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Análise: Demoniaca: Everlasting Night (Multi) traz ação com boas ideias, mas mal aproveitadas

Com vários elementos legais, há diversos problemas que limitam o potencial deste jogo inspirado em Castlevania.


O gênero metroidvania é, sem dúvidas, um dos mais explorados dentro do cenário independente de games. Alguns dos mais memoráveis títulos desenvolvidos por estúdios que não contam com grandiosas equipes e generosos orçamentos de produção vieram deste seleto grupo de mentes talentosas. Da mesma forma, existe um nicho de jogadores que se dedica a jogar, conhecer e até mesmo se especializar neste gênero, seja para fins de ordem entusiástica ou as famosas speedruns.


Em Demoniaca: Everlasting Night temos uma nova visão de como o gênero continua em evidência e gerando frutos, mas que neste caso não chega a ser tão suculento e apetitoso como outros que já conhecemos e amamos. Não que este jogo seja uma maçã podre do pomar, mas com certeza não vai te deixar com vontade de dar outra mordida.

“A vingança nunca é plena, mata a alma e a envenena”

A história de Demoniaca: Everlasting Night se passa após um violento massacre ocorrido em um vilarejo. Uma horda de demônios ancestrais dizimou a população do local como sacrifício para a construção de uma Torre de Babel e criar uma era de noite eterna que dá o subtítulo do jogo. Milagrosamente, mesmo com seu corpo dilacerado e praticamente sem vida, uma garota sobreviveu, e a mistura do sangue dos demônios ao seu corpo quase desfalecido fez com que ela desenvolvesse habilidades sobre-humanas.


Após se recuperar dos ferimentos fatais, a jovem parte rumo à torre envenenada por um sentimento de vingança mais intenso do que sua vontade de viver. Seu objetivo é dar paz aos irmãos e amigos que morreram no massacre, e dor e sofrimento aos que entrarem em seu caminho durante sua jornada, principalmente os responsáveis pela carnificina na vila.


Durante sua estadia na fortaleza demoníaca, a mulher terá a inesperada ajuda de alguns seres curiosos, como o excêntrico Boxman, um homem com pavor de corvos e que usa um saco de papel na cabeça, e a pequena Kat, que diz conhecer o lugar como a palma de sua mão, além de ser fã de heavy metal. As intenções destes personagens são um mistério, assim como o que aguarda nossa heroína no topo da torre.

Socando geral pela frente

Com seu corpo transformado pelo sangue dos demônios, nossa protagonista desenvolve super força e a capacidade de usar poderes demoníacos, que serão usados unicamente em sua jornada de vingança pela torre. O principal destaque de Demoniaca: Everlasting Night é sua jogabilidade, que pega emprestado vários conceitos de jogos de luta.

A jovem é capaz de realizar combinações de golpes usando os comandos de socos e chutes e, assim como qualquer fighting game, essas ações estão divididas em fracas e fortes. Há também um comando dedicado para defesa e outro para realizar saltos. Realizando combinações de ações, como soco, soco, chute, ou comandos como o do clássico Hadouken, a quantidade de ações é limitada pela quantidade de poder demoníaco que a jovem possui, que é consumido a cada movimento especial realizado.


Além destas ações ofensivas, algumas magias também podem ser executadas por meio de comandos específicos, como invocação de familiares (que podem ser controlados por um segundo jogador) e técnicas que podem recuperar os pontos de vida ou sanar alguma alteração de status, como envenenamento, sangramento, etc. As habilidades são obtidas ao encontrar Boxman durante o jogo em alguns pontos, ou compradas diretamente com ele em sua “lojinha”.

Ao derrotar os chefes principais, habilidades especiais importantes para o progresso no jogo são obtidas, como o teleporte, ataques contra o chão e o famoso salto duplo, uma convenção dentro do gênero metroidvania, em que o personagem precisa se fortalecer e aprender novas técnicas para avançar no jogo. Salas de salvamento, um sistema de níveis, o uso de itens equipáveis e um mapa da torre completam e reforçam estas características.

Uma característica única de Demoniaca é uma mecânica chamada de Soulslink. Ao coletar almas, que são usadas como dinheiro no jogo, a garota acumula um nível desta técnica que pode ser elevado até três. A cada vez que um nível é alcançado, os poderes dela são aumentados, podendo bater mais forte e ser mais resistente aos ataques inimigos.


Quando o terceiro é alcançado, a jovem atinge um nível de semi-invulnerabilidade, permitindo que possa, quase que literalmente, atropelar qualquer demônio que surja em seu caminho. O efeito perdura por um tempo generoso enquanto a trilha sonora é embalada por um rock pesado para deixar o jogador, que está deste lado da tela, com um gostinho do que é esse poder.

De resto, cabe ao jogador explorar as entranhas da torre, infestada de inimigos e armadilhas, em busca dos itens e das histórias de seus estranhos habitantes enquanto desvenda uma trama cheia de reviravoltas e traições. Uma jornada cheia de altos e baixos, como veremos no próximo tópico.

Não é tão bom quanto parece

A experiência de Demoniaca: Everlasting Night tem boas ideias em sua teoria, mas que na prática não conseguem ser bem aproveitadas ao ponto de deixar o jogo com aquele tempero gostoso, sabe? Cada aspecto do jogo tem seus prós e contras, que ao mesmo tempo definem e atrapalham a experiência final. Vamos pontuar cada um deles.

Graficamente, temos uma direção de arte que aposta no já conhecido pixel art nos sprites dos personagens, itens e inimigos, dando o tom cartunesco que ajuda a realçar a personalidade deste universo. A impressão que passa é que estamos jogando algo que poderia ser facilmente dado como uma adaptação de uma obra em quadrinhos.

O que atrapalha neste aspecto é a complexidade e exagero visual de alguns efeitos especiais. A execução de ataques especiais e técnicas, a obtenção de alguns itens e até a notificação de que a personagem subiu de nível possuem um excesso que deixa a tela muito poluída e chega a atrapalhar em alguns momentos.


A jogabilidade é um dos pontos altos do jogo, principalmente para quem curte jogos de luta. Nesse ponto o que mais atrapalha são justamente os controles. Quem é adepto do gênero vai sentir um desconforto imediato ao perceber que o controle padrão colocou os socos e chutes em posições trocadas (socos estão embaixo e chutes em cima). A pior parte disso tudo é que não é possível customizar os controles: ou você se adapta ou vai passar muito perrengue.

Essa falta de opções de customização dos comandos, no meu caso, custou um pouco mais caro, pois um dos botões do controle que habitualmente uso como principal no meu console não está funcionando tão bem, e por não poder redefinir a posição dele no controlador, minha experiência ficou muito prejudicada, e o botão era justamente o de pulo, que por padrão está alocado no gatilho direito (R2/RT/ZR). Menos mal que eu tenho um controle extra, mas e quem não tem, como fica?


Bom, dá pra se adaptar a um controle que não pode ser remapeado, mas e quanto a uma jogabilidade truncada? Tive muitos problemas com a movimentação, pois a garota só corre, e os pulos, principalmente em seções que demandaram muito dessa habilidade, deram trabalho extra. É chato demais quando um jogo com características de plataforma não traz uma jogabilidade boa nesse quesito, e aqui temos um claro exemplo de que o combate teve mais prioridade que a movimentação.

Por ser um game claramente inspirado no gênero metroidvania, os aspectos que dizem respeito a isto também ficaram muito prejudicados pela forma como foram inseridos em Demoniaca. É de praxe neste gênero fazermos um uso mais intenso do mapa para ajudar na navegação, principalmente quando temos um mapa enorme para explorar. O uso deste importante artifício não é das mais agradáveis de se usar, por um lado, mas por outro, trouxe algumas boas ideias.


O minimapa pode receber upgrades conforme encontramos algum item pelo jogo, podendo informar em detalhes a posição de inimigos e de pontos de interesse, ou ter seu raio de ação expandido, permitindo que vejamos uma boa área ao redor de onde estamos. Porém, ao acessar o mapa geral pelo menu, a única coisa que temos acesso é uma imagem estática do mapa indicando quais áreas estão diretamente conectadas. Isso é um problema pois fica bem mais difícil rastrear algum objetivo específico, pois não temos fácil acesso ao mapa detalhado do jogo.

O sistema de níveis é bem básico, premiando o jogador com um ponto de habilidade a cada subida de nível, que pode ser livremente alocado em qualquer dos atributos da garota quando quiser. Você pode acumular vários e deixar para alocar no atributo que realmente precisa, como ataque ou defesa, por exemplo. Itens, muitos itens, são coletados e oferecem os mais diversos modificadores, mas a maioria se baseia no incremento de um atributo ao custo de outro.
Ah! Referências!
A liberdade para montar uma build é grande, mas a gestão do inventário é ruim por causa da grande quantidade de loot que é coletada durante a campanha. Mas algo que considerei uma das piores coisas em matéria de interface foi não pausar o jogo ao acessarmos o menu. Mas calma, ainda é possível pausar o jogo para ir ao banheiro.

Isso é bem ruim, pois é neste mesmo menu que também fazemos uso de alguns itens mais importantes, como poções de cura. Imagine se embananar pelo inventário enquanto está no meio de uma ferrenha batalha contra um chefe? E o uso de itens e equipamentos é feito ao segurar o botão por alguns segundos, como forma de confirmar a seleção. Pois é! Detalhes, mesmo que pareçam bem tolos, podem comprometer a experiência de forma significativa.


O que chama a atenção, no fim disso tudo, é que o game foi lançado inicialmente para PC em 2019. E agora, disponível para os consoles atuais pela Eastasiasoft, aparentemente não recebeu nenhuma melhoria ou ajuste para sanar estes detalhes e deixar seu lançamento nestas plataformas mais atrativo.

É bom, mas também não é

Demoniaca: Everlasting Night traz boas ideias dentro de um gênero já consolidado, mas peca em fazê-las funcionar de forma que contribuam com a experiência de forma positiva. O tema é legal, a história é um bom gatilho para a jogatina, mas o percurso é cheio de tropeços na jogabilidade, efeitos visuais e mecânicas que deixam a desejar, justamente os pontos que realmente se destacariam. É um jogo que tinha tudo pra ser muito bom, mas não consegue.

Prós

  • Trilha sonora empolgante;
  • Gameplay inspirado em jogos de luta.

Contras

  • Efeitos visuais muito exagerados;
  • Sem opção de customização de controles;
  • Navegação prejudicada por um mapa pouco funcional;
  • A movimentação da personagem é ruim;
  • Acesso ao menu de inventário não pausa o jogo;
  • Interface de gestão de itens e equipamentos pouco agradável de usar.
Demoniaca: Everlasting Night — PC/PS5/PS4/XSX/XBO/Switch — Nota: 6.0
Versão utilizada para análise: PlayStation 4
Revisão Thaís Santos
Análise feita com cópia cedida pela Eastasiasoft

Fã de Castlevania, Tetris e jogos de tabuleiro. Entusiasta da era 16-bit e joga PlayStation 2 até hoje. Jogador casual de muitos e hardcore em poucos. Adora quando as partidas acabam em discórdia e fogo no parquinho. Nas redes sociais é conhecido como @XelaoHerege


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