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Análise: Where Cards Fall (Multi) usa construções de cartas para criar puzzles inventivos

Este título indie apresenta mecânicas criativas, mas problemas de ritmo atrapalham a experiência.


Em Where Cards Fall, precisamos utilizar diferentes baralhos de cartas para montar edifícios e resolver puzzles. O conceito principal deste jogo indie é bem único e oferece desafios de navegação interessantes, que se passam em belos cenários de atmosfera surreal. Fora os quebra-cabeças, o título explora também a história de amadurecimento de um rapaz, mas a narrativa banal tem pouco impacto e compromete o ritmo da aventura. 

Construindo castelos de cartas

Em cada estágio de Where Cards Fall, o objetivo é levar o protagonista até uma porta em forma de carta que se localiza em algum ponto alto do cenário. Para isso, utilizamos diferentes baralhos que podem ser transformados em construções. É possível desmontar as estruturas, assim como criar blocos de tamanhos distintos. Além disso, o rapaz consegue escalar alguns objetos e saltar curtas distâncias.


Conforme avançamos na aventura, aparecem novas cartas que possibilitam construir diferentes tipos de edifícios, como uma casa com teto inclinado que pode ser escalado ou um prédio alto. Os cenários também recebem novos elementos, como rajadas de vento que sopram as cartas e alteram as construções ou  nuvens que mudam de altura conforme o número de edificações criadas sobre elas. Esses conceitos são explorados em mais de 50 puzzles, que podem ser completados em aproximadamente cinco horas.

A premissa é simples, mas rapidamente as coisas ficam complexas — quando dei por mim, estava empilhando prédios de maneiras complicadas para conseguir avançar. Muitas vezes, inclusive, fiquei completamente travado e sem saber o próximo passo. Por sorte, o título conta com um sistema de dicas bastante intuitivo que mostra qual deve ser o movimento seguinte. O detalhe é que ele não mostra a solução completa, não nos livrando completamente de pensar os passos. Usei muito esse recurso, em especial nos últimos puzzles.

Simplicidade complexa

Os quebra-cabeças de Where Cards Fall têm escopo reduzido, no entanto, mesmo assim, me surpreendi com a sua profundidade. Muitas das fases exigem uma série de passos elaborados para serem completadas e é impressionante como o título oferece boa variedade de desafios mesmo contando com poucos elementos.

No começo os enigmas parecem um pouco abstratos demais, porém com um pouco de experimentação eu desenvolvi algumas técnicas para conseguir encontrar as soluções.
Alguns puzzles deram muito trabalho, pois exigiam colocar construções em cima de outras e, em seguida, destruir tudo e montar novas estruturas. Confesso que mais para o final fiquei um pouco cansado, pois os quebra-cabeças se parecem demais, mesmo com a complexidade crescente.


O jogo foi lançado originalmente para dispositivos iOS e agora chegou ao PC e Switch. Por causa disso, os comandos precisaram ser adaptados. As opções funcionam, mas não são livres de dificuldades. Em controles tradicionais, usamos a alavanca da esquerda para mover o garoto, já a alavanca direita nos permite selecionar e manipular as cartas. O problema dessa configuração está na dificuldade de controlar os baralhos: a indicação visual da seleção é muito sutil e é complicado escolher com facilidade qual pilha queremos mover.

Com o mouse é tudo mais intuitivo, bastando um clique para direcionar o garoto e movimentos de segurar e arrastar para controlar as cartas. No entanto, algumas vezes é difícil desmontar as estruturas, pois precisamos clicar em locais muitos específicos. Além disso, nem sempre o personagem obedece corretamente aos nossos comandos, ficando preso no meio do caminho. Dentre os dois, recomendo jogar com o mouse por ser mais ágil.


Outro obstáculo no jogo é a câmera. Por causa do ângulo isométrico fixo, em alguns momentos é difícil comparar a altura real de diferentes elementos. Esse detalhe, em especial, é bem desagradável, afinal o foco dos estágios é resolver puzzles com foco na verticalidade. É possível inclinar levemente a câmera, mas isso pouco ajuda na hora de comparar as alturas. Também senti falta de um recurso para desfazer o último passo — ao fazer algo errado, a única opção é recomeçar o estágio do início.



Entre o surreal e o ordinário

Uma atmosfera serena permeia toda a experiência de Where Cards Fall. Os estágios são belos e encantam com seu visual elaborado que lembra uma pequena maquete. Muitos deles são simples, como uma vizinhança no subúrbio ou as cercanias de uma faculdade, mas há também cenários surreais, como áreas repletas de objetos flutuantes e nuvens. Os elementos dos estágios, inclusive, são relacionados à trama e ajudam a montar a narrativa. Uma trilha sonora suave complementa a ambientação tranquila do título.


Entre os estágios, acompanhamos a história de amadurecimento do protagonista em curtas cenas não interativas. As passagens não contam com texto ou dublagem, mas é perfeitamente possível entender o que está acontecendo somente com a ação. Particularmente, achei a trama mundana e enfadonha: o rapaz passa por situações banais, como decepções com relacionamentos, passagem por um emprego ruim e momentos de reflexão e mudança. Por causa disso, para mim, essas cenas só serviram para quebrar o ritmo da experiência com seus fatos arrastados e sem impacto.



Uma viagem pacífica

Where Cards Fall usa conceitos singulares para criar um puzzle simpático. A mecânica de expandir baralhos para criar edifícios é explorada em quebra-cabeças interessantes que contam com mais complexidade do que aparentam. Os controles e a câmera têm problemas, mas isso é contornável. Fora isso, o jogo cativa com sua atmosfera suave e belo visual. Já a narrativa explora um tema universal, porém atrapalha a experiência ao ser enfadonha e arrastada. No mais, Where Cards Fall é criativo e agradável, a despeito de suas imperfeições.

Prós

  • Puzzles criativos e desafiadores;
  • Sistema de dicas bem pensado;
  • Ótima ambientação com visuais surreais e música suave.

Contras

  • Câmera isométrica atrapalha em alguns momentos;
  • Controles um pouco problemáticos;
  • Trama desinteressante e com ritmo arrastado.
Where Cards Fall  — PC/Switch/iOS — Nota: 7.0
Versão utilizada para análise: PC
Revisão: Thais Santos
Análise produzida com cópia digital cedida pela Snowman

é brasiliense e gosta de explorar games indie e títulos obscuros. Fã de Yoko Shimomura, Yuzo Koshiro e Masashi Hamauzu, é apreciador de roguelikes, game music, fotografia e livros. Pode ser encontrado no seu blog pessoal e nas redes sociais por meio do nick FaruSantos.


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