Blast from the Past

Castlevania Chronicles (PS): relembrando as aventuras de Simon Belmont na Transilvânia

Conheça o remake do primeiro jogo da série que, há 30 anos, apresentou desafios de alto nível a uma nova geração de “vampire killers”.

A série Castlevania, iniciada em 1986 com o título homônimo para Famicom Disk System, é uma das mais influentes e comercialmente bem-sucedidas no mundo dos games. A jogabilidade apurada e os sempre interessantes embates na eterna disputa do clã Belmont contra o Conde Drácula fizeram com que mais de 20 milhões de unidades fossem vendidas até hoje.

Com o êxito apresentado pelos primeiros jogos da franquia e o surgimento de sucessivas gerações de hardware desde então, a Konami resolveu desenvolver novas aventuras e releituras das primeiras entradas da série, a fim de apresentar a mais públicos todo o horror gótico que a série poderia oferecer.

Assim, em 23 de julho de 1993, surgiu Akumajō Dracula, remake da estreia da série, desenvolvido para o computador japonês Sharp X68000. O mesmo game foi relançado em 2001 para PlayStation ao redor do mundo sob o nome Castlevania Chronicles.

Uma nova velha aventura 

O enredo de Castlevania Chronicles é o mesmo apresentado pelo primeiro jogo da série e conta a história de uma maldição cíclica que acomete a pacata região da Transilvânia, no coração da Europa.

Diz a lenda que, a cada 100 anos, forças do mal tentam corromper os corações dos homens, visando a dominação mundial. Uma dessas tentativas ocorreu em plena era medieval, durante as comemorações da Semana Santa. Enquanto a população em geral festejava a ressurreição de Cristo, nas ruínas do velho monastério que ficava fora da cidade, os seguidores do mal realizavam rituais para ressuscitar Drácula e lhe conceder vida eterna.

Como sacrifício, eles derramaram sangue humano sobre os restos mortais do Conde. Neste momento, uma grande nuvem negra cobriu toda a cidade e, com um raio de luz caído sobre o monastério, o príncipe das trevas voltou ao mundo para implantar novamente seu reino de terror.

O que Drácula talvez não esperasse é que Simon, um jovem descendente da família Belmont, iria enfrentá-lo e impedir que o mundo sucumbisse às trevas de seu poder. Empunhando um misterioso chicote que seu pai havia lhe deixado de herança, Simon adentra o castelo do Conde para enfrentar todos os desafios e perigos que só um Belmont teria a coragem e audácia de encarar.

Controlando o herói

Em Castlevania Chronicles, o jogador controla Simon Belmont em oito blocos de fases, cada um composto por três níveis. Para enfrentar os perigos e monstros, o herói fará uso de seu chicote “matador de vampiros” (Vampire Killer), além de armas e objetos encontrados nos cenários ou derrubados por inimigos derrotados, como adagas e machados.

Simon também poderá coletar corações, que recarregam a “munição” dessas armas adicionais, e outros itens que lhe auxiliarão na jornada, como correntes que aumentam a extensão de seu chicote; ervas e pedaços de carne assada que recuperam sua energia; vidas extras; entre outros.

Em relação ao primeiro game da série, Castlevania Chronicles acrescenta novos níveis a alguns dos blocos de fases, cuja ordem foi alterada. Por exemplo: o bloco 2 do jogo original é o bloco 4 em Chronicles, e vice-versa. Também foram modificados o posicionamentos de alguns itens, inimigos e objetos da estrutura das fases.

Ao término de cada bloco, um chefe enfrentará Simon, tentando interromper seu progresso. Há grande variedade de chefes a enfrentar, tais como o morcego gigante, o dragão-esqueleto, a Medusa, a mulher-lobo e por fim, claro, o tão temido Conde Drácula.

‘Akumajō’ quem?

A série Castlevania no Japão também é conhecida pelo nome Akumajō Dracula, que em uma tradução livre seria algo como “O castelo demoníaco do Drácula”, representando o cenário principal em que as aventuras acontecem.

O nome internacionalmente conhecido foi criado no final dos anos 1980 por demanda do vice-presidente sênior da Konami of America, Emil Heidkamp, que julgou o nome original “perigoso” aos negócios, podendo apresentar conotações de cunho religioso que afastariam parte do público.

A potência de um arcade

A versão original de Castlevania Chronicles, lançada no Japão em 1993 (Akumajō Dracula), foi desenvolvida e lançada para o computador Sharp X68000, também conhecido como X68k. Esta máquina, popular em terras nipônicas na virada da década de 1980 para 1990, apresentava hardware de som e vídeo de ótima qualidade, comparável aos arcades da época, e por isso foi majoritariamente utilizada como plataforma de games e aplicações multimídia.

Como o X68k trazia possibilidades técnicas superiores aos desenvolvedores, sobretudo em comparação ao Nintendo Famicom, a Konami investiu pesado em uma reformulação gráfica e de som no desenvolvimento de Chronicles para aproveitar bem as capacidades dessa plataforma, além de melhorias na engine do remake, possibilitando a presença de inimigos e desafios mais dinâmicos em comparação ao original.

O resultado é um game com animações, cutscenes e efeitos suaves de transição de sprites que dificilmente um console da época, como o Super NES e o Sega Genesis, conseguiria acompanhar sem apresentar alguns “engasgos” ou comprometimentos técnicos em determinados momentos da jogatina.

O som não ficou por menos: trilhas interessantes e efeitos sonoros agradáveis acompanham o jogador durante toda a campanha, refletindo os cenários e desafios que Simon enfrenta em sua jornada.

Outro aspecto interessante que os desenvolvedores aproveitaram em relação ao X68k é a utilização de funcionalidades presentes em computadores da época, mas que foram se popularizar nos consoles apenas algumas gerações à frente. Um exemplo é a utilização do relógio interno do computador como fator determinante na composição de alguns cenários.

Para ilustrar melhor esse upgrade, na última seção da 21ª fase há uma grande pintura em um quadro no fundo da sala, representando um campo com montanhas. Dependendo da data configurada no sistema do X68k, o quadro representará uma das quatro estações do ano.

Relançamento com novidades

Como o Sharp X68000 foi comercializado apenas no Japão, durante um bom tempo essa versão de Akumajō Dracula ficou restrita às terras nipônicas. Isso mudou em 2001, após a Konami relançar o game com seu título internacional, desta vez para o primeiro PlayStation.

Além de ter realizado a localização para o mercado internacional, a desenvolvedora pôde aplicar diversas melhorias ao remake, possibilitadas pelas capacidades do console em questão. Desta forma, no mesmo disco a Konami decidiu disponibilizar ao jogador dois modos de aproveitar a aventura: o modo Original, praticamente fiel ao apresentado anteriormente no X68k, e o novo modo Arrange.

No Arrange, são aplicados novos sprites ao protagonista e ao vilão; alguns efeitos visuais foram remodelados; uma nova trilha sonora é apresentada, baseada no estilo eletrônico e aproveitando as capacidades de som da mídia em CD-ROM; e cutscenes pré-renderizadas são introduzidas como forma de contar a história do game.

A edição lançada em 1993 no Japão ficou marcada tanto pelo primor técnico de seu desenvolvimento quanto pela alta dificuldade apresentada, o que foi reconhecido até mesmo pelo seu diretor de desenvolvimento, Hideo Ueda. Para o lançamento internacional em 2001, a Konami decidiu introduzir opções para que o jogador defina qual a dificuldade que irá enfrentar no modo Arrange, a quantidade de vidas ao iniciar uma partida e a opção de ativar ou desativar o contador regressivo de tempo das fases.

Como forma de agradar aos fãs da série, nas versões americana e europeia de Castlevania Chronicles há a presença de um vídeo contendo uma entrevista com o produtor do game, Koji Igarashi, e uma galeria de artworks do game e de Castlevania: Symphony of the Night, desbloqueável após o jogador vencer pela primeira vez o modo Arrange.

Celebrando um legado

Apesar da série Castlevania ser um dos pilares para o desenvolvimento do gênero metroidvania, amplamente conhecido por permitir uma progressão não linear pelos estágios, as primeiras entradas da série não apresentavam essa característica. Mesmo assim, são jogos bastante divertidos e que trazem um nível de desafio alto, garantindo um bom fator replay em relação aos parâmetros de sua época.

À época do lançamento internacional, Castlevania Chronicles recebeu críticas mistas da imprensa especializada, sendo considerados aspectos positivos os fatores diversão e desafio do game, mas com ressalvas em relação à apresentação gráfica, tida como “datada” para 2001.

O jogo foi relançado posteriormente como um PSOne Classic na PlayStation Network em dezembro de 2008, para o mercado norte-americano, e em fevereiro de 2014 para o mercado japonês.

As qualidades expressas em Castlevania Chronicles representam a celebração das origens de uma série que até hoje é referência na cultura pop em geral, com mangás, séries de TV, brinquedos e diversas outras mídias,  e trazem ao jogador um ar nostálgico de um tempo em que bastava um chicote e muita coragem para enfrentar o mal, salvar o mundo e se divertir como nunca.

Revisão: Davi Sousa

Entendo videogames como sendo uma expressão de arte e lazer e, também, como uma impactante ferramenta de educação. No momento, doutorando em Sistemas da Informação pela EACH-USP, desenvolvendo jogos e sistemas desde 2020. Se quiser bater um papo comigo, nas redes sociais procure por @RodrigoGPontes.
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