Crônica

Platinar jogos: uma linha tênue entre diversão e obrigação

Troféus e conquistas abrem novos horizontes em um jogo, mas a obsessão por eles pode não ser saudável.


No meu tempo de infância, quando fui apresentado aos videogames, descobri também um vasto glossário associado à prática. Dentre tantos termos, um que sempre me chamava a atenção era “salvar o game”. “Ah, esse game daí eu já salvei!”, falava o meu coleguinha de peito estufado, todo orgulhoso do feito de ter finalizado o seu jogo de videogame preferido. Em uma época em que os jogos utilizavam da dificuldade demasiadamente punitiva para compensar a falta de conteúdo, angariar fichas extras nos fliperamas e alguns dias a mais de locação, “salvar um game”, de fato, era algo louvável e digno de muitas glórias — pelo menos dentro da nossa cabecinha de jovens gladiadores digitais.


Com o tempo, os jogos foram ficando mais robustos, e passaram a ter o que chamamos de coletáveis: você provavelmente já tentou obter todas as moedas do Donkey Kong Country 3, ou ainda, completar todo o mapa do seu Castlevania preferido. Tais mecânicas sempre garantiram algumas horas a mais de gameplay e diversão, além de “troféus intangíveis” àqueles que obtinham sucesso na empreitada.

No começo era só mato

A ideia de presentear o jogador com conquistas não é recente: a Activision nos anos 80 incentivava os jogadores a fotografar os seus recordes e enviar por carta, para receberem em seus lares distintivos semelhantes a patentes, que garantiam um certo status ao jogador. Com o passar dos anos, o avanço tecnológico e o acesso à Internet permitiram que os sistemas de conquistas se tornassem mais robustos e fossem adotados em praticamente todas as plataformas atuais.


Meu primeiro contato com esses sistemas foi em 2010, quando comprei meu PlayStation 3. Fiquei embasbacado com a possibilidade de “ir além” nos jogos e, ao mesmo tempo, frustrado pela minha incapacidade de conseguir obter 100% das conquistas. Nunca fui um exímio jogador, e agora, mais do que nunca, o videogame fazia questão de me jogar isso na cara.

Não demorou muito para eu descobrir sites especializados em conquistas. Esses sites criam rankings de usuários, guias para obtenção dos 100%, possuem fórum de discussão e proporcionam um espaço onde os jogadores podem combinar entre si para conseguir um ou outro troféu online. Com os rankings, comecei a me informar sobre quem são os heróis sem capa que possuem mais troféus na PSN; foi assim que soube de Hakam Karim, um barenita que em 2018 entrou para o Guinness Book. Nessa época, Karim possuía mais de 1600 platinas em sua conta PlayStation; um número impensável para a maioria dos mortais, e eu me incluo nessa. Penso que, mesmo que a única coisa que eu fizesse em minha vida fosse jogar videogame, ainda assim, seria incapaz de realizar um feito como esse.

Platina tem valor? Para quem?

Ao longo dos anos, venho pensando muito sobre como deveria ser a minha relação com os jogos. Já cometi no passado algumas peripécias que colocaram o meu emprego e casamento em risco, e não tenho mais idade para me aventurar dessa forma. Ao mesmo tempo que eu tento me convencer de que o principal motivo para se jogar videogame deve ser a diversão, e os troféus e conquistas precisam ser um coadjuvante neste processo, iniciar um jogo e vê-lo na minha lista com um percentual incompleto me traz muito incômodo. Em vários momentos deixei de jogar pelo simples fato de acreditar não ser capaz de obter a platina e não sinto orgulho disso.


Tenho plena ciência de que ter uma ou várias platinas em meu perfil tem importância só para mim mesmo; isso jamais seria ou será levado em conta em nenhuma esfera da minha vida para nada. Logo, é possível assumir que, qualquer tempo despendido na obtenção de uma platina, sem que eu esteja genuinamente me divertindo no processo, é um desperdício. Mesmo assim, continuo repetindo sempre o mesmo rito: decido jogar, busco a lista de troféus e vejo o roadmap. Durante o gameplay, fico ansioso por ver o pop-up na tela. Ao terminar a história principal, volto no roadmap, e começo a captura daquilo que falta.

Platinar é fazer valer o investimento em um jogo

Jogos sempre foram itens de luxo no Brasil e investir hoje quase R$ 400 em um lançamento é para poucos. Levando em consideração o retorno desse investimento, e o fato de que os sistemas de troféus e conquistas aumentam significativamente a sobrevida de um jogo, é justo pensar que ir em busca dessas conquistas é algo que vale a pena. A grande questão à mesa é a relação do jogador com esta atividade, que muitas vezes pode não se tornar algo saudável.




Muitos troféus exigem que se façam coisas sem sentido, nem sempre divertidas, e como exemplo eu posso citar um troféu online do jogo Guitar Hero Live que consistia em tocar um milhão de notas; este foi o troféu mais difícil que já fiz na vida. Apenas 0,1% dos jogadores de Guitar Hero Live obtiveram a platina, e hoje é algo impossível de se conseguir, pois o modo online foi descontinuado. Sinto orgulho dessa minha conquista, ao mesmo tempo que penso que poderia ter usado esse meu tempo em uma atividade mais importante.

A diversão está acima de tudo

No final das contas, a mensagem que quero deixar para você é que a diversão, sempre, deverá guiá-lo na tomada de decisão sobre platinar ou não um jogo. Afinal de contas, esse é o seu momento, às vezes, o melhor momento do seu dia. Ele tem que ser incrível, e se uma platina não lhe parece ser algo que possa contribuir para isso, vá para o próximo jogo.




Entrar em jogos que possuem platinas fáceis (conhecidas como “garapas”) apenas pelo fato de ver o montante de conquistas aumentar, não me parece ser nada divertido, mas, se é algo que faz sentido para você, vá em frente.

Agora, meu caro leitor, estou curioso para saber: você platina jogos? Qual foi a sua platina mais difícil?

Revisão: Heloísa D'Assumpção Ballaminut


Geek, gamer e gateiro por vocação, profissional de TI por ocupação. Apaixonado por games desde a infância, tenho este como o meu principal hobby. Do retrô 8-bits ao lançamento da semana, todos tem espaço em meu backlog, que nunca para de aumentar. Você pode me encontrar nas Redes Sociais com o nickname BarbaPixels: YouTube | Twitter | Instagram | TikTok | Blog Pessoal
Este texto não representa a opinião do GameBlast. Somos uma comunidade de gamers aberta às visões e experiências de cada autor. Escrevemos sob a licença Creative Commons BY-SA 3.0 - você pode usar e compartilhar este conteúdo desde que credite o autor e veículo original.


Disqus
Facebook
Google