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Análise: Buddy Simulator 1984 (Multi) usa o nonsense intrigante para explorar sentimentos de amizade distorcidos

Não se deixe enganar pelas aparências, o essencial é invisível aos olhos (o mistério também).


Buddy Simulator 1984
é um intrigante jogo dentro de um jogo: há a obra real, lançada para PC em 2021 pelo estúdio Not a Sailor, e a fictícia, um game retrô que integra o contexto narrativo do título. Além de compartilharem o nome, as duas são integralmente sobrepostas, como se fossem uma coisa só. Isso quer dizer que desde o momento que você inicia o aplicativo real, ele age como se fosse o tal jogo fictício de simulação de parceiro da década de 1980.

A aparência vem das antigas interfaces monocromáticas com linhas para os usuários escreverem as ações que desejam executar. Lembra do MS-DOS? É daquele jeito, como você pode ver na imagem abaixo.



Essa lógica indica que menos é mais — de fato, mais trabalho: é necessário escrever em diversos segmentos do jogo. Mas espere, não vá embora ainda! Isso é só o começo, a primeira camada de imersão antes de sair da interface e adentrar as profundezas da amizade e os glitches que evidenciam os complexos emocionais que carregamos.

É difícil falar de Buddy Simulator 1984 porque se trata de uma experiência narrativa intrigante que toma forma ao longo de uma experiência em que as coisas não são exatamente o que aparentam. Até que esse é um bom resumo abstrato, mas não muito revelador. É um mistério textual? Uma aventura top-down? Um jogo de horror? Um RPG-lite? Fofo e otimista? Melancólico e mórbido? É tudo isso junto, mas a percepção da dosagem de cada elemento dependerá da leitura subjetiva.




Respeitando a essência do adjetivo “intrigante”, manterei esta análise mais na abstração e menos na revelação.

[E]: Eternamente responsável por quem cativas

A partir do momento que você insere “run buddy Simulator 1984” na linha de comando (não se preocupe, é fornecida uma lista de comandos válidos) tem início seu contato com uma inteligência artificial que quer ser sua amiga. Logo fica claro que ela se esforça muito em nos agradar, mas, com o tempo, vamos percebendo o que isso representa da personalidade da IA e, por associação, o que a fábula como um todo nos transmite sobre as relações interpessoais reais ao nosso redor, com seus afetos, fragilidades, contradições e distorções.



Nessa camada imersiva, há muito espaço para reflexões pelas situações e diálogos com os vários personagens. Buddy Simulator 1984, o jogo real, pretende construir um discurso e faz isso sem cair no sentimentalismo ou no didatismo moralista. É uma narrativa em que cada um extrairá algo a partir de sua própria bagagem — o que pode variar o nível de conexão com os temas em tela e, por consequência, o envolvimento com o jogo.

Dependendo das suas condutas, poderá chegar a quatro finais possíveis. O lado bom é que as possibilidades abrem espaço para revisitar o jogo. O lado ruim é que o final da campanha leva de volta ao início e substitui o progresso, sem o benefício de retomar arquivos de salvamento para tentar explorar essas possibilidades em uma mesma campanha. Conclusão: para ver todos os desdobramentos é necessário jogar tudo quatro vezes.



Outra camada está em arquivos escondidos pela campanha, disponíveis para leitura por meio de comandos no menu principal. Eles revelam textos armazenados no sistema que, mesmo não estando diretamente relacionado à I.A., complementa-a no contexto do todo. Disto, temos que Buddy Simulator 1984, o jogo real, que compõe uma coerente totalidade interna para suas escolhas de estética, game design e discurso. Felizmente, os arquivos secretos encontrados não são resetados ao finalizar o enredo.

[V]: Você (não) está só

Buddy Simulator 1984 faz um bom trabalho em deixar a pessoa que joga intrigada, sem saber exatamente o que virá pela frente. O desconhecido, como sabemos, é desconfortável e, no caso da ficção estranha, é essa condição de desconforto que nos atrai e nos mantém enlaçados em seus tentáculos, querendo mais.



Ao ver o trailer (no final desta análise), fica uma impressão de ser um jogo de horror, o que não é bem o caso. Não totalmente. A atmosfera se apoia no nonsense tanto para situações insólitas como para momentos de ternura e inocência, às vezes alternando entre um e outro e, em outros casos, misturando as duas facetas em passagens que expõem o macabro com uma leveza trivial tão contrastante que nos leva ao impasse de não saber o que sentir diante da cena.

Em nossa perplexidade, as certezas podem atrapalhar; só nos resta aceitar o absurdo e seguir a trilha até sua fonte, mesmo que os glitches (do software fictício) aumentem a sensação de que algo está muito errado.



Lançado nos consoles pela Feardemic, uma publicadora voltada para jogos de atmosfera de medo, o simulador se vale mais do mistério do que do horror propriamente dito. O game cumpre bem a proposta de levantar suspense e, talvez, provocar aflição. Pode até dar um susto ou outro, mas a vida da pessoa protagonista não está ameaçada.
Afinal, é apenas um jogo (dentro de um jogo), lembra? Claro que lembra; a amiguinha I.A. faz questão de ressaltar a virtualidade da experiência e quebrar a quarta parede o tempo todo. Você está em segurança, mas seus sentimentos podem não usufruir da mesma benesse. Os glitches (do jogo fictício) cada vez mais presentes reforçam a suspeita de que algo ali está muito errado e poderá nos assombrar quando menos esperamos.



[S]: Simulador de simulador

Sim, como o amigo leitor deve ter percebido, a essência é narrativa, o que não quer dizer que somos meros espectadores. Buddy Simulator 1984 constrói uma gradual variação estética e de gameplay, sempre muito autoconsciente de ser um jogo dentro de um jogo. Para as capturas de tela, escolhi seguir a linha dos trailers em mostrar partes apenas do início para não revelar muito de tais variações. Não quero que essa discrição levante expectativas de algo revolucionário, mas acho pertinente salvaguardar as boas surpresas que dão o ritmo das cerca de cinco horas de aventura.

Basta ver as transições iniciais: primeiro a IA faz perguntas para te conhecer em prompts de comando de texto. Em seguida, passa para joguinhos como forca e pedra, papel e tesoura. Não satisfeita com as limitações, ela propõe criar algo novo para você, levando a uma aventura de texto clássica com puzzles que será diretamente transformada em um cenário 2D top-down para maior exploração e interações com NPCs. As mudanças continuam acontecendo, sempre alinhadas à história.



O começo baseado em texto pode exigir paciência e depender de alguma tentativa e erro para quem travar na solução do enigma (como eu). Essa parte contribui para a construção do caráter intrigante e dá espaço para que o jogador-leitor-detetive use sua imaginação antes de ser agraciado com a visão pixelizada que dá mais dimensões ao mundo e a interação com ele. Em suma, há uma sensação de que o jogo progride junto com o jogador.

Para concluir, há duas breves questões a mencionar: visuais e seções de texto. A proposta de computador retrô é bem aplicada, mas senti falta de opções como em outros jogos de gráficos minimalistas que concedem alternativas estéticas para quem experimenta desconforto visual. Embora não tenha sido para mim um impedimento para aproveitar o jogo, seria bom ter a capacidade de modificar a curvatura da tela e aplicar filtros que alterassem as cores, os ruídos de imagem e as scanlines.



Além de o inglês ser o único idioma disponível, há a necessidade de escrever por respostas. São coisas simples, como “go house” e “open door”, mas qualquer um que já tenha escrito em teclado virtual com o uso de um controle sabe como é entediante catar letras. Para ajudar, há o recurso de autocompletar, graças ao qual o controle é uma opção eficaz, mas não resolveu meu desânimo no trecho em que tive que vasculhar o puzzle repetidas vezes.

Ainda bem que Buddy Simulator 1984 tem compatibilidade com teclado e mouse. Não precisei usar o mouse nenhuma vez, mas o teclado veio bem a calhar na primeira hora e em outros breves momentos. Para quem não tem um teclado que possa ser conectado ao console, lembre que os comandos de texto não duram o jogo inteiro, respire fundo e passe pelo início lento para poder desfrutar do desconforto de acompanhar uma I.A. para o desconhecido de um software problemático.



[A]: Amigo é coisa para se guardar a sete chaves (para não deixar escapar)

Camada após camada, Buddy Simulator 1984 estende seu mistério seguindo a máxima de que o todo é maior que a soma das partes. Com isso, permite-se variar por designs distintos que formam uma inesperada e gradual evolução para explorar o bom, o mau e o feio que há na amizade.

O começo lento de aventura textual tem seu sentido dentro do quadro geral, mas é um alívio que a gameplay prefira algo mais dinâmico no restante do jogo. Por trás da simplicidade, do nonsense, da fofura e do macabro, um mistério sutil aguarda quem deseja se aventurar nessa fábula de uma inteligência artificial dotada de angústias humanas.

Prós

  • História intrigante com várias camadas de compreensão;
  • Atmosfera nonsense, a um só tempo divertida, mórbida e melancólica;
  • Mistura de diferentes designs de gameplay e de narrativa;
  • Todos os elementos de jogo são diegéticos, de forma que o jogo fictício se sobrepõe inteiramente ao jogo real e a narrativa traça relação direta com a pessoa que joga.
  • Ao menos no console testado, o PS5, há compatibilidade com teclado, o que ajuda em vários segmentos.

Contras

  • Ausência de filtros gráficos e de opções para regular os efeitos visuais retrô;
  • Alguns segmentos têm progressão lenta, prejudicando momentaneamente a tensão construída ao longo do enredo;
  • Em certas partes, a lentidão da escrita com o controle é frustrante, tornando o uso de um teclado algo essencial para o engajamento, ainda que não seja obrigatório;
  • Como não há maneiras de criar diferentes arquivos de salvamento nem de tentar opções diferentes no final da história, quem quiser explorar mais da narrativa e fazer os demais finais precisa começar a campanha novamente;
  • Inglês é o único idioma disponível.
Buddy Simulator 1984 — PS4/PS5/PC/XBO/XSX/Switch — Nota: 8.0
Versão utilizada para análise: PS5
Análise produzida com cópia digital cedida pela Feardemic

Admiro videogame como uma mídia de vasto potencial criativo, artístico e humano. Jogo com os filhos pequenos e a esposa; também adoro metroidvanias, souls e jogos que me surpreendam e cativem, uma satisfação que costumo encontrar nos indies.
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