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Análise: Z.H.P. Unlosing Ranger Vs. Darkdeath Evilman (Multi) democratiza um clássico da NIS em nova coletânea

Título é um port sem atrativos adicionais, mas consegue brilhar por conta própria no Prinny Presents NIS Classics Volume 2 ao lado de Makai Kingdom.



Em 2021, a Nippon Ichi Software lançou a coletânea Prinny Presents NIS Classics Volume 1, resgatando dois clássicos do passado da empresa para plataformas atuais: Phantom Brave: The Hermuda Triangle Remastered e Soul Nomad & the World Eaters. Agora, chegou a vez do Prinny Presents NIS Classics Vol. 2, que, ao lado do RPG Makai Kingdom, relança pela primeira vez, doze anos após o original, o roguelite, Z.H.P. Unlosing Ranger Vs. Darkdeath Evilman, título originalmente produzido para o PlayStation Portable em 2010.

Herói por acaso

A história de Z.H.P., embora traga um estilo narrativo bem similar ao da série carro-chefe da Nippon Ichi Software, Disgaea, traz também uma espécie de paródia da cultura tokusatsu, indo na contramão do que é comum para a empresa, que é situar seus títulos em um contexto comumente protagonizado pelos demônios dos overworlds. 

Aqui, o protagonista nada mais é do que uma pessoa comum que acaba se tornando herói pelo mais puro acaso, uma vez que ele acaba herdando o manto do Unlosing Ranger, o Ranger Imbatível, depois de presenciar o detentor original da identidade ser derrotado por um mero acidente de carro.




O que acontece é que nosso herói silencioso precisa derrotar o chamado Darkdeath Evilman, que sequestrou o Super Bebê, humano profetizado como o salvador da Terra. Porém, o protagonista não sabe como ser um herói e, portanto, precisa passar por um árduo treinamento para finalmente se tornar apto a encarar o seu poderoso oponente logo de cara.

Ao mesmo tempo em que nos aprimoramos até a batalha derradeira, precisamos ir solucionando alguns problemas que a derrota do então invencível Unlosing Ranger ocasionou no planeta Terra e que poderão ser solucionados ao resolver conflitos da sua contraparte, a Terra Bizarra. Dessa forma, tal tarefa será feita ao lado de dois mentores, a treinadora de heróis, Etranger, e o fantasma do Unlosing Hero original, Pirohiko Ichimonji — e é assim que o resto da campanha se desenrola. 



Como cantava Raul, “tente outra vez”...

A estrutura básica de Z.H.P. é a de um roguelike. Ou melhor, roguelite, visto que se trata de uma variação mais convidativa e menos punitiva da definição original de um gênero. No caso, o título consiste em percorrer dungeons geradas proceduralmente (ou seja, o computador determina o desenho e os elementos do mapa na hora) que o herói precisa ir percorrendo andar por andar enquanto fica de olho não só na barra de saúde, que pode ser prejudicada pelos oponentes, mas na de energia também, que vai se esvaindo a qualquer ação realizada (de andar a atacar) e pode ser suprida ao consumir os alimentos encontrados nos mapas.

A questão é que, a cada derrota, o protagonista perde todos os itens e será necessário recomeçar todo o trajeto da masmorra. Ao contrário de um roguelike tradicional, em que absolutamente todo o progresso é perdido, Z.H.P. mantém o nível do personagem, algo que poderá ser vantajoso em uma nova tentativa.


O prejuízo da perda dos equipamentos também é amenizado no sentido de que eles são quase descartáveis, uma vez que eles têm limites de uso no que diz respeito às habilidades especiais, que podem afetar inimigos em várias células diferentes e com efeitos adversos — como dano elemental ou implicação de status, como paralisia ou sono —, que são cruciais para alcançar a vitória.

Considerando que as dungeons vão se tornando cada vez mais complicadas, as mortes são praticamente inevitáveis ao longo do título. Tendo isso em vista, o entendimento quintessencial de Z.H.P se torna o microgerenciamento no que diz respeito aos momentos em que o jogador está apenas grindando ou quando ele vai querer preservar os melhores itens para finalmente chegar ao andar final da masmorra percorrida. 




Não é nada realmente muito complexo, mas o principal mérito do título está em como ele conseguiu reequilibrar esse sistema de estrutura repetitiva dentro de um termo técnico chamado de fluxo cognitivo, que consegue balancear o desafio e a progressão contínua dentro de um ritmo de jogo em que ele não se torna difícil demais a ponto de se tornar frustrante ou fácil demais ao ponto do tédio. 

Há outros elementos pontuais cuja menção segue válida, como a possibilidade de aprimorar o personagem em um sistema que lembra um pouco o do Navi Customizer, da série Mega Man Battle Network, em que há uma espécie de grid e os power-ups, de formatos e tamanhos diferentes, precisam ser reorganizados ao longo das células dessa grade. Esses upgrades servem para trazer um aprimoramento dos atributos, que se combinam com a evolução natural do personagem.




Ah, é válido ressaltar que cada dungeon tem suas próprias temáticas e artimanhas. O segundo estágio do game, por exemplo, é uma fábrica que conta com esteiras que dificultam o movimento do personagem, enquanto o terceiro, por sua vez, traz um ambiente de floresta que separa as seções de cada andar por altura e é necessário utilizar canhões para conseguir alternar entre elas. 

As batalhas contra chefes também são dignas de nota. Enquanto os níveis comuns dão a tonalidade para a maior parte do desenvolvimento da campanha, ao chegar ao último andar das dungeons, o jogador precisa enfrentar um chefe. A graça é que a maior parte desses mapas envolve também a necessidade de resolver algum tipo de quebra-cabeça no meio do caminho para enfim tornar o chefão vulnerável aos ataques normais. 






Um jogo muito bom que até merecia um port melhor

Z.H.P. Unlosing Ranger Vs. Darkdeath Evilman, sozinho, é um jogo muito curioso e, assim como o seu herói que sempre retorna da morte para mais uma tentativa, merece mais chances entre os jogadores. Essa Prinny Collection serve bem a esse propósito, que é tirar do limbo um game virtualmente jogável em sua apresentação.

Entretanto, é notável que não é possível deixar de levar com consideração que, por mais que seja a própria ideia de trazer tanto o Z.H.P. quanto o Makai Kingdom em um único pacote simples, eles poderiam ter recebido uma atenção dois dedos maior. Isso se deve, principalmente, ao seu aspecto visual não ter ficado tão atraente em monitores de alta resolução. Esse problema se torna especialmente evidente quando há uma mescla de estilos gráficos diferentes na tela, uma vez que acaba ficando nítido um contraste incômodo entre os sprites, os elementos tridimensionais e as ilustrações.




Historicamente, o trabalho da NIS com sprites sempre foi algo exemplar, lembrando, inclusive, os charmosos gráficos de Ragnarok Online, com personagens que se movimentam com fluidez e uma variedade considerável de detalhes. Entretanto, a tradução de um console portátil para a tela de um computador — sendo que mesmo um notebook simples não tem uma resolução menor do que a WXGA (1366x768) — deveria ter sido feita com um cuidado maior.

Infelizmente, o cuidado visual se resumiu à aplicação de um filtro que simplesmente reescala os elementos gráficos, mas que acaba reduzindo a fidelidade deles no processo. Com esse filtro desligado, o que nos resta é uma verdadeira festa dos pixels, com sprites e cenários artificialmente esticados. 




Nessa segunda modalidade, Z.H.P. se torna um pouco mais agradável esteticamente, mas algumas outras opções poderiam estar presentes. Afinal, até mesmo emuladores trazem configurações de scanlines (aquelas linhas na tela que servem para simular a impressão de uma TV de tubo) e redução de arestas serrilhadas. Ainda, como uma opção mais radical, existem sistemas de redimensionamento de imagem à base de algoritmos muito bons (e até gratuitos, ressalta-se) disponíveis e que poderiam fazer, indubitavelmente, um serviço melhor.

Adicionalmente, a NIS disponibilizou a possibilidade de se adquirir o artbook e a trilha sonora digital do game separadamente. Considerando o trabalho tão cru — ele nem pode ser chamado de ruim nessa edição de PC (ao contrário da versão de Switch, que apresenta crashes constantes) — talvez fosse uma boa ideia ter incluído esses dois bônus no pacote do jogo como uma forma de inflá-lo e valorizar o próprio trabalho. 



Um representante exemplar do DNA da Nippon Ichi Software

De um modo geral, Z.H.P. Unlosing Ranger Vs. Darkdeath Evilman é um roguelite convidativo para um gênero normalmente impiedoso. Embora bem longe de reinventar a roda ou de trazer verdadeiras novidades para o estilo, ainda é difícil compará-lo com algum produto existente no mercado hoje.

Isso se dá tanto por sua própria narrativa como na forma que reequilibra vários dos sistemas tradicionais de um roguelite, trazendo uma aventura divertida, suficientemente desafiante, mas muito distante do vale da frustração no que diz respeito ao fluxo do jogo. Embora pudesse ser melhor trabalhado, disponibilizá-lo novamente para o público com certeza é uma decisão acertada e muito justa para um título tão simpático. 

Prós

  • Campanha de bom tom narrativo e jogabilidade bem estruturada em fazes bastante diversas;
  • Sistema roguelite convidativo para o público-médio;
  • Fluxo de jogo repetitivo, mas que consegue evitar ao máximo o “vale do tédio”;

Contras

  • Poderia ter jogado um pouco menos seguro e colocar a criatividade mais à prova em relação às mecânicas
  • Pacote extremamente simples de port, nenhum extra para contar história;
  • Poderia ter sido melhor trabalhado na parte gráfica, não dá nem para chamar de remasterização.
Z.H.P. Unlosing Ranger Vs. Darkdeath Evilman — PC/Switch — Nota: 6.0
Versão utilizada para análise: PC
Revisão: Juliana Paiva Zapparoli
Análise produzida com cópia digital cedida pela NIS America


É jornalista formado pelo Mackenzie e pós-graduado em teoria da comunicação (como se isso significasse alguma coisa) pela Cásper Líbero. Tem um blog particular onde escreve um monte de groselha e também é autor de Comunicação Eletrônica, (mais um) livro que aborda história dos games, mas sob a perspectiva da cultura e da comunicação.


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