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Análise: ANONYMOUS;CODE (Multi): uma reflexão meta sobre a existência humana

O mais novo jogo da série Science Adventure é uma jornada meta com uma discussão interessante sobre realidade, humanidade e agência.

Para quem conhece ou tem interesse no gênero visual novel, a franquia Science Adventure é uma das maiores referências de tramas de ficção científica de alta qualidade, tendo dado origem a clássicos como Chaos;Head e o bem popular Steins;Gate. Sete anos após seu anúncio no Japão, ANONYMOUS;CODE finalmente está disponível em inglês, expandido novamente o universo concebido por Chiyomaru Shikura para um futuro não tão distante.

Invasão de sistemas e moralidade

ANONYMOUS;CODE acompanha a história de Pollon Takaoka, um jovem rapaz que montou um grupo de hackers chamado Nakano Symphonies junto com seu amigo Cross Yumikawa. Na verdade, a equipe é composta apenas por essa dupla dinâmica que presta serviços para vários clientes e tenta se manter da forma que dá.

Para Pollon, o grupo tem como objetivo ajudar qualquer pessoa em necessidade, estando ligado ao seu forte senso de justiça. Tendo aprendido muito com seu pai quando criança, o protagonista não gosta de sua habilidade como hacker, mas acaba sempre recorrendo a ela como forma de lidar com as enrascadas em que se mete.

Um dia, frustrado com o fato de ser tratado como incapaz de interagir com mulheres, Pollon mente para seus amigos dizendo que está ajudando uma garota chamada Momo Aizaki a fugir de casa. Por um acaso muito extraordinário, ele acaba encontrando uma moça que decide se passar por Momo, mas que precisa da ajuda dele para escapar de agentes do governo.

Pollon, Cross, Momo e vários outros personagens acabam se aliando para lidar com várias situações a partir daí. Conforme uma série de conspirações envolvendo o Vaticano, computadores quânticos e o fim do mundo vem à tona, a obra começa a discutir temas complexos sobre a realidade e a existência humana em um mundo no qual é cada vez mais difícil distinguir entre físico e virtual.

A trama é muito bem-escrita e cheia de reviravoltas interessantes, aproveitando-se muito bem de conceitos reais da matemática, física e computação para propor uma visão de futuro instigante. Os personagens também conseguem ser tanto carismáticos quanto ricos em camadas mais profundas que ajudam a torná-los mais humanos, com especial destaque para os dramas individuais de Pollon, Momo, Oz e Asuma.

“Salvando” o mundo

Durante a fuga de Pollon e Momo, nosso protagonista ganha um misterioso poder que ele apelida de Save & Load. A ideia é que o personagem consegue recarregar o mundo a um estado anterior mantendo as suas memórias do que havia acontecido, podendo assim alterar de forma significativa o futuro.

Essa integração entre salvamento e história é restrita primariamente aos saves ativados pelo próprio Pollon, não sendo possível forçá-lo a voltar no tempo para tentar novamente, já que sua memória não persiste quando é o jogador quem opta pelo carregamento de dados. O que podemos fazer é abrir o menu de Load apertando o botão de  “Hacking Trigger” para induzi-lo a usar o sistema.

Embora possa parecer a mesma coisa, há uma clara tentativa de indicar que o jogador é incapaz de passar por cima das vontades de Pollon. Como um ser humano com livre arbítrio, ele só aceita as indicações de Hacking Trigger nos momentos que realmente deseja. Esse conceito é muito interessante, mas, na prática, vale destacar que a restrição a frases específicas é um tanto desagradável para o controle do próprio jogador e faria uma diferença enorme se o jogo tivesse mais maleabilidade para o timing de seu uso.

Um mundo futurista de cores, camadas e brilho

ANONYMOUS;CODE se passa em 2037, um futuro próximo no qual as pessoas estão sempre conectadas diretamente usando uma interface neural chamada BMI. Além de afetar vários aspectos da história, esse elemento é uma parte usual da vida das pessoas no jogo, ativando efeitos de realidade aumentada e permitindo uma série de serviços cômodos, como acesso a e-mails e notícias. Vemos o impacto disso na própria interface do jogo, com muitos detalhes que enchem a tela.

De modo geral, além da interface que reforça a noção de estarmos conectados à rede, a direção audiovisual do título é bem estilosa e vibrante. A trilha futurista e as belas e coloridas ilustrações de personagens e ambientes foram muito bem selecionadas para dar o tom da obra de um futuro jovem.

Em particular, chama a atenção o fato de que, além das CGs (ilustrações especiais para alguns momentos da trama em uma VN), temos cenas que são como um quadrinho em movimento. Curiosamente, elas possuem um estilo que acaba parecendo mais ocidental do que o mangá propriamente dito e, apesar da qualidade geral chamar a atenção, pode ser um pouco incômodo em algumas ocasiões o toque mais desbotado de iluminação e a forma como os personagens podem destoar do modelo original.

Outra coisa que merece destaque é o uso de movimentação labial e tecnologia em estilo live2D para reforçar a sensação de vida dos personagens durante os diálogos comuns. Mesmo durante várias CGs, é possível ver os personagens movimentando a boca, o que ajuda a manter a experiência visual bem consistente.

Por fim, ANONYMOUS;CODE conta com dublagem em inglês e japonês, indo na contramão do padrão da indústria de visual novels traduzidas de oferecer apenas o segundo. Ambas as opções são bem agradáveis de usar e a versão em inglês das vozes raramente foge do tom ideal das cenas, então foi uma aposta acertada da empresa para o título. A escrita traduzida soa bem natural para os personagens, apresentando uma linguagem jovial e uma forte consistência com a terminologia já conhecida da franquia.

Uma visual novel imperdível

ANONYMOUS;CODE consegue explorar muito bem seu conceito de futuro e discussão sobre realidade para oferecer uma experiência de alto nível. É uma recomendação bem segura para quem tem interesse no gênero, mostrando mais uma vez a alta qualidade da franquia Science Adventure.

Prós

  • Narrativa bem-escrita que discute temas sensíveis e complexos sobre a realidade;
  • Aspecto meta bem explorado em uma integração das mecânicas de salvamento de dados dentro da própria narrativa;
  • Interface futurista convincente que ajuda na imersão dentro do conceito de um futuro totalmente conectado;
  • Personagens interessantes, carismáticos e ricos em camadas;
  • Direção audiovisual estilosa, futurista e vibrante;
  • Bom trabalho de dublagem tanto em japonês quanto em inglês;
  • A tradução para o inglês consegue manter um tom jovial para os personagens e uma sensação de consistência com a terminologia da franquia.

Contras

  • As ilustrações em formato quadrinhos ocidentais às vezes enfraquecem o traço mais distintivo e colorido dos sprites dos personagens;
  • Pollon só aceita as indicações de Hacking Trigger em frases específicas.

ANONYMOUS;CODE — PC/PS4/Switch — Nota: 9.5
Versão utilizada para análise: PC

Revisão: Juliana Paiva Zapparoli
Análise produzida com cópia digital cedida pela Spike Chunsoft


é formado em Comunicação Social pela UFMG e costumava trabalhar numa equipe de desenvolvimento de jogos. Obcecado por jogos japoneses, é raro que ele não tenha em mãos um videogame portátil, sua principal paixão desde a infância.
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