Apesar de utilizar a escassez de recursos, como esperado de um survival horror, driblar os inimigos é bastante tranquilo dada a lentidão e a área de alcance deles. Por conta disso, nunca me vi sem kits médicos e munição para momentos necessários. Por outro lado, algumas armadilhas ficam no nosso caminho, como luminárias que caem quando passamos por baixo — as maiores responsáveis pelas minhas mortes — e brinquedos que nos envenenam, exigindo atenção constante.

Uma decisão curiosa de Crow Country é a ausência de um sistema de administração de inventário limitado, pois podemos carregar tudo que encontramos por aí sem precisar deixar algo para trás. Por um lado, isso ameniza o vai e vem frequente (o famoso backtracking), mas acaba sendo um ponto contra na parte de sobrevivência. Já está nos planos da desenvolvedora a adição de um modo difícil, o que pode resolver essas questões para quem busca um pouco mais de pressão durante a jogatina.

Crow Country oferece duas formas de controlar a protagonista, sendo uma livre que utiliza o direcional analógico e mais acessível, e a outra que funciona como um controle de tanque ao jogar com o direcional digital. A movimentação clássica não se encaixa tão bem com a dinâmica da câmera, não dando tanto motivo para seu uso além de um desafio adicional.

A parte mais interessante da jogabilidade de Crow Country está nos quebra-cabeças, que aparecem aos montes aqui e são bem criativos. Os desafios incluem digitar códigos específicos encontrados em documentos ou em alguma parede, um labirinto de colunas que precisam ser retiradas do caminho dependendo do símbolo, e até jogar minigames em um fliperama. Além de nos auxiliar nos enigmas, os textos também conseguem nos contextualizar sobre o mistério do parque, que reserva surpresas narrativas interessantes.

Caso você fique perdido sem saber exatamente o que fazer e para onde ir, alguns brinquedos videntes estão espalhados pelo parque e podemos gastar até 10 créditos durante uma campanha. Duas dicas podem ser solicitadas por objetivo, com a primeira sendo algo mais enigmático, enquanto a segunda nos direciona exatamente para onde devemos ir ou o que pegar, nos obrigando a balancear o auxílio. Um modo de dificuldade mais acessível também é oferecido ao iniciar o jogo.

A aventura não é extensa, mas acredito que dura o suficiente considerando o tamanho do parque, que apresenta uma variedade limitada de ambientes. Para incentivar novas jogadas, um sistema de classificação ranqueia nosso desempenho em uma campanha, nos recompensando com algo que pode ajudar em outras jogatinas posteriores.

O equilíbrio da nostalgia e da modernidade

Crow Country acerta ao incorporar os costumes de antigos títulos de survival horror em uma nova roupagem, tanto atraindo os nostálgicos por um terror clássico quanto se tornando acessível para quem busca mais um “terror feio” para se divertir. Apesar da facilidade no combate, os quebra-cabeças são criativos e a ambientação, com o uso de estética pré-renderizada, destaca-o como uma ótima opção no gênero.

Prós:

  • A arte retrô que presta homenagem aos gráficos pré-renderizados dos 32 bits;
  • Os quebra-cabeças criativos e variados;
  • A ambientação muito bem construída;
  • A narrativa e o mistério são bem interessantes, culminando em uma conclusão inesperada.

Contras:

  • O combate é subutilizado devido à facilidade de desviar dos inimigos;
  • As constantes armadilhas tornam-se irritantes perto do final do jogo.
Crow Country — PC/PS5/XSX — Nota: 8.0
Versão utilizada para análise: PC
Revisão: Ives Boitano
Análise produzida com cópia digital cedida pela SFB Games

Estudante de enfermagem de 24 anos, está nesse mundo dos joguinhos desde criança. Fã de games com vibe mais arcade e arqueólogo de velharias, mas não abandona experiências mais atuais. Acompanha a mídia de podcasts, dublagem e ouvinte assíduo de VGM. Pode ser encontrado como @AlecFull e semelhantes por aí.
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