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Análise: HELLCARD (PC) é uma intensa batalha com cartas por uma masmorra medonha

Mesmo evoluindo o que foi apresentado em seu Acesso Antecipado, o novo título da Thing Trunk ainda tropeça em alguns problemas.


Após quase um ano em Acesso Antecipado, HELLCARD está sendo lançado para PC esta semana. Ele consiste em um roguelike com construção de baralhos em que estamos no controle de heróis que devem desbravar os 12 andares de uma masmorra e derrotar todos os inimigos que vierem pela frente. Seu combate por turnos é incrementado por alguns elementos estratégicos, como personagens com diferentes classes, muitas cartas para ataques e diversas habilidades.

Quando analisei a versão beta, essa característica me chamou a atenção por ser bem elaborada e criar situações em que exigissem a minha atenção no uso das cartas. Na versão final, essa virtude — e tantas outras — ainda se encontra presente, apesar de ocorrer uns pequenos deslizes, principalmente em relação ao balanceamento das batalhas.



Uma jornada rumo ao Arquidemônio

A estrutura de Hellcard se manteve a mesma presente em sua versão beta. No controle de um grupo de heróis, precisamos progredir pelos 12 andares de uma masmorra para enfrentar o poderoso Arquidemônio que dominou o local. Por ser um spin-off de Book of Demons (Multi), ele aproveita todo o contexto estabelecido no primeiro jogo para criar uma aventura nova, porém muito familiar para quem o jogou, principalmente pelo uso do mesmo estilo visual.

A história de Book of Demons foi mantida em Hellcard, mas em vez de um hack’n slash com elementos de RPG e dungeon crawling, agora temos um roguelike com construção de baralhos voltado para combates em turnos com altas doses de estratégia. Para iniciar a jornada, precisamos escolher nosso personagem principal dentre as classes Guerreiro, Ladina, Mago e Inventor, sendo esta última desbloqueada após vencermos a campanha pela primeira vez.




O guerreiro tem como foco a luta em curto alcance, com seus ataques causando muito dano para inimigos próximos, porém com pouca efetividade em adversários distantes. Com uma característica oposta, temos a ladina, que utiliza o arco e flecha para atacar opositores distantes, mas é pouco eficaz para os que estão perto. O mago é o mais equilibrado, com seus raios infligindo o mesmo dano independente da distância; já o inventor cria engenhocas para causar danos em área a partir de um centro.

Cada classe possui cartas únicas, separadas de acordo com suas características: as vermelhas são de ataque; as azuis, de habilidade, como aumento de defesa, ou infligir status aos inimigos; e as verdes, de influência, que nos dão habilidades passivas. 

Antes de entrar em um andar, podemos escolher entre duas opções de batalha. Elas modificam o tipo de inimigo que vamos encontrar e o prêmio após a vitória. Algumas dão novos heróis, outras permitem recuperar vida, encontrar artefatos, adicionar ou excluir cartas, entre outras opções. Logo, a partir das possibilidades apresentadas, você precisa decidir qual mais lhe convém.



Um combate de posições

Hellcard é puramente focado em um combate estratégico. Em todos os andares, a jogabilidade é mantida, mas por vezes alguns eventos aleatórios são ativados para dar uma diversidade à campanha.

Nossos personagens estão posicionados no centro da arena, com duas circunferências destacadas: uma próxima a eles e outra cobrindo o resto do cenário. Essas circunferências marcam a área de atuação preferencial dos personagens, que se beneficiam de lutas a curta ou longa distância. Assim como os protagonistas, os inimigos também possuem suas preferências e transitam entre as duas áreas de acordo com suas necessidades.

Para elaborarmos nossas estratégias, uma série de informações nos são dadas em cada rodada. A primeira delas é a próxima ação do inimigo: nós conseguimos saber quem vai atacar, quem vai se movimentar ou quem vai usar alguma habilidade; a segunda é o dano que vamos sofrer, representado por um número acima da cabeça de cada personagem; por fim são as nossas cartas, sendo cinco opções para cada herói vivo.




Com tudo isso, devemos decidir nossa prioridade: atacar o máximo de demônios possível? Usar habilidades para aumentar minha defesa e não sofrer dano? Tentar imobilizar as unidades que irão se movimentar para perto de mim? Quanto mais variado for seu deck e as classes, mais possibilidade temos. Mas um ponto importante é que cada carta consome pontos de mana, recurso muito limitado de cada personagem; logo, qualquer equívoco pode ser muito punitivo.

A jogabilidade funciona em um simples sistema de clicar e arrastar a carta para o monstro que desejamos atacar. No entanto, a interface deixa um pouco a desejar, pois não conseguimos ver todas as cartas à disposição de uma vez. Dessa forma, precisei ficar apertando um botão específico no teclado para alternar a visão entre as minhas cartas e as dos demais personagens. Se ao menos o jogo fornecesse a opção de mudar os controles, eu poderia modificá-lo para algum botão do mouse, o que ficaria mais confortável de jogar.



Os mesmo poréns de um roguelike

Não é novidade que os roguelikes sofrem com o seu modelo de repetição excessiva. Em alguns casos, a jogabilidade consegue se destacar e amenizar esse problema; em outros, não.

Hellcard fica bem no centro dessa situação. Jogá-lo é divertido, principalmente para quem gosta de elaborar estratégias. No entanto, é necessário um equilíbrio entre a dificuldade, que nos fará repetir a campanha várias vezes, e as novidades que seremos capazes de desbloquear com o tempo.

Ao final de cada run, ganhamos experiência de acordo com os tipos de inimigos que derrotamos: enquanto chefes dão mais, monstros básicos dão menos. Com essa experiência, desbloqueamos itens cosméticos, cartas, artefatos e heróis para incrementar a próxima partida. No entanto, a quantidade de XP necessária para desbloquear o próximo item costuma ser alta, e aí entra o problema de balanceamento.




Como a masmorra possui poucos andares, a dificuldade escala de maneira absurda em pouco tempo. Isso se intensifica em batalhas contra os dois chefes que enfrentamos antes do Arquidemônio. Com a dificuldade alta, derrotamos poucos monstros e ganhamos pouca experiência; logo, demoramos muito a desbloquear novidades úteis. Mesmo que Hellcard esteja mais balanceado agora do que no início do Acesso Antecipado, ele ainda carece de alguns ajustes para ficar mais justo, seja na dificuldade ou nas recompensas.

Para prolongar sua vida útil, há um modo infinito disponível, em que não há limite de andares. Apesar de ser interessante, a jogabilidade repetitiva acaba deixando-o monótono. Nesse caso, o modo multiplayer para até três jogadores pode deixar as coisas mais interessantes. Durante meu tempo com o jogo, não consegui encontrar pessoas para jogar online, então não consigo avaliar esse modo da maneira devida.

Por fim, vale destacar a localização das legendas e a interface para português brasileiro. Com a enorme quantidade de cartas e habilidades disponíveis, os jogadores que não dominam a língua inglesa certamente ficariam perdidos em meio a tanta informação.



Qual será seu próximo movimento?

Durante o último ano, HELLCARD evoluiu bastante ao aprimorar o que havia apresentado no início de seu Acesso Antecipado. O combate, apesar de simples, fornece as ferramentas necessárias para divertir e incentivar o jogador a elaborar as mais variadas estratégias, como heróis com diferentes classes, muitas cartas, artefatos e a disposição aleatória de eventos ao longo da jogatina.

No entanto, os problemas comuns de roguelikes ainda estão presentes, como a repetição contínua por conta da dificuldade, o desbloqueio lento de novidades interessantes e um modo extra que, apesar de bom, se torna monótono caso você não tenha companhia para jogar. Apesar disso, Hellcard ainda é uma boa opção de compra caso você goste de jogos desafiadores ou tenha curtido Book of Demons, de onde sua base foi extraída.

Prós

  • Há uma boa variedade de cartas com diferentes características ativas e passivas, o que nos permite elaborar muitas estratégias diferentes;
  • Com um sistema de “clique e arraste”, a jogabilidade se torna muito simples de dominar;
  • A localização das legendas e interface para português brasileiro estão bem-feitas;
  • O modo infinito é uma boa opção para prolongar sua vida útil, principalmente se você tiver amigos para jogar junto.

Contras

  • Por conta da pouca quantidade de fases, a dificuldade escala rapidamente;
  • Não há a opção de modificar os controles;
  • A interface poderia ser retrabalhada para conseguirmos ver todas as cartas disponíveis durante as batalhas;
  • O desbloqueio de novas cartas e artefatos é um pouco lento.
HELLCARD — PC — Nota: 7.5
Revisão: Davi Sousa
Análise feita com cópia digital cedida pela Skystone Games Inc.

é engenheiro geólogo, entusiasta de novas tecnologias e apenas mais um mineiro que não vive sem café e pão de queijo. Costuma procurar jogos de qualidade duvidosa no Steam e não dispensa uma partida de CS:GO ou uma viagem pelas estradas europeias no Euro Truck.
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