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Análise: Ruined King: A League of Legends Story (Multi) é um morno RPG no universo do MOBA

Um ótimo sistema de combate e direção de arte notável são os maiores destaques deste spin-off de LoL.


Em Ruined King, diferentes campeões de Runeterra se unem para enfrentar uma ameaça nefasta. O jogo usa o universo de League of Legends como inspiração para criar um RPG tradicional com ideias interessantes, como um notável sistema de combate por turnos. Além disso, há um cuidado especial na apresentação e construção do mundo, o que é capaz de agradar até mesmo quem nunca experimentou o MOBA.


O título, que foi produzido pelo estúdio Airship Syndicate, parece ser uma evolução do RPG Battle Chasers: Nightwar, pois resgata e expande muitas de suas mecânicas, além de contar com visual similar. A soma dessas características resulta em uma aventura envolvente, porém elementos subutilizados e algumas decisões questionáveis atrapalham a experiência.

Uma união improvável contra uma grande ameaça

A cidade portuária de Águas de Sentina é conhecida por ser perigosa, mas também repleta de oportunidades para todos. No passado, um evento sombrio conhecido como Névoa Negra assolou a região e causou inúmeras mortes, mas alguns Campeões foram capazes de suprimir a ameaça. Agora, muito tempo depois, parece que a bruma maligna está de volta, trazendo consigo o retorno de Gangplank, um capitão que supostamente já tinha sido morto.

Em face de um novo cataclismo, Illaoi, a Sacerdotisa Cráquem, se une à capitã Miss Fortune para investigar a origem da onda sombria e defender Águas de Sentina. A busca das duas ultrapassa as fronteiras da cidade e vai até as temidas Ilhas das Sombras. Pelo caminho, outros Campeões se unem às duas: Braum, um guerreiro do norte; Yasuo, um poderoso espadachim ioniano; Ahri, a feiticeira vastaya; e Pyke, um arpoador que usa poderes estranhos para caçar capitães. A configuração do grupo é repleta de figuras improváveis, mas eles colocam de lado as suas diferenças para enfrentar o perigo maior.


O universo de League of Legends é vasto e elaborado, e Ruined King utiliza isso como base para montar sua ambientação. Não é necessário conhecer previamente os personagens e localidades, pois o jogo faz o possível para contextualizar suas tramas e detalhes. Sendo assim, o RPG pode ser aproveitado até mesmo por quem nunca experimentou o MOBA (o que foi o meu caso), já os fãs vão se divertir encontrando as referências.

O ponto que mais me chamou a atenção em Ruined King foi a variedade de personalidades do grupo de Campeões, que fogem de estereótipos heroicos tradicionais. Miss Fortune, por exemplo, é uma capitã que elimina aqueles que atrapalham seus objetivos sem se preocupar muito com conceitos morais. Illaoi é uma mulher com forte senso de justiça, sempre procurando fazer o que é certo. Pyke é instável e quer assassinar todo mundo, mas as circunstâncias o forçam a colaborar com os outros. Já Braum é o alívio cômico do grupo com suas falas divertidas e personalidade adorável.


No entanto, nem tudo é perfeito. A trama em si não é grande coisa e é bastante básica, mesmo com algumas reviravoltas pelo caminho. O relacionamento entre os personagens não se aprofunda muito com o avançar da aventura. Por fim, faltou um pouco mais de elaboração do universo para aqueles que não conhecem League of Legends. Mesmo assim, a jornada é repleta de conversas divertidas entre os heróis, e a localização para o português, que conta com ótima dublagem, torna esses momentos envolventes.

Já a ambientação cativa com sua atmosfera bucaneira, o que se justifica pela configuração portuária de Águas de Sentina. Visualmente, o jogo encanta com belos cenários que parecem desenhados à mão e movimentação estilosa nos combates. As cenas não interativas são o ponto alto com belíssimas ilustrações no traço característico do ilustrador Joe Madureira.


Modificando habilidades para vencer nas batalhas

O combate por turnos é a minha característica favorita de Ruined King. A essência é bem tradicional, ou seja, escolhemos ações para os personagens em um menu, porém existem inúmeras mecânicas que trazem muitas opções estratégicas.

Os Campeões contam com dois tipos de movimentos que são regidos por uma linha temporal. As Instantâneas, como o nome indica, são feitas imediatamente e geram pontos de mana temporários. Já as técnicas de Rota são desferidas após algum tempo de acordo com a complexidade do efeito. O diferencial está na possibilidade de modificar o poder e o tempo de execução das habilidades de Rota de acordo com a raia escolhida: velocidade, equilíbrio ou força.


Com isso, podemos influenciar a ordem dos turnos, sendo possível atacar antes de inimigos ao usar a trilha de velocidade ou então demorar mais para desferir um ataque reforçado na raia de força. Existem algumas áreas na linha do tempo com efeitos diversos, o que demanda utilizar as habilidades de forma inteligente para posicionar corretamente os aliados. Algumas técnicas, inclusive, permitem alterar a iniciativa dos inimigos — é uma boa ideia empurrar um oponente para uma área com algum perigo.

Os Campeões complementam os aspectos táticos com diferentes papéis em combate. Illaoi gera tentáculos espectrais que fortalecem suas técnicas de ataque e de cura; Braum é especializado em defender o grupo; Yasuo desfere técnicas com alta taxa de crítico, mas sua defesa é baixa; Pyke usa furtividade e estados negativos para fortalecer seus golpes. Até três heróis por vez participam das batalhas e seus diferentes estilos possibilitam inúmeras estratégias.


O jogo também oferece muitas opções de customização: habilidades e características dos personagens podem ser alteradas, expandindo as opções táticas. Além disso, há boa diversidade de equipamentos, que contam com efeitos especiais únicos. Por fim, existe a possibilidade de alterar itens por meio de encantamentos variados.

Confrontos ágeis, mas de potencial desperdiçado

Mesmo sendo por turnos, o combate de Ruined King tem ritmo acelerado, propiciado pela boa variedade de habilidades, a mecânica de Rota e os vários papéis dos Campeões. Além disso, as configurações distintas de inimigos nos incentivam a repensar constantemente estratégias e atacar de qualquer jeito resulta em derrota. No mais, apreciei a modernização das mecânicas de turnos.

É uma pena que na maior parte do tempo as várias mecânicas de combate sejam subutilizadas. Salvo chefes e algumas situações muito específicas, não há necessidade de alterar a Rota na maior parte das batalhas, pois a opção padrão já é suficiente. Também senti falta de mais opções para manipular a linha de iniciativa, especialmente os inimigos. Por fim, as particularidades de alguns heróis, como as cargas dos ataques de Braum, têm pouco impacto. Algumas batalhas são bastante interessantes, mas a maior parte dos confrontos comuns parecem existir somente para ocupar espaço, bastando atacar repetidamente até a vitória.


Ao menos Ruined King conta com vários níveis de dificuldade para atender a diferentes estilos de jogador. No modo focado na história é possível vencer os confrontos sem lutar, já na modalidade mais difícil qualquer deslize é devastador. Joguei na dificuldade "Heroica", que é um nível acima de “Normal”, e achei o desafio bem tranquilo na maior parte do tempo.

Desbravando um mundo elaborado em uma aventura convencional

Fora dos combates, Ruined King é um RPG bem tradicional com cidades e calabouços. Há muito o que fazer, como missões opcionais, um minigame de pescaria e colecionáveis espalhados pelos cenários. Todas essas atividades têm recompensas valiosas que nos incentivam a investigar todos os cantos.

Cada herói tem uma habilidade especial de interação com o ambiente. Illaoi, por exemplo, é a única capaz de entender uma língua antiga; Yasuo lança um tornado para ativar dispositivos distantes; já Pyke consegue mergulhar em bueiros espalhados pelos cenários. A ideia é interessante, mas, na prática, o uso é óbvio a ponto de ser irrelevante. Alguns puzzles exigem um pouco mais de observação, porém, no geral, os desafios dos calabouços são banais.



No entanto, o maior problema do título está no ritmo da exploração. Mesmo com a ação de correr ativada, os personagens se movimentam de forma lenta. Além disso, os cenários não têm muita clareza visual, nos forçando consultar com frequência o confuso mapa para nos orientarmos. Outra decisão estranha é a necessidade de ativar uma espécie de sonar para destacar elementos importantes, como alavancas, objetos contendo itens e lojas — indicações visuais sutis, como cores diferentes ou ícones, já seriam suficientes.

Para piorar, o jogo conta com carregamentos frequentes que fragmentam ainda mais a ação. Chega a ser estranho, pois o título não é tecnicamente elaborado e até mesmo cenas menores, como diálogos ou transições para espaços pequenos, são precedidos de uma tela de carga. Joguei a versão para PlayStation 4 e achei toleráveis a duração e frequência dos carregamentos, mas as outras versões não estão livres de problemas: jogadores relatam inúmeros bugs no PC, já no Switch alguns carregamentos duram 30 segundos ou mais.

A soma desses problemas cria um andamento arrastado e irregular. Com um pouco de insistência é possível relevar essas questões, mas acredito que faltou maior cuidado na hora de construir essas características. Por sorte, são detalhes que podem ser corrigidos em atualizações futuras.



Uma jornada satisfatória e sem muitas surpresas

Ruined King: A League of Legends Story é um RPG que executa com louvor as melhores características do gênero, mas o conservadorismo compromete a sua notoriedade. O destaque, sem dúvidas, é o sistema de combate por turnos, que oferece muitas opções estratégicas com sua mecânica de Rotas e customização de personagens. Além disso, os heróis esbanjam carisma e cativam até mesmo quem não conhece o legado de Runeterra.

Fora isso, o título se revela um RPG morno. Até há muito conteúdo para explorar, porém mapas, puzzles e missões triviais deixam as coisas cansativas. Além disso, o ritmo é desnecessariamente lento e questões técnicas atrapalham a fluidez da aventura. No fim, Ruined King é competente e agradará principalmente fãs de League of Legends, no entanto, é longe de ser imperdível.

Prós

  • Combate por turnos estratégico e repleto de mecânicas interessantes;
  • Mundo extenso e repleto de atividades;
  • Personagens carismáticos, cuja personalidade é explorada em diálogos divertidos;
  • Ambientação elaborada e com ótimos visuais;
  • Texto e dublagem em português excelentes.

Contras

  • Alguns aspectos do sistema de batalha são subutilizados;
  • Exploração de ritmo irregular com movimentação lenta dos personagens e problemas de clareza visual;
  • Trama rasa e desinteressante;
  • Carregamentos frequentes atrapalham a fluidez da aventura.
Ruined King: A League of Legends Story — PC/PS4/XBO/Switch — Nota: 7.5
Versão utilizada para análise: PS4
Revisão: Thais Santos
Análise produzida com cópia digital cedida pela Riot Forge

é brasiliense e gosta de explorar games indie e títulos obscuros. Fã de Yoko Shimomura, Yuzo Koshiro e Masashi Hamauzu, é apreciador de roguelikes, game music, fotografia e livros. Pode ser encontrado no seu blog pessoal e nas redes sociais por meio do nick FaruSantos.


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