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Análise: BOKURA (Multi) traz uma aventura na qual a cooperação entre dois jogadores é essencial

Exclusivamente pensado para dois jogadores, o título explora o conceito de trabalho em equipe.

BOKURA
é um jogo de aventura pensado exclusivamente para ser explorado de forma cooperativa por dois jogadores online. Inclusive, seu nome, que significa "nós" em japonês, já reflete essa perspectiva de multiplayer, sendo recomendado que as duas pessoas dialoguem durante os trechos para poder avançar.

Longe de casa

Dois meninos com situações familiares conturbadas decidem sair de casa e ir para bem longe juntos. Com umas ideias estranhas de destruir uma estátua da cidade, a dupla vai parar em uma floresta densa e acaba tendo experiências extraordinárias após encontrar um corpo de alce no caminho.

Quando eles dão por si, já estão perdidos na floresta e as suas aparências mudaram totalmente. Cada um dos personagens vê o mundo ao seu redor de formas diferentes e isso influencia significativamente a experiência, alterando não apenas o estilo visual de cada lado, como também elementos que serão essenciais para os puzzles.

Chama a atenção a estrutura cotidiana da narrativa com personagens que, embora um pouco esquisitas, realmente agem como crianças em seus gostos, diálogos e trejeitos característicos. Visualmente, o jogo utiliza um estilo de pixel art que reforça a simplicidade do mundo, mas também o lado mais macabro da trama.

Conforme determinados eventos mais sinistros acontecem, vemos ruídos e distorções na tela. A resolução de alguns puzzles também envolve certas ações mórbidas, como arrancar a cabeça de um dos personagens para avançar e o mundo de um dos jogadores ser uma espécie de futuro sombrio.

Um jogo cooperativo

BOKURA é um jogo de aventura cuja gameplay alterna entre trechos narrativos e puzzles, e, em ambos os casos, a coordenação das ações dos jogadores é essencial para avançar. Durante os momentos textuais, temos geralmente os dois protagonistas conversando e ocasionalmente eles encontram outros personagens.

Porém, há alguns pontos-chave da trama nos quais os dois jogadores vivenciam cenas diferentes e devem depois tomar uma decisão com base no que viram. O jogo até indica para que eles não conversem durante esses trechos para poder explorar as perspectivas diferentes de cada um nos momentos de discussão.

Já nos puzzles, a partir de determinado ponto, o que um jogador vê é diferente do outro, levando a situações como um personagem parecer entrar em uma parede e empurrar itens que não são interativos. O resultado é uma experiência em que é fundamental conversar com o seu parceiro para avançar.

Vale destacar que BOKURA é um jogo relativamente curto (eu e meu amigo gastamos quatro horas para finalizá-lo) e tanto sua história quanto sua gameplay poderiam ter alguns elementos mais desenvolvidos. Em especial, vale destacar que a capacidade de interação com o ambiente é bem simples, só sendo possível pular e puxar/empurrar objetos.

Alguns elementos da lógica de colisão de objetos também podem atrapalhar a resolução dos desafios, já que certos objetos podem ser colocados em cima dos outros sem que a recíproca seja verdadeira. Em outro puzzle, estar muito próximo da parede pode levar a um game over sem sentido, o que também deve ser consequência de um bug de colisão.

Há alguns pontos que forçam esse elemento de formas bem inconvenientes para o jogador, como fazer com que ele dependa da outra pessoa para se guiar pelo ambiente sem enxergá-lo. A ideia é muito boa e um jeito interessante de testar a capacidade dos jogadores se organizarem, mas o delay do online e fazer com que um jogador fique tão impotente pode ser um incômodo considerável para algumas pessoas. Fica a sensação de que isso poderia ter sido feito de uma forma menos inconveniente.

Uma aventura para “nós dois”

BOKURA é uma aventura experimental que brinca com o conceito de agência de dois jogadores em sua narrativa e resolução de puzzles. Embora haja alguns problemas pequenos na física do jogo e desafios que podem ser um pouco frustrantes na limitação dada ao jogador, temos uma experiência interessante que vale muito a pena para quem gosta de resolução de puzzles e jogos cooperativos.

Prós

  • Aventura cooperativa que demanda ações coordenadas e bastante diálogo para a resolução dos puzzles;
  • O conceito dos dois jogadores terem visões diferentes do mundo é interessante e bem explorado nos puzzles;
  • Pixel art fofinha, mas que consegue oferecer o peso dos elementos mórbidos quando necessário;
  • O sistema de consenso para avançar a narrativa após os trechos individuais da trama ajuda a valorizar a agência dos dois jogadores.

Contras

  • Alguns desafios que deixam um dos jogadores vulnerável podem ser desnecessariamente inconvenientes;
  • Alguns bugs na colisão levam a pequenos problemas que atrapalham a resolução dos puzzles.

BOKURA — PC/Switch/Mobile — Nota: 8.5
Versão utilizada para análise: PC

Revisão: Juliana Paiva Zapparoli
Análise produzida com cópia digital cedida pela Kodansha


é formado em Comunicação Social pela UFMG e costumava trabalhar numa equipe de desenvolvimento de jogos. Obcecado por jogos japoneses, é raro que ele não tenha em mãos um videogame portátil, sua principal paixão desde a infância.
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