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Análise: Blasphemous 2 (Multi) traz uma nova e envolvente jornada de penitência por um universo grotesco

A sequência do brutal metroidvania arrisca pouco, mas entrega uma aventura de qualidade.


No bizarro mundo de Blasphemous 2, uma deidade distribui bênçãos e maldições por puro capricho e um guerreiro silencioso precisa enfrentar provações para cumprir uma profecia. A sequência do ótimo metroidvania tem como principais novidades um ritmo mais ágil, maior variedade de desafios e opções de customização inéditas, sem deixar de lado a atmosfera gótica desconcertante e elaborada. Faltou um pouco de ousadia, pois as alterações em relação ao anterior são sutis, mas o esmero e o equilíbrio da aventura tornam a experiência imperdível.

De volta ao mundo regido pelo poder caprichoso

Cvstodia é uma terra regida pelo Milagre, uma força celestial misteriosa que simultaneamente pune e abençoa as pessoas. Como boa parte das coisas indescritíveis, os atos dessa entidade acabam sendo considerados divinos, segmentando a humanidade: alguns o adoram com fervor, outros temem ser amaldiçoados.

Um dos afetados é o Penitente, um guerreiro silencioso que vive um eterno ciclo de vida e morte. Para acabar com esse sofrimento, ele sai em uma jornada sangrenta para acabar com o caprichoso Milagre. Depois de muito custo, o espadachim alcança seu objetivo e finalmente tem descanso.


Porém, eras depois, um estranho coração surge nos céus, anunciando o retorno do Milagre. Não só isso: mensageiros celestiais revelam que do grotesco órgão nascerá um novo filho do Milagre, que promete mudar profundamente o mundo. Diante disso, o Penitente desperta e, mais uma vez, precisará enfrentar terrores para tentar dar fim a sua aflição eterna. 

Uma penitência com mais opções

A peregrinação do Penitente pelo mundo de Blasphemous 2 explora novamente o estilo de ação e plataforma 2D. No jogo, desbravamos um mapa intrincado com múltiplos caminhos e segredos, sendo que muitos dos trechos só podem ser acessados após adquirir habilidades específicas. O combate é brutal, pois os inimigos são poderosos e agressivos, demandando cuidado e perícia para avançar.


A grande novidade da sequência é a inclusão de três armas distintas — escolhemos uma delas no início e adquirimos as restantes depois ao explorar o mapa. A lâmina Ruego Al Alba é equilibrada e pode ter seu poder aumentado ao custo de um pouco de vida. Os floretes Sarmiento e Centella desferem golpes rápidos que acumulam eletricidade. Por fim, Veredicto é um grande incensário que desfere golpes amplos lentos, sendo possível incendiá-lo para infligir dano de fogo. Novas técnicas podem ser desbloqueadas em árvores de habilidades individuais de cada arma.

Além de oferecerem diferentes opções ofensivas, os novos equipamentos apresentam recursos que nos permitem interagir com elementos dos cenários. Ruego Al Alba tem um ataque descendente capaz de destruir certas estruturas quando ativado de locais altos. A dupla Sarmiento e Centella permite ativar espelhos que lançam o Penitente para diferentes locais, às vezes atravessando objetos sólidos. Já os ataques da pesada Veredicto fazem ressoar sinos, cujas ondas fazem surgir plataformas temporárias. Alternar entre as armas é instantâneo, trazendo versatilidade aos combates e à exploração.
 

As opções de customização também foram expandidas. Contas de Rosário com efeitos diversos, como diminuir dano elemental, podem ser equipadas livremente. As Orações, que funcionam como feitiços, agora são divididas em duas categorias: ataques simples e encantamentos elaborados que custam mais energia. A grande novidade é o sistema de Benesses, que nos permite ativar efeitos passivos ao alocar estátuas em um painel com espaços limitados — certas combinações desbloqueiam bênçãos mais poderosas.

Flagelamento atroz no combate

Blasphemous 2, em sua essência, não é muito diferente do anterior, porém os ajustes e as novidades tornam a experiência mais refinada e agradável. A aventura alterna entre momentos de exploração, batalhas intensas e trechos de plataforma, sempre com a constante sensação de perigo por causa dos inimigos agressivos e inúmeras armadilhas espalhadas pelos cenários.


O combate mistura elementos simples em encontros brutais e pungentes. Além de atacar, o Penitente é capaz de esquivar, defender e aparar golpes, sendo necessário observar com atenção para sobreviver. As novas armas e suas características únicas trazem versatilidade: o incensário Veredicto é ótimo para acertar inimigos aéreos; já as lâminas Sarmiento e Centella são fracas, porém têm movimentos ágeis. Habilidades desbloqueáveis e muitas técnicas expandem as opções aos poucos, gostei muito de testar as possibilidades.

A dificuldade é brutal, bastando poucos momentos de desatenção para ser derrotado até mesmo por oponentes normais. A maioria dos inimigos tem somente um ou dois movimentos, mas o desafio vem da combinação de perigos: é um suplício escapar e golpear criaturas que surgem de todo o lado com ataques distintos enquanto tentamos escapar de armadilhas. Os chefes são ainda mais complicados com seus padrões de movimentação intrincados e poderosos.


Uma das maiores reclamações do primeiro jogo era justamente a dificuldade, que em muitos momentos parecia injusta e exagerada. Blasphemous 2 ainda continua difícil, mas claramente está melhor balanceado nesse aspecto. Para começar, as armadilhas estão menos punitivas e cair em espinhos ou buracos não resulta em morte instantânea. O mundo conta com pontos de salvamento e atalhos melhor posicionados, o que ameniza a derrota. Por fim, o dano infligido pelos inimigos é mais razoável e há mais tempo para reagir, diminuindo a chance de morrer por causa de um único deslize.

Particularmente, achei a dificuldade de Blasphemous 2 na medida, ou seja, bem intensa, mas sem ser frustrante. No começo eu apanhei bastante, mas logo estava defendendo na hora certa para contra-atacar enquanto trocava de arma durante um combo. Em alguns momentos eu fiquei preso em algum combate complicado, mas consegui avançar ao tentar uma arma diferente ou ao alterar as habilidades passivas. Em especial, gostei muito das três armas e suas várias técnicas.



Em uma peregrinação refinada e familiar

Como metroidvania, Blasphemous 2 faz muito com pouco. Ao contrário de outros títulos do gênero, o Penitente adquire pouquíssimas habilidades de locomoção, porém o desenho elaborado dos mapas e desafios torna a aventura envolvente.

A progressão é curiosa. No início, a aventura é bem aberta: de posse de uma das armas, exploramos vários locais de forma não linear enquanto buscamos os armamentos restantes e derrotamos chefes de história. Depois disso, a estrutura se torna completamente linear, com indicação clara do local do próximo objetivo. Pode parecer ruim, mas achei uma decisão positiva, pois os mapas são bem elaborados, com inúmeros colecionáveis e missões opcionais escondidos, o que traz a sensação de estar explorando um mundo intrincado.


O desenho das áreas é diverso e interessante. Alguns trechos são tradicionais, com plataformas e inimigos espalhados em planos horizontais. Em outros pontos, precisamos escalar grandes construções ou desbravar locais labirínticos. Um destaque são os desafios de plataforma em que é necessário alternar rapidamente entre as armas para utilizar suas habilidades para alcançar locais de difícil acesso. Há também partes em que precisamos ser rápidos, como atravessar uma sala repleta de saltos complicados antes que a porta de saída se feche. Há todo tipo de desafio nesse estilo e me surpreendi com a variedade.

A execução é ótima, porém é difícil não se incomodar com a familiaridade: o segundo capítulo ousa pouco e basicamente refina as ideias do anterior sem muitas surpresas. Além disso, ele aposta demais no tradicional, como as habilidades de navegação do protagonista que são as mesmas batidas de sempre. Por fim, no campo do conteúdo, fica a sensação de que há menos para ver e fazer em relação ao primeiro título. É uma comparação um pouco injusta, afinal o predecessor recebeu várias expansões gratuitas com o passar do tempo, então torço que o mesmo seja feito aqui.



Na beleza desconcertante

O aspecto mais impactante de Blasphemous 2 é a sua atmosfera gótica fortemente inspirada na cultura espanhola e em conceitos religiosos. O mundo dominado pelo Milagre é repleto de criaturas grotescas, personagens exóticos, violência e martírio. Há todo tipo de personagem estranho, como uma mulher cuja pele é removida aos poucos por pequenos anjos ou um homem condenado a ter seu corpo tomado internamente por uma colônia de abelhas.


Um pixel art estonteante traz vida a esse universo, e os cenários ricamente construídos e uso de cores sóbrias faz com que ele seja simultaneamente belo e perturbador. Pode não parecer, mas o visual da sequência está mais bonito e detalhado, principalmente as animações, que contam com mais fluidez. Alguns inimigos são reaproveitados do primeiro, a violência gráfica foi um pouco atenuada e os chefes estão menos imponentes, no entanto o jogo continua sendo muito belo.

As localidades são impressionantes, como uma vila decrépita, uma catedral submersa, um mosteiro nas montanhas e uma estranha mansão repleta de corpos cobertos de cera. O áudio complementa a sensação de estar explorando uma versão gótica e distorcida da Espanha com faixas soturnas, pianos pungentes e marcantes melodias em violões. A dublagem em espanhol, inclusive, é excepcional e torna a ambientação ainda mais envolvente.


Já a trama em si é críptica e intrigante, mas também confusa e obtusa. É difícil entender de fato o que está acontecendo e o que cada personagem almeja, mas arrisco dizer que isso faz parte da experiência: assim como o Penitente, estamos perdidos nesse universo distorcido. No entanto, é fácil perceber os temas centrais, como a dicotomia do próprio Milagre — ele é simultaneamente uma bênção e uma maldição, o Deus e o Demônio, e a percepção disso pelos personagens é diversa e instigante. De qualquer maneira, é impressionante o trabalho do estúdio, pois o jogo está repleto de referências sutis a elementos da cultura espanhola e a conceitos religiosos.



Blasphemia infigo

Blasphemous 2 é uma intensa e assombrosa peregrinação por um universo perturbador. A sequência do metroidvania oferece uma aventura repleta de confrontos brutais e exploração envolvente em uma experiência mais refinada. As múltiplas armas trazem variedade aos embates, os elaborados mapas têm desafios interessantes de plataforma e o mundo é convidativo por causa de seus inúmeros segredos.

Como continuação, o jogo ousa pouco e praticamente não introduz novidades significativas. Porém, praticamente todos os aspectos foram aperfeiçoados: o desafio é melhor equilibrado, há muitas opções de customização e a atmosfera é ricamente trabalhada.

Envolvente e admirável, Blasphemous 2 é um metroidvania espetacular e imperdível.

Prós

  • Mundo com mapa elaborado repleto de segredos, desafios de plataforma e batalhas;
  • Combates frenéticos, variados e de dificuldade intensa;
  • Três armas e outros recursos de customização trazem variedade aos embates e à exploração;
  • Universo intrincado e ricamente construído inspirado na mitologia espanhola e em dogmas religiosos;
  • Belíssimo visual em pixel art e trilha sonora marcante.

Contras

  • Novidades pouco significativas e conservadoras;
  • Conteúdo mais limitado em relação ao jogo anterior.
Blasphemous 2 — PC/PS5/XSX/Switch — Nota: 9.0
Versão utilizada para análise: PC
Revisão: Heloísa D'Assumpção Ballaminut
Análise produzida com cópia digital cedida pela Team17

é brasiliense e gosta de explorar games indie e títulos obscuros. Fã de Yoko Shimomura, Yuzo Koshiro e Masashi Hamauzu, é apreciador de roguelikes, game music, fotografia e livros. Pode ser encontrado no seu blog pessoal e nas redes sociais por meio do nick FaruSantos.
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