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Análise: Eastward (PC/Switch) é uma exótica e vagarosa viagem por um mundo pitoresco

Localidades meticulosamente construídas e muito carisma são os maiores destaques deste título indie, que acaba pecando com seu ritmo irregular.


Eastward encanta imediatamente com seu visual excepcional e universo cuidadosamente construído. Na companhia de uma dupla improvável, embarcamos em uma jornada pontuada por puzzles, confrontos contra criaturas exóticas e muitos mistérios. Há grande dose de carisma nos personagens e as localidades que aparecem pelo caminho têm beleza de tirar o fôlego em cenários cuidadosamente construídos com pixel art. A viagem é agradável, mas muitos problemas, como andamento arrastado e simplicidade exagerada de várias mecânicas, atrapalham a experiência.

Um homem e uma garota misteriosa em uma peregrinação direcionada ao leste

John tem uma vida pacata na cidade subterrânea de Potrock Isle, supostamente o último bastião da civilização — as lendas dizem que a superfície foi devastada e agora não é mais segura. O homem gasta boa parte dos seus dias em um simples trabalho como minerador, mas o marasmo acaba quando ele encontra uma estranha cápsula nas profundezas contendo uma garota de cabelos brancos. John adota a menina, que se chama Sam, e a dupla passa a viver como uma família.

No entanto, Sam não é normal. A garota diz frequentemente que já esteve na superfície e que lá existem campos verdejantes e céus azuis, mas ninguém acredita nisso. Pelo contrário: em Potrock Isle isso é considerado uma heresia. Depois de algumas confusões, John e Sam são banidos da cidade e acabam chegando à superfície, que é de fato como a garota descrevera. A dupla então começa uma viagem em direção ao leste em busca das origens da garota, mas isso não será simples: o planeta é assolado pelo miasma, uma névoa que destrói o que encontra pelo caminho.


Para mim, o melhor de Eastward está em seus protagonistas. É difícil não gostar de Sam e sua personalidade repleta de energia, principalmente quando demonstra sua  animação ao ver algo novo. Já John não diz uma palavra, porém suas ações mostram que ele se importa bastante com os outros e faz o máximo para ser um bom pai para Sam. A sinergia entre os dois é excelente e gostei bastante de ver a interação entre eles.

Outros personagens interessantes também estão espalhados pelo mundo, como um comediante fracassado, um homem que tenta arranjar uma maneira de um robô sentir emoções, uma princesa que estuda maneiras de acabar com o miasma, os habitantes amigáveis de uma vila que desejam arranjar um namorado para uma de suas moradoras e muito mais. Há todo tipo peculiar e estranho de gente neste universo, e até mesmo os vendedores de lojas esbanjam personalidade.



Alternando entre os protagonistas para superar os desafios

A aventura de Eastward tem forte foco na narrativa e em cenas não interativas, com eventuais calabouços com puzzles em combates. Nos momentos de exploração, controlamos os dois protagonistas, que contam com habilidades diferentes. John ataca inimigos com uma frigideira e usa bombas para explodir obstáculos, já Sam lança uma esfera de energia capaz de paralisar inimigos e ativar certos dispositivos. No decorrer da jornada, a dupla adquire novas habilidades e equipamentos, como um lança-chamas para John ou uma explosão de luz para Sam, o que expande aos poucos as possibilidades.


O jogo claramente se inspira em Zelda com seus calabouços e mapas, mas os desafios são simples e diretos. Muitos enigmas se resumem em empurrar objetos para criar caminhos ou ativar botões rapidamente para abrir portas, e normalmente a solução é bem óbvia. Os melhores trechos das masmorras acontecem quando a dupla se separa e precisamos alternar entre eles para prosseguir com movimentos coordenados, pois são um pouco mais complexos e interessantes.

O combate também não é muito elaborado e se resume em usar a frigideira de John para atacar repetidamente os inimigos. Às vezes aparecem alguns oponentes mais complicados que primeiro precisam ser paralisados por Sam, mas fora isso basta utilizar a mesma estratégia o tempo todo. As lutas contra os chefes são mais interessantes, pois contam com ideias um pouco mais ousadas, como usar bombas para interromper os monstros ou utilizar elementos dos cenários para conseguir aberturas para atacar.


Essas características podem parecer um grande problema, mas funcionam dentro da proposta de Eastward. É bem aparente que a intenção do jogo é oferecer uma experiência mais relaxada e, particularmente, apreciei os calabouços simples, principalmente por causa da progressão mais direta e linear. Alguns segredos incentivam explorar todos os cantos, e os puzzles são agradáveis sem serem completamente banais.

Contudo, fiquei com a sensação de que não faria mal algum se esses conceitos fossem um pouco mais elaborados, em especial as habilidades particulares de cada personagem, cujo potencial é desperdiçado. Além disso, o combate se torna repetitivo muito rápido, e até mesmo equipamentos adquiridos depois funcionam de forma parecida. Caso busque algo com calabouços e desafios complexos, Eastward não é para você.



A beleza exótica de um planeta decadente

O mundo está à beira do colapso, mas isso não impede que ele seja vibrante. O visual em pixel art é estonteante e fiquei impressionado com a atenção aos detalhes: os cenários têm vários pequenos elementos e muitos personagens que dão vida às localidades. Um filtro de aberração cromática traz um leve ar de TV antiga ao jogo, o que deixa a atmosfera bem charmosa.

As várias localidades que a dupla atravessa em sua viagem para o leste são intrincadas e belíssimas. Uma vila rural encanta com sua atmosfera bucólica com um belo campo de trigo e barcos encalhados que funcionam como casas. Já New Dam City é uma grande metrópole construída em uma represa e possui características inspiradas em inúmeras culturas, como ícones budistas, grandes letreiros em neon, um cassino e várias lojinhas. Os locais são expansivos e fiz questão de explorar com cuidado em busca de cenas e belas vistas.


O universo é também repleto de elementos estranhos, mas interessantes. Um exemplo são os inimigos: cogumelos com pernas, zumbis que se transformam em criaturas grotescas, insetos imensos, robôs misturados com partes biológicas, porcos com asas e muito mais. O jogo abraça a estranheza, que parece natural — afinal, o que é normal em um mundo no qual uma garota lança bolhas de luz e uma névoa destrói coisas?

Para compensar a exploração e combate limitados, Eastward oferece várias atividades paralelas. Em fogões espalhados pelos cenários, podemos cozinhar inúmeros pratos em um visualmente belo joguinho que mistura experimentação com caça-níqueis. Os personagens participam de minigames, como baseball, pique-esconde e surfe. Há, inclusive, um RPG dentro do jogo que impressiona com sua grande complexidade — é possível gastar horas somente nele. É uma pena que a estrutura seja completamente linear e rígida, exigindo recomeçar a aventura do início para revisitar capítulos anteriores.



Encontrando inúmeros tropeços pelo caminho

Eastward é belo e com diversos personagens carismáticos, no entanto vários detalhes atrapalham significativamente a experiência. Para começar, o ritmo é bem irregular, sendo frequente a presença de diálogos e cenas não interativas. O problema desses momentos é que eles são repletos de conversas vazias que não adicionam nada à trama ou ao desenvolvimento dos indivíduos, resultando em pura enrolação. Também é constante a necessidade de ficar indo e voltando pelos mesmos cenários sem fazer nada significativo para conseguir fazer a trama avançar.

A história, em um primeiro momento, é bem instigante, afinal queremos saber as origens de Sam, sobre o miasma e o que aconteceu com o mundo. Contudo, o desenvolvimento deixa a desejar com um desenrolar arrastado, inúmeras pontas soltas, reações questionáveis dos personagens, informações vagas e mistérios mal explorados. Para piorar, a trama tem vários trechos descartáveis e de qualidade duvidosa que parecem ter sido incluídos somente para estender a duração da aventura. Um exemplo é o infame capítulo 6, que não adiciona praticamente nada ao título.


Por fim, falta equilíbrio entre os estilos de jogo. No começo até há boa alternância entre os trechos de história e os calabouços, mas depois de algumas horas o título passa a focar na narrativa com cenas intermináveis. Junte isso aos problemas dos eventos e a simplicidade dos trechos de exploração e o resultado é uma experiência que pode ser enfadonha em alguns momentos.

Aqueles que gostam de histórias mais lentas e contemplativas focadas em pequenas miudezas vão apreciar o andamento do título, mas particularmente acredito que faltou balancear melhor os elementos — o jogo não decide se quer ser um visual novel ou uma aventura com características de RPG.



Uma jornada divisiva

Eastward nos convida a partir em uma viagem bela e singular. O maior destaque, sem sombra de dúvidas, está na ambientação: as localidades são fascinantes e repletas de personagens inusitados e carismáticos. O impressionante visual em pixel art e a atenção aos detalhes trazem vida ao mundo, tornando-o bastante envolvente.

Como aventura, o jogo oferece trechos de exploração pontuados por puzzles e combates nos quais alternamos entre dois protagonistas para avançar. Os calabouços são agradáveis, mas a simplicidade e repetição das mecânicas incomodam depois de algum tempo. O foco real está na narrativa com inúmeras cenas não interativas e uma história repleta de mistérios. Infelizmente, o equilíbrio não é bom, resultando em muitos momentos arrastados e com diálogos que pouco desenvolvem a trama.

Mesmo assim, Eastward consegue nos transportar para um universo peculiar com sua ambientação excepcional. O jogo é longe de perfeito e pode exigir insistência para alguns, porém não deixa de ser uma experiência única e envolvente até certo ponto.

Prós

  • Atmosfera estonteante com visual em pixel art e cenários ricamente elaborados;
  • Personagens carismáticos;
  • Momentos de exploração agradáveis com desafios sem muita complicação;
  • Mundo intrincado e com várias atividades paralelas.

Contras

  • Falta de equilibro entre trechos narrativos e de exploração criam momentos enfadonhos;
  • Puzzles, combate e calabouços simples demais;
  • Narrativa com ritmo arrastado e com muitas cenas irrelevantes;
  • Trama problemática e com muitos buracos.
Eastward — PC/Switch — Nota: 7.5
Versão utilizada para análise: PC
Revisão: Felipe Fina Franco
Análise produzida com cópia digital cedida pela Chucklefish

é brasiliense e gosta de explorar games indie e títulos obscuros. Fã de Yoko Shimomura, Yuzo Koshiro e Masashi Hamauzu, é apreciador de roguelikes, game music, fotografia e livros. Pode ser encontrado no seu blog pessoal e nas redes sociais por meio do nick FaruSantos.


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