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Análise: The Legend of Heroes: Trails into Reverie (Multi) é uma jornada de encerramentos para dar um passo além

Encerrando com chave de ouro os arcos de Crossbell e Erebonia, o RPG oferece uma catarse emocional consistente com o legado de seus antecessores.

The Legend of Heroes: Trails into Reverie
é a décima entrada da franquia de RPGs da Falcom, iniciada por Trails in the Sky (PC/PSP), mas ironicamente é conhecido no Japão como “Hajimari no Kiseki” (Trilhas do Início, em uma tradução literal). Confesso que o nome em japonês sempre me deixou intrigado, especialmente por se tratar de uma obra de conclusão para dois arcos e não um reboot ou recomeço para a série.

Porém, agora que tive acesso ao jogo, finalmente entendo a proposta do seu nome. Trails into Reverie é ao mesmo tempo uma despedida para não deixar arrependimentos e um pontapé para que a série olhe para o futuro, que já chegou no Japão em 2021 com Kuro no Kiseki. Carregado de simbolismo simples, mas efetivo, ele fecha com chave de ouro o que já vimos na série até agora.

Três caminhos, um destino

The Legend of Heroes: Trails into Reverie é uma sequência direta de The Legend of Heroes: Trails of Cold Steel IV (Multi) e apresenta uma estrutura não-ortodoxa para a série. Enquanto os jogos anteriores sempre seguiam um único protagonista, temos aqui três grupos cujas histórias se conectam em uma grande teia de eventos. Ainda há uma certa linearidade, com momentos em que não é possível progredir sem avançar a trama de um deles.

Dois grupos são relativamente óbvios para quem acompanhou a série até aqui. De um lado, temos Lloyd Bannings e a SSS tentando lidar com imprevistos que aconteceram durante o novo anúncio de independência da cidade-estado; do outro, Rean Schwarzer e a nova Classe VII recebem uma missão especial após o desaparecimento de uma figura importante de Erebonia.

Porém, o que chama a atenção desde o início é a perspectiva de um terceiro grupo muito mais misterioso composto pelo mascarado C, que usa o mesmo nome do antigo líder da Frente de Liberação Imperial, e três crianças. Seus aliados parecem ter um passado mais sombrio do que sua aparência indicaria e isso já é perceptível bem no início, embora os detalhes só venham a ser desenvolvidos posteriormente.

A história desses três grupos se conecta em função de eventos muito maiores que novamente tomam conta de Zemuria. Como uma conclusão dos arcos que vieram anteriormente, Trails into Reverie acaba soando como uma grande metáfora ao trabalhar o conflito dos protagonistas com espectros do passado e a forma como esse enfrentamento é importante para que eles possam trabalhar juntos por um futuro melhor.

É especialmente impactante ver como as atitudes de certos personagens implicam na sua evolução em relação a momentos que vivenciamos em títulos prévios da série. Porém, ao mesmo tempo, esse é um dos grandes calcanhares de Aquiles da obra: mesmo não sendo difícil entender o que está acontecendo, o peso da trama é muito emocional, tendo pouco valor para quem não acompanhou a trama de todos os nove jogos anteriores.

Turnos ágeis e estratégicos

Assim como seus antecessores, Trails into Reverie é um RPG de turnos no qual o posicionamento de aliados e o uso inteligente da ordem de ação são a base do combate. Cada personagem pode usar ataques, itens, magia, crafts, Brave Orders ou simplesmente se movimentar pelo campo de batalha. Ações diferentes implicam em tempos de espera diferentes para o próximo turno, sendo possível afetar a ordem do combate usando isso e a mecânica de S-Craft, que são ataques especiais que podem ser desferidos a qualquer momento da batalha, inclusive o turno adversário.

Cada personagem possui seu próprio HP, EP (usado para magias) e CP (energia dos crafts), mas a equipe também conta coletivamente com barras de BP, usadas para golpes em equipe e buffs coletivos chamados de Brave Orders, e Charge, energia consumida para ataques especiais preemptivos fora da batalha. Uma das novidades de Reverie é o fato de que o jogador pode usar o Charge em combate para ativar uma técnica chamada de United Front, que faz com que todos os aliados, incluindo os da reserva, ataquem os inimigos causando altos níveis de dano.

Outro fator importante é que os oponentes possuem uma barra adicional além do HP, que é reduzida de acordo com a capacidade de Break do personagem. Quando essa barra é esgotada, o inimigo fica vulnerável aos ataques comuns, dando abertura para que o jogador use os ataques combinados dos aliados a qualquer momento, algo que normalmente é mais raro de ocorrer quando o alvo ainda está de pé.

De forma geral, Trails into Reverie é uma boa evolução do que vinha sendo apresentado na série ao longo da quadrilogia Cold Steel. Embora detalhar todos os pontos possa soar como algo muito complexo, quem já jogou os anteriores vai se sentir em casa com a introdução do novo elemento. Trata-se de uma experiência bem dinâmica e rica em táticas em potencial que o jogador pode explorar, e mesmo quem não gosta muito de enfrentar grandes desafios e prefere só aproveitar a história pode utilizar as dificuldades mais baixas para reduzir drasticamente a força e o HP dos inimigos.

Também vale destacar que a partir de um certo ponto da campanha, é possível acessar uma área chamada True Reverie Corridor, que funciona como uma espécie de dungeon procedural cujo layout só é alterado quando o jogador quiser. Assim como em Trails in the Sky the 3rd, a exploração dessa área libera vários conteúdos opcionais que enriquecem a trama e a experiência geral. Além de cenas extras, podemos desbloquear minigames e itens variados, incluindo acessórios e roupas com efeitos puramente cosméticos.

O que esperar no PC?

Trails into Reverie será lançado para PC, PS4, PS5 e Switch. Tive a oportunidade de jogá-lo tanto no Switch quanto no PC, tendo concluído a campanha apenas no primeiro por ter encontrado alguns bugs que travavam o jogo nas cutscenes da versão do Steam. Espero que eles sejam corrigidos antes do lançamento, tendo em vista que a versão que joguei ainda não era uma build 1.0, mas esse update não aconteceu até o momento da escrita deste texto.

Apesar disso, gostaria de destacar que, como nos títulos anteriores, a edição de PC de Trails into Reverie conta com um grande leque de opções para personalizar os gráficos e a experiência geral. O port feito pela PH3 GmbH inclui ajustes para anti-aliasing, oclusão e filtros para garantir que a qualidade visual seja a melhor e que o jogo possa rodar em PCs mais modestos.

Também é possível modificar outros detalhes como ângulo de câmera, velocidade do turbo (um item extremamente útil para explorar mais rapidamente) em combate e exploração, campo de visão, controles, volume e voz em japonês ou inglês. Até mesmo começar diretamente do último save, pulando toda a inicialização, é uma opção antes mesmo do arquivo selecionado abrir.

O pontapé para o futuro

The Legend of Heroes: Trails into Reverie é uma conclusão digna para os arcos de Crossbell e Erebonia. Embora seja contraindicado a quem não experimentou os jogos anteriores, o título oferece uma bela catarse emocional simbólica dos desafios vivenciados pelos personagens até então. Resta aos fãs esperar agora pelo arco de Calvard para começar mais uma história no continente de Zemuria.

Prós

  • Uma boa conclusão para os desafios que os personagens da série enfrentaram até aqui;
  • Batalhas em turno dinâmicas e com vários elementos estratégicos interessantes;
  • Trilha sonora de alta qualidade;
  • O menu de configurações permite ajustes gráficos e de controle com alto nível de detalhamento;
  • O modo turbo ajuda a agilizar a exploração consideravelmente.

Contras

  • Contraindicado a quem não jogou todos os nove títulos anteriores devido à perda de valor de alguns elementos da trama;
  • Bugs que deixaram as cutscenes travadas na build pré-lançamento.

The Legend of Heroes: Trails into Reverie — PC/PS4/PS5/Switch — Nota: 8.5
Versão utilizada para análise: PC

Revisão: Davi Sousa
Análise produzida com cópia digital cedida pela NIS America


é formado em Comunicação Social pela UFMG e costumava trabalhar numa equipe de desenvolvimento de jogos. Obcecado por jogos japoneses, é raro que ele não tenha em mãos um videogame portátil, sua principal paixão desde a infância.
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