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Análise: Labyrinth of Zangetsu (Multi): explorando dungeons em um mundo tenso de pinturas monocromáticas japonesas

O dungeon crawler do desenvolvedor indie KaeruPanda oferece uma experiência bem tradicional e austera do gênero.

Labyrinth of Zangetsu
é um dungeon crawler desenvolvido em uma parceria entre o criador KaeruPanda e a publisher japonesa Acquire. Com um conceito visual único, o título evoca o espírito tradicional de mitos e histórias japonesas em uma proposta que por outro lado acaba sendo bem simples e ortodoxa para o gênero.

Deem o melhor de si, guerreiros de Ido!

Labyrinth of Zangetsu conta a história de um grupo de guerreiros que deve lutar para salvar Ido, uma região fictícia do Japão feudal que foi totalmente tomada por uma maldição de tinta. Criaturas malignas agora rondam verdadeiros labirintos que precisam ser recuperados a todo custo.

Com isso em mente, cabe ao jogador montar a sua própria equipe, escolhendo entre algumas raças e classes disponíveis. Aqui vale o adendo de que a força inicial dos personagens é determinada por um número aleatório e arbitrário na sua criação, mas é possível tentar novamente até conseguir um número mais alto (o limite máximo não é informado). Há também a opção de usar seis personagens pré-montados inicialmente caso o jogador queira evitar as complicações.

De qualquer forma, o jogo fornece seis vagas de personagens, três para a linha de frente e três para a retaguarda. O ideal é colocar os mais focados na ofensiva física na vanguarda e aqueles voltados à magia e a outras habilidades (como ladinagem) na retaguarda. A combinação “posição + área de alcance das armas” é fundamental, já que os personagens que ficam atrás não podem atingir os inimigos com armas de curto alcance, um elemento comum de RPGs que usam essa diferenciação.

Um mundo preto-e-branco

Um dos primeiros detalhes que chamam a atenção em Labyrinth of Zangetsu é o fato de que o mundo do jogo é prioritariamente composto de preto-e-branco. Ainda há outras cores em contraste, mas o estilo gráfico e o seu foco nas sombras é bem impactante. A obra é inspirada em estilos clássicos de pintura japonesa como o sumi-e e a trilha sonora opta por instrumentos tradicionais nipônicos, reforçando assim a sensação de um retorno ao Japão feudal.

Infelizmente, em termos de história, a obra é bem simples e direta, não oferecendo grandes reviravoltas. Pouco desenvolvida, ela é apenas uma explicação para que o jogador explore o labirinto e vários detalhes de contexto possuem justificativas muito pobres. Os detalhes interessantes infelizmente param na construção da “Tinta da Ruína” e no conceito superficial de revisão histórica.

No que tange à gameplay, a obra também acaba sendo extremamente simplista, focando-se demais em detalhes tradicionais do gênero a ponto de não oferecer nada de novo para a proposta além da sua ambientação. Ao contrário de jogos mais modernos como Labyrinth of Galleria, Mary Skelter ou até mesmo o bem tradicional Etrian Odyssey, Labyrinth of Zangetsu se esforça em manter uma estrutura bem próxima à de Wizardry, oferecendo uma experiência bem similar à de Wizardry: Labyrinth of Lost Souls (PC/PS3).

Um labirinto de tinta

A ideia da gameplay é simples: cabe ao jogador explorar as dungeons em primeira pessoa em busca das fontes da corrupção daquelas áreas. No caminho, é possível encontrar inimigos em batalhas aleatórias ou, de forma bem mais comum, ao adentrar regiões cobertas de fumaça.

O jogo diferencia o nível de força dos inimigos de acordo com a cor da fumaça e o jogador até conta com a possibilidade de se abaixar para entrar em um “modo furtivo” que deixa a equipe em alerta contra os inimigos, aumentando as suas chances de pegá-los desprevenidos. Isso é feito de forma bem simples, sendo necessário apenas apertar um botão para deixar o personagem nesse modo até voltar para casa.

Uma vez em batalha, o jogador pode escolher as ações dos personagens, repetir as escolhas anteriores (sempre atacar no primeiro turno), reordenar a equipe, mudar seus equipamentos ou fugir. Entre as ações, além do ataque básico, os personagens podem usar habilidades variadas e itens com efeitos como cura e invocação de ataques elementais.

Em termos de magias, o jogo segue um esquema parecido com um RPG de mesa ou uma versão linear daquele de Final Fantasy (NES). Ou seja, as magias associadas a cada nível de força possuem um número global de usos alocados em vez do MP que se tornou padrão no gênero. Com isso, o jogador tem uma noção bem precisa do que pode fazer, gastando todos os recursos possíveis e podendo manter um estoque apenas do nível associado a uma magia que pode precisar no futuro próximo.

Um detalhe interessante é que as habilidades aprendidas também podem ser utilizadas para outras funcionalidades. Por exemplo, clérigos podem fazer com que os personagens enxerguem no meio de névoas densas com uma iluminação que dura até a saída da dungeon. Já os ladrões são especializados em abrir baús, eliminando as trancas e armadilhas que estão sempre presentes. Todas as batalhas rendem algum tesouro e se o jogador falhar em abrí-lo não terá recompensa além da experiência.

Além dos baús, o jogador também precisará inspecionar os itens obtidos antes de usá-los. Dentro da dungeon, em um primeiro momento, a equipe só consegue enxergar um item indecifrável, como se mesmo uma tocha fosse apenas um pedaço de madeira no inventário até ser avaliado. Classes como ladrão e feiticeiro podem aprender a técnica de conhecimento de itens que reduz a chance da inspeção falhar.

Tanto a abertura de baús quanto a avaliação de itens podem falhar e os personagens podem ficar incapazes de tentar novamente por certo tempo, sendo necessário andar um pouco para curar esse problema. No caso do baú, isso pode causar sérios problemas para a equipe com armadilhas que causam dano e ativam efeitos como envenenamento, sendo importante sempre escolher o personagem ideal para investigar as fechaduras e depois desarmá-las.

Frustrações na tentativa de oferecer mais desafio

Como um dungeon RPG tradicional, a experiência de Labyrinth of Zangetsu busca ser bem “hardcore”, apelando para o lado do desafio intenso. Para isso, o jogo toma algumas decisões de design como colocar um preço bem alto na ressurreição de personagens mortos e também opta por um balanceamento bem delicado de dificuldade em que um pequeno tropeço pode ser fatal.

Dentre as escolhas, porém, há três que eu gostaria de destacar. Primeiramente, o jogo não tem saves manuais, apenas autosave, impedindo que o jogador tente explorar elementos de save scum e afins. Dependendo da dificuldade escolhida, isso pode ser ainda mais brutal, já que o modo Blightstained só salva após sair do labirinto. Enquanto isso, a dificuldade Normal pelo menos mantém registros toda vez que o jogador passa de um andar para outro.

Curiosamente, é necessário sair da dungeon para que os personagens ganhem nível com a experiência obtida. Dessa forma, o nível de força do jogador se mantém sempre constante até sair. Por um lado, isso faz com que a progressão tenda a ser mais difícil, com perdas significativas de HP. Por outro, é mais fácil evitar uma escolha odiosa mantida aqui em relação a Wizardry: os níveis com ganhos aleatórios de atributos.

Essa mecânica de níveis com efeitos aleatórios nos parâmetros dos personagens por si não é um problema, sendo empregada de forma razoável em jogos como Fire Emblem. Porém, o que vemos em Zangetsu e em Wizardry é a possibilidade de não apenas ganhar pontos como também perdê-los, fazendo com que aumentar de nível possa ser na verdade prejudicial para a força de um personagem. É uma escolha que apenas pune o jogador na base da sorte.

Mantendo-se fiel às tradições

Labyrinth of Zangetsu oferece uma experiência tradicional de RPG dungeon crawler, mas não vai muito além de um esqueleto simples dessa proposta. Apenas a ambientação japonesa estilizada acaba chamando a atenção, fazendo com que seja difícil recomendá-lo para qualquer pessoa que ainda não seja fascinada pelo gênero em detrimento a obras melhores no mercado.

Prós

  • Belo trabalho de ambientação em um Japão feudal alternativo reforçado pelas ilustrações inspiradas em um estilo clássico de pintura e uma trilha sonora com instrumentos tradicionais da região;
  • “Modo furtivo” como forma de aumentar as chances de pegar os inimigos desprevenidos é uma ótima ideia, embora subexplorada pela jogabilidade.

Contras

  • Estrutura extremamente tradicional e simplista que não oferece nada de novo para o gênero;
  • Ganhar nível pode reduzir atributos;
  • Necessidade de sair da dungeon para ficar mais forte;
  • Ausência de saves manuais.

Labyrinth of Zangetsu —PC/PS4/Switch — Nota: 6.0
Versão utilizada para análise: PC

Revisão: Juliana Paiva Zapparoli
Análise produzida com cópia digital cedida pela PQube


é formado em Comunicação Social pela UFMG e costumava trabalhar numa equipe de desenvolvimento de jogos. Obcecado por jogos japoneses, é raro que ele não tenha em mãos um videogame portátil, sua principal paixão desde a infância.
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