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Análise: DYSCHRONIA: Chronos Alternate - Dual Edition (PC) brinca com uma realidade virtual, mas agora fora dela

Após um port para o Switch, o título premiado da IzanagiGames para RV traz ficção científica, mistério e manipulação temporal em uma tradução capenga.



DYSCHRONIA: Chronos Alternate - Dual Edition (PC) é a versão definitiva de uma experiência em realidade virtual lançada originalmente em três capítulos. Depois de ser convertida em uma aventura em primeira pessoa no Switch, a compilação com todos os episódios chega ao Steam em uma edição que une as duas possibilidades, sendo possível progredir pela misteriosa narrativa tanto nativamente no PC quanto em um conjunto de RV.
Nota: Para fins de avaliação, nossa análise se aterá apenas no modo simples de PC, baseando nosso critério na forma como ele se comporta nativamente na plataforma e como os elementos de game design que o compõem colaboram ou não para a melhor experiência do título.
Em uma cidade chamada Astrum Close, a maior parte dos cidadãos são conectados por uma espécie de realidade aumentada chamada Augmented Dream (o sonho aumentado), que consiste em uma rede de conexão neural constante entre seus usuários. Neste mundo, o jogador assume o papel de Hal (uma evidente referência a 2001: Uma Odisseia no Espaço), o protagonista, que, apesar de incapaz de acessar tal sistema, é compensado com a habilidade singular de ler as memórias impregnadas nos objetos ao seu redor.

É se sustentando nesse poder que ele passa a exercer sua nova atividade como um supervisor, um profissional responsável justamente por fiscalizar a tal rede e impedir que pensamentos negativos se proliferem na sociedade. Mesmo sendo um novato, a primeira tarefa de Hal acaba sendo a investigação do assassinato do professor Albert Rumford, o visionário responsável pela concepção desse sistema que mudou o mundo.




Dito isso, já dá para entender um pouco a premissa da história a partir daqui, uma vez que boa parte da investigação vai acabar se derivando dessa capacidade de imergir nas memórias. A questão é que mergulhar nas lembranças alheias funciona como uma espécie de viagem ao passado em que é possível executar certas ações que irão ter consequências no futuro.

Dessa capacidade, novas pistas podem ser recolhidas e vão formando um mosaico que ajudam o jogador a decifrar os mistérios de Dyschronia. É quando o game engata em uma sequência de tribunal em que Hal precisa se apresentar ao sistema conhecido como Justicius e provar, evidência por evidência, os resultados coletados e elucidar a cena de investigação.

Na prática, esse confronto acaba sendo mais uma espécie de teste de atenção à história do que um desafio de fato, uma vez que boa parte das informações acabam sendo expostas através de cutscenes, fazendo com que a exposição seja dada de uma maneira não interativa e prejudica um pouco a sensação de papel ativo por parte do jogador. É claro que há alguns quebra-cabeças e momentos de stealth, mas nada realmente substancial e que não sigam à risca o livreto de regras no que diz respeito à implementação desses modelos de jogo.




Digo, a impressão é que eles só estão lá para que o título não seja reduzido a um passeio imersivo por corredores enquanto progride na história. As resoluções são sempre óbvias e dizer que os enigmas exigem pouco do raciocínio do jogador seria um eufemismo, já que a maior parte deles tem a dificuldade comparável àqueles exercícios de cognição de primeira infância em que é necessário colocar a bolinha no espaço do círculo, o cubo no espaço do quadrado, etc.

Em tal aspecto, é como se houvesse um letreiro enorme e piscante indicando a solução. O mesmo vale para os NPCs, uma vez que o jogo segue a rota de fazer com que apenas os importantes sejam dignos de um design de personagem identificável e não genérico.




O bruto dessa história de ficção científica não é necessariamente fraco ou desinteressante, mas também não é como se ele apresentasse qualquer originalidade que justificasse uma eventual empolgação com suas reviravoltas. É possível se entreter com ela, mas não são incomuns os momentos em que um absurdo ou outro acabe ocorrendo e fica impossível não fazer aquele sorrisinho torto em tom de “baita mentira isso aí, mas acredito”.

Considerando sua origem em um sistema de realidade virtual de alto grau de imersão, há um peso maior na hora de julgar o apelo estético e de construção de mundo de Dyschronia. Dito isso, é natural que as realidades de sonho aumentado tenham sido feitas para serem bem agradáveis de se visitar, mas os cenários do mundo real não precisavam ser tão ermos.

A utilização do adjetivo "ermo" se refere a esse tipo de situação.

Para complementar, nem todos os ambientes reais contam com uma realidade onírica alternativa (ou seja, boa parte do título se situa nesse limiar vazio) e a transição não é um processo natural de troca, precisando de telas de transição que acabam quebrando a fluidez da jogabilidade. Some isso à baixa cadência das caixas de diálogo e à lentidão da velocidade de movimento pelo mundo aberto e o resultado é um jogo lento. 

A tradução dos comandos de RV para um controle tradicional ou conjunto de teclado e mouse chega a ser disfuncional, com destaque às mãos flutuantes de um corpo que se revela inexistente diante do movimento da câmera para tentar vê-lo. Faltou uma preocupação no ato de fazer o port, de pensar no título como se ele não fosse originalmente concebido como uma experiência em realidade virtual, em vez de só comprimir a visão 360º do headset dentro do espaço da tela.

Para complementar o conjunto, problemas de colisão e travamentos acabam acontecendo em uma frequência bem menos tolerável do que se deveria, fazendo com que o progresso tenha que ser recarregado. Esse empecilho acaba sendo agravado pelo fato de que o save é automático e não conta com uma versão manual, fazendo com que o jogador se torne refém da vontade dos desenvolvedores em atrelar o sistema a determinadas passagens da história.




O processo enxuto de adaptação para o PC acabou prejudicando até mesmo a principal competência de Dyschronia, que é o visual de anime. Considerando a questão da resolução e até mesmo das especificidades técnicas da nova plataforma, os modelos dos personagens poderiam ter recebido um trabalho melhor de arredondamento de arestas, bem como os cenários, já bem esvaziados, poderiam ter ganhado texturas mais complexas e elaboradas a fim de maquiá-los para fazê-los parecer mais vívidos.

Isso não torna a identidade visual menos charmosa — especialmente porque a trilha sonora se destaca ao embalar a jogabilidade com um agradável jazz fusion —, mas fica difícil fazer com que a história de Hal consiga competir com outros nomes bem parecidos que se mostrem mais maduros como produtos, como é o caso de AI: The Somnium Files (Multi), que faz exatamente tudo o que o título se propõe, mas de uma forma muito mais rebuscada e concisa.




Inclusive, o fato desse game ser tão premiado em várias categorias de realidade virtual corrobora um pouco com a denúncia de que a modalidade é realmente carente de experiências de maior excelência ao ponto de seguirmos questionando a consolidação de tal formato na indústria de jogos como um todo, mas isso é conversa para outro dia, né?

De todo modo, embora seja uma tradução precária desta que teoricamente deveria ser uma versão definitiva por trazer as duas possibilidades de jogabilidade em um só pacote, ainda é possível enxergar o mérito na iniciativa de trazer DYSCHRONIA: Chronos Alternate - Dual Edition para o PC. Apesar de ter que disputar com concorrentes mais competentes nesse nicho de mistério em ficção científica com elementos de visual novel, ele não deixa de ser uma opção válida para os entusiastas que queiram seguir mais fundo do iceberg desse gênero específico. 

Prós

  • Se o jogador decidir investir na história, ela consegue se sustentar mesmo com seus exageros;
  • O conjunto de Identidade visual e trilha sonora é competente o suficiente para cativar sua audiência específica;
  • A iniciativa de trazer o jogo para um público sem acesso a sets de RV tem méritos por si só.

Contras

  • Narrativa conduzida de uma forma desproporcionalmente expositiva;
  • As soluções dos quebra-cabeças são praticamente dadas de bandeja;
  • Inexistência de save manual;
  • Transição entre os ambientes de sonho e realidade quebram a fluidez da aventura;
  • Modelos e texturas poderiam ter recebido um trabalho de recauchutagem para a nova plataforma;
  • Processo de tradução não conseguiu deixar de pensar no título como uma experiência RV.
DYSCHRONIA: Chronos Alternate - Dual Edition – PC — Nota: 5.0
Revisão: Juliana Paiva Zapparoli
Análise produzida com cópia digital cedida pela IzanagiGames

É jornalista formado pelo Mackenzie e pós-graduado em teoria da comunicação (como se isso significasse alguma coisa) pela Cásper Líbero. Tem um blog particular onde escreve um monte de groselha e também é autor de Comunicação Eletrônica, (mais um) livro que aborda história dos games, mas sob a perspectiva da cultura e da comunicação.
Este texto não representa a opinião do GameBlast. Somos uma comunidade de gamers aberta às visões e experiências de cada autor. Escrevemos sob a licença Creative Commons BY-SA 3.0 - você pode usar e compartilhar este conteúdo desde que credite o autor e veículo original.


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