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Análise: The Legend of Nayuta: Boundless Trails (Multi) traz ao Ocidente um clássico do PSP feito pela Falcom

O spin-off da franquia Trails traz um combate de ação sólido dentro do usual da Nihon Falcom.

Embora a série Trails seja formada por RPGs baseados em turno, a Falcom decidiu experimentar outra proposta dez anos atrás. Acumulando a sua expertise no gênero, em 2012, a desenvolvedora decidiu criar um spin-off de ação chamado Nayuta no Kiseki. Agora, o título finalmente chega ao Ocidente em 2023 sob o título The Legend of Nayuta: Boundless Trails em uma edição remasterizada para os sistemas atuais.

O sonho de ir além do horizonte

Nayuta Herschel é um jovem rapaz que sonha em conhecer o que há além do “Fim do Mundo”. Enquanto as pessoas acreditam que o planeta é plano, o garoto afirma que, na verdade, ele é esférico e não há de fato um ponto final no horizonte. Essa perspectiva foi algo que ele aprendeu com seus pais, que morreram buscando esse sonho aparentemente impossível de saber o que estava além.

Um dia, quando Nayuta volta à sua terra natal, Remnant Island, durante as férias, uma enorme torre cai dos céus. Embora esse tipo de fenômeno já seja corriqueiro, o lugar é especialmente grande desta vez. Junto com seu amigo Cygna, ele adentra essa misteriosa ruína e lá encontra Noi, uma pequena garota cuja aparência lembra uma fada.

Esse encontro dá início a uma jornada com várias revelações sobre o mundo em que eles vivem e acontecimentos esquecidos do passado. Após vários eventos, Nayuta e Noi passam a ser uma espécie de dupla dinâmica e juntos exploram a misteriosa área, conhecida pelos humanos como Lost Heaven.
De forma geral, a história é um tanto clichê no seu desenvolvimento e nas ações dos personagens. Mais curto do que o usual da série, Nayuta acaba focando demasiadamente no fator choque das suas revelações e deixando-as prioritariamente para a reta final da trama. Não chega a ser um fator negativo para quem já curte histórias mais simples do gênero, mas acaba também não sendo um ponto alto do jogo.

Também não contribui para este RPG o fato de que não temos um registro das falas em um log. Embora isso não atrapalhe a experiência em um sentido prático, pois temos explicações do que fazer no menu de quests e em uma caixa de diálogo de Nayuta no menu de viagem rápida, a sua ausência é perceptível e dificulta recuperar o que aconteceu de forma mais detalhada.

Um mundo de fases

O combate de The Legend of Nayuta é focado em ação, seguindo uma linha que lembra vários clássicos da Falcom, como a duologia Zwei!!, Ys e Gurumin. No controle de Nayuta, podemos realizar combos de espada, pular e esquivar, sendo fundamental dominar essas movimentações para avançar nas fases.

Um detalhe curioso é que em vez de ter um mundo interconectado diretamente, o jogo é apresentado em um modelo de estágios. Cada mapa é isolado e deve ser acessado pelo menu de mundos. Para avançar por cada continente do Lost Heaven, é necessário passar por essas áreas, enfrentando vários monstros pelo caminho até alcançar um portal que sinaliza o seu fim.
Boa parte da experiência envolve entender como esses mapas funcionam, explorando-os como um jogo de plataforma 3D. Porém, há alguns elementos que atrapalham isso um pouco. Primeiramente, a câmera é fixa e muitas vezes está em posições inadequadas, atrapalhando a capacidade do  jogador de visualizar tudo que está disponível nas áreas.

Há também tanto momentos em que o jogador consegue pular em abismos quanto alguns em que isso é impossível por conta de barreiras invisíveis. Existem ainda elementos visuais minúsculos para representar essa diferença, mas, na prática, eles não são fáceis de notar e se confundem com o resto do ambiente. O resultado é uma sensação geral de inconsistência mecânica.
Também vale destacar que o design das fases é muitas vezes limitado, abrindo pouca margem para a exploração. Apesar desses problemas, há uma boa variedade de áreas, sendo especialmente interessante a mecânica de explorá-las novamente em outras estações do ano, encontrando inimigos e obstáculos diferentes.

Além disso, cada fase inclui desafios opcionais que extrapolam simplesmente chegar ao seu final. Como toda área possui três grandes cristais roxos e pelo menos um tesouro, coletá-los leva ao ganho de uma estrela adicional. Basta encontrar cada um deles uma vez em qualquer tentativa para registrá-los, não sendo necessário pegar tudo de uma vez. Também temos uma missão extra com exigências variadas, como derrotar certo número de inimigos, realizar um combo alto, evitar dano ou até chegar ao final dentro de um tempo X.

Melhorando pouco a pouco

Além dos poderes básicos, podemos liberar várias opções adicionais aos poucos, tornando nossa experiência de combate melhor. Primeiramente, Nayuta conta com a ajuda de Noi, que pode usar várias magias de ataque. Há uma grande variedade de opções, que vão de projéteis simples a golpes poderosos de uso único que atingem tudo na tela. Para desbloqueá-las, é necessário derrotar minichefes (alguns deles opcionais) e realizar algumas quests opcionais.

Nayuta também conta com suas próprias opções de upgrades que são desbloqueados com as estrelas obtidas ao final das fases. Ao chegar em determinados marcos, é possível voltar ao mentor de espada, Orbus, e ele lhe ensinará mais poderes, como ataques aéreos, estenderá os seus combos e liberará várias outras funcionalidades que melhoram significativamente o combate.
Também é importante se preocupar com os equipamentos de Nayuta e Noi. Armas, armaduras e acessórios melhoram o ataque e a defesa de Nayuta, enquanto Noi pode mudar sua roupa não apenas para aumentar o seu fator inteligência (melhorando as magias), como também para liberar habilidades passivas. Por exemplo, se o jogador tende a cair muito no abismo, vale a pena colocar uma asa de borboleta em Noi para evitar dano de queda. Da mesma forma, em uma fase em que os inimigos possuem habilidades que causam veneno, confusão ou outra condição física, podemos equipar um item protetivo antecipadamente.

Conforme a história avança, também desbloqueamos poderes especiais por meio dos administradores, figuras centrais de Lost Heaven. Essas habilidades incluem agarrar objetos em formato de roda dentada durante pulos, quebrar blocos sólidos com ataques carregados e até virar uma roda para escalar paredes. Podemos usá-los tanto para ajudar a atravessar as áreas quanto para determinados pontos do combate, sendo especialmente criativo o uso dessas gimmicks para alguns chefes.
Outro elemento importante para levar em consideração são as comidas. Com os materiais obtidos derrotando os monstros, cozinhamos pratos que podem ser levados para as fases. Além de recuperar HP, esses itens rendem experiência e podem ter efeitos especiais como ganho de força ou bônus de experiência no caso de receitas mais elaboradas.

Esses elementos impactam significativamente a experiência, podendo fazer a diferença entre apanhar muito para um chefe ou fase e passar por ela com bastante tranquilidade. Da mesma forma, é fundamental dominar os padrões dos inimigos para poder encadear combos de forma correta e esquivar ou se defender eficientemente.

O esforço contra as marcas do tempo

Como um jogo originalmente desenvolvido para PSP, The Legend of Nayuta precisou ser remasterizado para poder ser lançado nos consoles modernos e no PC. Com uma edição feita pelo PH3 GmbH no PC, temos um menu de configurações bem detalhado que nos permite configurar aspectos como controles, gráficos e som.

No PC, o jogo conta com um sistema de texturas de alta qualidade que delineia melhor as bordas dos personagens e itens — com a vantagem de ser um asset que pode ser baixado como DLC gratuito. Além disso, podemos configurar a qualidade do filtro anisotrópico e do MSAA (única opção de antialiasing disponível), a resolução, a taxa de quadros e o uso do Vsync.
Como em outros jogos da série, temos a opção de usar um modo de alta velocidade para passar rapidamente por certos pontos. No menu de configurações, podemos ajustar esse fator turbo para qualquer número entre 2 e 6. Já no menu de som, o principal elemento digno de nota é a possibilidade de trocar entre as dublagens americana e japonesa, que também são as únicas opções de legenda.

Por fim, quero destacar que a trilha sonora é outro ponto alto da experiência, como usual da Nihon Falcom, e esse elemento está bem longe de ter se enfraquecido com o tempo. As músicas tendem a um rock de alta energia para dar adrenalina às lutas contra chefes e músicas mais leves para a exploração, que ajudam a dar um tom de aventura à experiência.

Uma trilha que continua envolvente

The Legend of Nayuta: Boundless Trails
é um competente RPG de ação que vale a pena conhecer. Embora tenha algumas limitações que podem incomodar alguns jogadores e a história possa ser um ponto fraco, a experiência de forma geral mostra muito bem o estilo de design da Nihon Falcom entre o fim dos anos 2000 e início da década de 2010 e continua sendo tão envolvente quanto naquela época.

Prós

  • Combate de ação sólido que valoriza o encadeamento de combos, o domínio de padrões e a capacidade de esquivar-se/defender-se no momento preciso;
  • As habilidades desbloqueáveis permitem ajustes significativos na experiência do jogador, melhorando-a drasticamente no longo prazo;
  • Os poderes ganhos ao salvar os administradores são bastante úteis para exploração e para a criatividade do combate;
  • Trilha sonora que reforça o senso de exploração e adrenalina com a qualidade usual da Falcom;
  • Cada fase inclui desafios opcionais para valorizar a maestria do jogador;
  • Fases bem variadas, sendo até mesmo as versões de diferentes estações bem desenhadas;
  • Menu de configurações bastante detalhado no PC.

Contras

  • A história é clichê e pouco desenvolvida;
  • A câmera fixa muitas vezes é mal posicionada e acaba atrapalhando a exploração;
  • Boa parte das fases acabam sendo bem limitadas;
  • Ausência de log;
  • A distinção de fronteiras que impedem pular no abismo nem sempre é clara.
The Legend of Nayuta: Boundless Trails — PC/PS4/Switch — Nota: 8.5
Versão utilizada para análise: PC
Revisão: Juliana Paiva Zapparoli
Análise produzida com cópia digital cedida pela NIS America

é formado em Comunicação Social pela UFMG e costumava trabalhar numa equipe de desenvolvimento de jogos. Obcecado por jogos japoneses, é raro que ele não tenha em mãos um videogame portátil, sua principal paixão desde a infância.
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