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Análise: OlliOlli World (Multi) é uma viciante e desafiadora aventura de skate

O terceiro jogo da série aposta em opções acessibilidade e visuais mais elaborados, sem esquecer de sua essência competitiva.

OlliOlli World
mistura plataforma e skate em uma aventura sem igual. Os comandos são bastante simples, mas não se deixe enganar: o desafio é crescente e com fortes elementos competitivos. Os títulos da franquia são conhecidos por exigir precisão brutal do jogador, e  World muda isso ao amenizar algumas regras e ao introduzir recursos de auxílio. O resultado é um jogo mais acessível, mas que ainda tem apelo para aqueles em busca de complexidade. Essas alterações, em conjunto com vasto conteúdo e uma nova direção de arte, tornam esta uma experiência estonteante.

A simplicidade e as nuances da arte de andar de skate

Em suma, OlliOlli World é uma mescla de plataforma 2D, runner e skate. Em cada um dos estágios, o personagem se move automaticamente e o objetivo é conseguir chegar ao final do percurso, fazendo manobras e combos pelo caminho. Para executar os movimentos, basta girar ou dar toques no analógico esquerdo — a complexidade do comando dita a dificuldade da acrobacia.

O foco é reagir a tempo aos obstáculos, como buracos e escadas, porém existem inúmeras técnicas avançadas para aumentar a pontuação. Algumas são mais fáceis de executar, como girar no ar, deslizar em paredes ou os inéditos grabs; já outras mais complicadas são ótimas opções para jogadores mais avançados, como as do tipo Manual, que permitem estender combos ao deslizar no chão ou escadas com o skate empinado.


Os comandos são simples, mas isso não quer dizer que as fases sejam tranquilas — pelo contrário: cada uma delas tem elementos variados, como corrimões para deslizar, rampas para saltos, muitos obstáculos fatais, trechos com halfpipes e mais. Progressivamente as coisas ficam mais complicadas, mas, por sorte, OlliOlli World é flexível. O único objetivo obrigatório é alcançar a linha de chegada, o que pode ser uma opção para os menos habilidosos. Já aqueles que gostam de desafios podem encarar as várias missões opcionais e caminhos alternativos que desafiam nossa perícia.

No frenesi de circuitos complicados e empolgantes

OlliOlli World é mais um daqueles jogos de conceito descomplicado, mas que se revela difícil de dominar com o tempo. Somente chegar no final da fase, na maior parte das vezes, é tranquilo, mas a graça está em fazer inúmeras manobras e conseguir pontuações impressionantes.

No começo eu tive muita dificuldade: executar grinds e saltos em sequência era intimidador. Com o tempo, fui dominando as nuances e consegui montar combos cada vez mais complexos enquanto conseguia desviar dos perigos. Chegou um momento em que eu entrei em um estado de atenção focada e passei a ser cada vez mais ousado. Concentração, inclusive, é essencial: muitos estágios são tão frenéticos que piscar pode resultar em derrota.


Os jogos anteriores eram brutais e focados em precisão, bastando um pequeno deslize para cair de cara no chão, perder o combo e ter que recomeçar a fase desde o início. OlliOlli World altera isso com mudanças pontuais muito efetivas. Agora os estágios contam com checkpoints, amenizando a frustração das partes mais difíceis e repetitivas. Outra alteração é que a penalidade de cair no solo sem apertar um botão foi reduzida: uma aterrissagem perfeita dá mais pontos, mas não executá-la não reduz mais drasticamente a pontuação do combo e a velocidade do skatista.

A progressão da aventura também está mais suave e variada em relação aos títulos anteriores. Agora os estágios estão agrupados em cinco regiões com caminhos alternativos e fases opcionais. Há, inclusive, circuitos com objetivos diferentes, como vencer uma corrida contra um urso (que desce um rio tranquilamente em cima de uma boia) ou fazer um único combo longo com manobras específicas.


A mudança para gráficos 3D expandiu as possibilidades de situações pelas fases, que se tornaram mais ousadas. Em algumas situações, atravessar um halfpipe nos leva para um caminho no plano de fundo com movimentação na direção contrária. Corrimões se entrelaçam e se dividem em rotas alternativas — há, inclusive, situações de “loop” com trechos que funcionam como pequenas voltas que, às vezes, alteram os percursos. Isso, em conjunto com ângulos dramáticos de câmera, trazem a sensação de estar andando de skate em uma montanha-russa.

Quem gosta de desafio ou competir vai ter muito o que ver em OlliOlli World, pois estão disponíveis inúmeras missões e estágios opcionais, alguns deles bem complicados. Todas as fases contam com placares e é possível ver o replay dos outros para entender como os demais jogadores conseguiram alcançar as pontuações. Há também um modo de campeonato assíncrono em que os participantes competem entre si em circuitos criados diariamente. Por fim, existe um gerador de fases, que podem ser compartilhadas com outros jogadores — uma adição interessante, mas essas pistas não são nada inspiradas.



Tropeções no meio do caminho

É divertido conseguir fazer combos longos e complexos em OlliOlli World, e a curva de aprendizado suave torna a progressão agradável. Os estágios têm dificuldade crescente e novos elementos vão sendo introduzidos aos poucos. Tutoriais espalhados generosamente pelos mundos nos ensinam a utilizar as técnicas, por mais que todas elas já estejam habilitadas logo de cara. Com isso, tanto novatos quanto veteranos podem aproveitar o jogo desde o início.

Mesmo com tantas melhorias, questões negativas dos títulos anteriores ainda persistem, em especial nas etapas das últimas áreas. A mais irritante delas é a presença de tentativa e erro: muitos trechos exigem ações executadas com perfeição, bastando um único deslize para errar um salto, perder a velocidade e cair. Também há momentos em que a ação é tão rápida que é difícil conseguir reagir a tempo a obstáculos que aparecem de surpresa. Certas partes são tão complicadas que fui forçado a memorizar os passos e tentar inúmeras vezes para conseguir avançar.


O visual 3D é belo e possibilita cenários mais elaborados, porém essa abordagem não é livre de problemas. Às vezes elementos do fundo e da área de ação se misturam e é difícil saber o que é obstáculo ou não, o que normalmente resulta em quedas. Além disso, em certos momentos a câmera se afasta de repente para mostrar algum trecho do circuito, o que acaba nos desorientando. O sistema de checkpoints ameniza esses vários problemas ao possibilitar um reinício rápido, mas não deixa de ser irritante ficar repetindo várias vezes alguns trechos.

Em uma jornada skatista estilosa e surreal

Fora as partidas estilosas e frenéticas, OlliOlli World encanta com sua ambientação, que é uma mistura de Hora da Aventura com skate. Para começar, há uma trama no mínimo inusitada.

A terra de Radlândia é um paraíso do skate moldado pelos Skate Godz, entidades sobrenaturais que, dizem as lendas, dominam todas as manobras. Para se comunicar com os humanos, os deuses escolheram um representante, que recebeu o título de Guru do Skate. Chiffon, a atual avatar divina, procura alguém para ficar no seu lugar, pois ela quer se aposentar. O nosso personagem é um dos indivíduos mais promissores para substituí-la, mas antes será necessário provar a perícia ao explorar as regiões de Radlândia.


A trama é desenvolvida no início e no fim dos estágios, em conversas protagonizadas por diversos personagens peculiares. Os diálogos são leves e bem-humorados, normalmente focados em alguma característica da área em questão ou em particularidades dos indivíduos. Confesso que achei essas interações um pouco dispensáveis, pois os assuntos são banais e os personagens se reduzem a estereótipos. No entanto, o texto em português é divertido e tem algumas referências e trocadilhos legais.

O universo do jogo é exótico e repleto de personagens estranhos, como gaivotas marombeiras, criaturas de madeira que adoram andar de skate e monstros tóxicos que trabalham em fábricas. As áreas também contam com esse tom fantástico, com circuitos construídos em dunas de sorvete, ovnis entrelaçados por corrimões, uma fase que se passa dentro de uma fábrica e uma árvore imensa cujos galhos criam caminhos intrincados.


Essa maluquice, em conjunto com o uso de uma paleta com cores de tom pastel, traz identidade ao mundo de OlliOlli. A música complementa a ambientação suave com batidas Lo-fi hip-hop e faixas eletrônicas minimalistas. É algo bem diferente do que se espera de um título de skate, mas combina muito bem com o universo etéreo e cartum do jogo.

Outra novidade de OlliOlli World é a customização do personagem. Além de editar a aparência, as roupas e o skate do protagonista, podemos também alterar algumas de suas manobras. Muitos dos itens são desbloqueados ao completar as missões opcionais, o que é um bom incentivo para revisitar as fases. Particularmente, gostei muito da variedade de vestimentas e me diverti fazendo uma versão “hipster skatista” de mim mesmo.



Uma manobra excepcional

OlliOlli World mescla diferentes gêneros para oferecer uma experiência acelerada e envolvente. Os controles simples e os estágios repletos de elementos variados deixam as partidas empolgantes, e há várias mecânicas avançadas para dominar. As alterações, como inclusão de checkpoints, tornam o jogo mais acessível, ao mesmo tempo que ele ainda oferece conteúdo complicado para aqueles que buscam maiores desafios.

Fora isso, seu universo encanta com um belo visual com ar cartum, trilha sonora Lo-fi hip-hop suave, localidades exóticas e muitas possibilidades de customização do personagem. Problemas dos títulos anteriores ainda persistem, como trechos com tentativa e erro; no entanto, a sensação de frustração é amenizada com as novas opções. No mais, OlliOlli World é imperdível.

Prós

  • Mecânicas principais simples, mas repletas de nuances avançadas para dominar;
  • Opções de jogo flexíveis, capazes de agradar tanto a quem quer relaxar quanto a quem busca grandes desafios;
  • Estágios repletos de elementos variados de dificuldade crescente;
  • Vasta quantidade de conteúdo espalhado em fases e desafios, alguns deles opcionais;
  • Ambientação charmosa com cores em tom pastel, música lo-fi hip-hop e universo exótico.

Contras

  • Alguns trechos são demasiadamente complicados, exigindo memorização e muita tentativa e erro;
  • Trama e diálogos sem muito impacto.
OlliOlli World — PC/PS4/XBO/Switch — Nota: 9.0
Versão utilizada para análise: PC
Revisão: Davi Sousa
Análise produzida com cópia digital cedida pela Private Division

é brasiliense e gosta de explorar games indie e títulos obscuros. Fã de Yoko Shimomura, Yuzo Koshiro e Masashi Hamauzu, é apreciador de roguelikes, game music, fotografia e livros. Pode ser encontrado no seu blog pessoal e nas redes sociais por meio do nick FaruSantos.


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