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Análise: Demon Turf (Multi) é uma aventura que parece ter sido desenvolvida pelo próprio demônio

Torne-se a rainha do Mundo dos Demônios, se conseguir enxergar para onde está indo.

Imagine-se em um dia bem tranquilo, deitadinho na cama e despreocupado, até que o Rei Demônio surge para te provocar. O que você faria? Pois bem, foi isso que aconteceu com Beebz, uma jovem demônia de apenas mil anos que ficou bem pistola da vida e agora vai fazer de tudo para reivindicar o trono do Mundo dos Demônios para si. 

Assim começa nossa jornada em Demon Turf, uma aventura no clássico estilo plataforma, que mistura estilos e animações 2D e 3D, com bastante conteúdo e muitos desafios. A receita para dar certo estava pronta, mas algumas coisas fizeram o jogo desandar.

Quem manda aqui sou eu!

A ideia por trás de Demon Turf é coletar as baterias que estão no final de cada fase das quatro áreas do Mundo dos Demônios: Apocadesert, Armadageddon, New Neo City e Peak Plateau. Cada uma delas conta com sua identidade visual, desde o ambiente até os habitantes que estão no hub de seleção de estágios para conversar com Beebz. Inclusive, as cores dos projéteis dos inimigos e elementos dos cenários são um indicativo do que pode ou não te agredir: tudo que for azul irá te repelir e empurrar para longe; os verdes irão te envenenar; e os vermelhos irão te matar.

Como em todo bom título de plataforma, cada nível fará uso das suas habilidades demoníacas de maneiras criativas. Os percursos têm um tamanho bastante satisfatório, com uma boa dose de desafios. Pelo caminho precisamos até eliminar alguns inimigos, mas são trechos bastante pontuais e que geralmente não se misturam com os momentos em que temos que saltar em plataformas ou planar pelo ar.

Um diferencial que esse jogo traz diz respeito aos checkpoints. O inicial é de praxe, e sempre que “morremos” voltamos a ele. À medida que percorremos o cenário, nós mesmos podemos decidir onde estarão os demais pontos. Basta selecionar o local e fincar nossa bandeirinha. É muito útil poder fazer isso logo depois de um trecho com plataformas bem complicadas e assim fixar nosso porto seguro. Podemos fixar até três checkpoints por fase, sem restrição nenhuma de distância entre eles.

Apesar de não haver um limite de tempo para concluirmos cada fase, somos agraciados com um troféu sempre que atingirmos a meta dentro de uma marca. É possível checar que tempo é esse e o quanto estamos demorando no menu de pausa.

Ao juntar todas as baterias de uma área, é possível confrontar seu chefe. As batalhas, aliás, são bastante criativas, pois sempre envolvem as habilidades básicas de Beebz, como pulo, voo e socos, incluindo algumas engenhocas que são dadas para a jovem demônia pelo caminho. Ao derrotá-lo, é aí que surge um dos pontos mais interessantes de Demon Turf.

Na nossa primeira passagem pelos estágios, temos que encontrar bolos escondidos, que podem ser usados como moeda de troca nas lojas. Quando o mandante de uma área é colocado para correr, podemos ativar uma torre que troca toda a identidade visual da área e assim surgem pôsteres com a cara da Beebz, mostrando que agora quem manda é ela. As fases continuam com o mesmo layout ao entrarmos nelas, a única mudança efetiva, além do visual, é que agora temos que coletar pirulitos, que também servem para serem trocados por itens, além de alguns novos inimigos que dão as caras.

Por fim, também podemos dar uma incrementada nas habilidades da nossa demônia mal-humorada. Os bolos coletados podem ser trocados por mods, que permitem melhorar as nossas capacidades, como nos tornar mais rápidos, criar um escudo temporário ao nosso redor, aumentar a força dos nossos socos e diminuir a velocidade com que caímos ao planar por aí. Temos à nossa disposição seis espaços para usarmos com esses mods, que podem ocupar de um até cinco desses slots.

Guiado pelo capiroto

Se Demon Turf possui tantos elementos assim, ele deve ser um jogo excelente, certo? Infelizmente não, pois seus pecados capitais estão nos aspectos mais importantes de um jogo de plataforma: o controle e a câmera, que são literalmente infernais e aumentam o desafio do jogo para um nível infernal.

A câmera pode ser controlada manualmente ou ser usada em definição automática, mas em ambos os casos, ela gera pontos cegos infames, colocando-nos atrás de paredes ou de frente para uma montanha. Nos momentos em que devemos realizar saltos sequenciais, controlar Beebz se torna uma tarefa simplesmente insuportável, já que o péssimo ângulo de visão geralmente nos faz cair, obrigando-nos a recomeçar tudo até criarmos a intuição do que precisamos fazer.

Uma mecânica que se mostrou ainda mais problemática foi a de grudar na parede (muito famosa pelo célebre Mega Man X). A ideia é a mais simples possível: grudar em um muro, lateral ou parede e saltar para outro que esteja em um paralelo próximo. O problema é que a câmera, mais uma vez, está possuída pelo ritmo ragatanga e toma ângulos estranhos, fazendo com que nossa heroína enfezada pule para longe de onde queremos ir.

Agora, junte todos os problemas acima com um controle bastante preguiçoso. Os pulos simples até respondem bem. Já os duplos e momentos em que devemos planar no ar são um pouco mais imprecisos, o que nos leva a errar o cálculo na hora da aterrissagem, principalmente nos trechos em que precisamos lidar com plataformas móveis. O soco também tem suas peculiaridades: ele pode ser disparado de maneira simples ou carregada, e durante seu uso, a movimentação de Beebz se torna mais “boba” e desordenada.

Entretanto, a situação mais crítica de todas, e que une esses dois “vilões”, são os trechos de deslocamento com um gancho. Devemos usá-lo em barras suspensas, o que nos faria atravessar boa parte da fase pelo ar de maneira rápida, pelo menos, na teoria. Na prática, são aqueles momentos em que você respira fundo, pede a sua divindade de cabeceira que te dê paciência e tenta seguir adiante sem ter um colapso nervoso.

Durante uma sequência dessas barras, devemos apertar o botão do gancho assim que um sinal luminoso aparecer nesses aparatos, mas nem sempre a resposta vem ao pressionarmos “na hora exata” e assim, caímos e temos que recomeçar a escalada. Isso é muito frustrante, e piora ainda mais quando essas barras não estão em linha reta e sim em outra formação, como uma espiral ascendente, pois aí também precisamos controlar a enfadonha câmera. 

Lembram que há um tempo estipulado para conseguirmos um troféu? Pois bem, por esses motivos eles se tornam praticamente impossíveis de serem conquistados, o que é muito frustrante em um jogo com tanto conteúdo a ser explorado. O jogo ainda conta com alguns minigames, como o "futgolfe", mas ainda assim é só mais uma adição que perde o brilho por causa desses problemas.

Para fechar as menções desonrosas, não podemos esquecer do aspecto gráfico. Apesar da ideia de misturar modelos bidimensionais e tridimensionais ser bem bacana, a execução é um tanto quanto questionável, pois cria algumas pequenas aberrações visuais, como a personagem não ter um ângulo definido quando vista na diagonal. Por mais que a intenção tenha sido a de dar uma aparência mais cartunesca, na prática, isso ficou um pouco desleixado. Já a trilha sonora não chega a ter destaque positivo nenhum, mas também não compromete. A única faixa que chama mais a atenção é o tema tocado quando estamos no setor de seleção de fases, que parece ser cantado pela trupe de Alvin e os Esquilos (o que necessariamente não é um elogio).

Teste de nervos

Demon Turf conseguiu reunir uma série de elementos interessantes para ser um bom jogo de plataforma, com fases bem estruturadas, habilidades interessantes, um bom fator replay e uma personagem carismática. Entretanto, deslizar em aspectos cruciais como a câmera e o controle da personagem, que são as características principais do gênero, comprometem muito a experiência que o jogo poderia oferecer.

Prós

  • Alto fator replay;
  • As fases têm um nível de desafio bastante justo;
  • Muitas habilidades para adquirir.

Contras

  • A jogabilidade deixa muito a desejar em momentos cruciais, como no uso do gancho;
  • Os combates deixam a personagem mais lenta;
  • A câmera dificulta bastante nosso trabalho durante o jogo;
  • O aspecto visual deixa muito a desejar.
Demon Turf — PC/PS4/PS5/Switch/XBO/XSX — Nota: 5.0
Versão utilizada para análise: PS4
Revisão: Heloísa D'Assumpção Ballaminut
Análise feita com cópia digital cedida pela Playtonic Friends


é amante de joguinhos de luta, corrida, plataforma e "navinha". Também não resiste se pintar um indie de gosto duvidoso ou proposta estranha.


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