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Análise: Kitaria Fables (Multi) mistura ação e farming sim em um encantador mundo de animais antropomórficos

O jogo da Twin Hearts tem uma proposta similar a Rune Factory, mas aposta em uma experiência que gira em torno da obtenção de itens.

Desenvolvido pela Twin Hearts e publicado pela PQube, Kitaria Fables combina ação e aventura com elementos de simulação de fazenda e crafting. A proposta é similar à da franquia Rune Factory, mas com personagens que são animais antropomórficos e um estilo de build de personagem que é inteiramente dependente de itens e poderes equipáveis ao invés do fortalecimento de atributos individuais.

Sejam bem-vindos à Vila Patinhas

A longínqua Vila Patinhas está sofrendo com uma presença de monstros maior do que o usual nos últimos tempos. Para investigar o que está acontecendo e encontrar uma forma de lidar com essa crise, o jovem soldado Nyan é enviado à região. Além de lidar com o combate, o protagonista também herda a fazenda do seu avô Thunderbunn, sendo possível cultivar as suas terras e usar a casa para dormir e mudar sua aparência.

Para avançar na história, o jogador precisa realizar missões ajudando NPCs variados. As missões incluem levar itens para outros personagens, lutar contra monstros, plantar determinados alimentos etc. Curiosamente, apesar de haver também algumas quests opcionais, existem algumas cuja obrigatoriedade é questionável.

Em um determinado momento, precisei conversar com um dos guardas que ficam do lado de fora da Fortaleza Rivero e levar para ele uma marmita. Sem fazer essa missão trivial, não era possível avançar na história. O problema seria menor se o jogador tivesse um indicativo no mapa de que existem missões em determinadas áreas, até porque é possível teleportar entre algumas áreas, o que faz desse ponto de transição um potencial ponto cego do jogador.

Existe, porém, um marcador que aparece sobre a cabeça dos personagens que têm uma quest disponível. Além disso, o menu descreve com clareza os objetivos das missões já obtidas e o mapa indica áreas relevantes para elas. A tradução para o português também pode ser útil para alguns jogadores, sendo raros os seus deslizes de qualidade com apenas algumas escolhas ruins de termos, mas que não afetam significativamente a jogabilidade.

Vale destacar também que o jogo conta com um ciclo de dia e noite. Cada segundo da vida real corresponde a um minuto, sendo possível dormir para acordar de manhã no outro dia. Lojas estarão abertas apenas durante o dia e os inimigos que aparecem à noite podem ser diferentes dos encontrados no outro horário. Ocasionalmente, há também chuvas, um efeito climático que afeta as plantações, molhando a terra e retirando a necessidade de regar as plantas.

Um mundo de combates e materiais

Saindo da vila, o jogador pode explorar várias áreas incluindo regiões de floresta, deserto, ruínas e uma montanha com neve. Fora da vila, da casa do sábio Alby e da Fortaleza Rivero, é comum encontrar monstros variados. Em particular, existem três tipos de criaturas (pacíficas, agressivas e mini-chefes) e é possível diferenciá-las pela cor do nome que aparece em cima da cabeça delas.

Ao derrotar um inimigo, o jogador obtém materiais e é possível usá-los para criar novos itens na cidade ou vendê-los. Inimigos mais poderosos usualmente contam com drops mais raros e é importante que o jogador lute bastante caso tenha a intenção de obter itens mais poderosos. Outras formas de conseguir recursos incluem quebrar caixas e outros objetos, cortar algumas árvores específicas, quebrar rochas, a colheita de alimentos na fazenda, e, é claro, as recompensas das quests.

De todos esses elementos, o que mais demanda tempo é plantar. Primeiramente, o jogador precisa adquirir sementes, usualmente comprando-as em uma loja da Vila Patinhas. Depois, é necessário colocá-las em uma terra já arada e mantê-las bem regadas para evitar que a colheita seja perdida por ficar seca demais, lógica presente em outros jogos de simulação de fazenda.

Os itens colhidos podem ser vendidos ou usados para fazer comidas nas lojas seguindo receitas que especificam a quantidade de ingredientes e demandam certa quantia de dinheiro. No caso de outros materiais, como pedras preciosas, é possível utilizá-los para obter novos equipamentos como armas, armaduras e acessórios. Esses itens afetam tanto o visual do personagem quanto o seu ataque, defesa e outros parâmetros.

Vale destacar que não há níveis de força ou qualquer forma de melhoria do personagem em si. Com isso, é fundamental obter equipamentos mais poderosos caso o jogador queira ter mais facilidade para enfrentar os desafios. Contudo, não é impossível contornar as dificuldades mesmo se mantendo com itens mais medíocres.

A luta contra os inimigos e chefões depende mais do domínio de padrões. Antes de cada ataque, o inimigo revela uma marca vermelha na tela que indica a sua área de efeito e, na maioria dos casos, basta rolar e sair dessa zona para evitar os ataques. Porém, há alguns ataques teleguiados e padrões utilizados pelos últimos chefes que podem ser mais complicados de desviar. Um erro também pode ser fatal com uma armadura mais fraca, então o aconselhável é realmente gastar um tempo com as mecânicas de criação de itens.

Outro elemento fundamental são as magias (divididas em fogo, água, terra e ar) e os golpes especiais associados aos dois tipos de arma (espada, arco e flecha). Para desbloquear novos golpes, o jogador precisa realizar certas quests e abrir tesouros trancados com chave. Já a obtenção de novas magias demandam o consumo de itens, sendo comum o requerimento de orbes elementais, que podem ser comprados ao custo de cristais obtidos ao derrotar vários inimigos. Tanto golpes especiais quanto magias têm seu uso limitado por um tempo de recarga.

Pessoalmente, encontrei um bug estranho em que alguns golpes a distância acabavam passando pelo inimigo ao invés de atingi-lo. Também consegui, em ocasiões bem raras, empurrar inimigos para áreas que deveriam ser inacessíveis, como a água de uma área de mata e um buraco em uma ruína. Usar ataques que empurram o inimigo também podem levar à perda do lock-on, mesmo com a criatura ainda visível.

Ao pensar na questão da jogabilidade como um todo, sinto que o jogo acaba valorizando pouco o aspecto de simulador. Caso o jogador queira apenas realizar a história principal, é possível ignorar a fazenda e usá-la apenas para as poucas missões específicas. O combate também acaba só tendo valor para a obtenção de materiais, tendo em vista que apenas equipamentos fortalecem os personagens, com magias e golpes especiais como um elemento adicional da build.

De certa forma, a sensação é a de que o jogo poderia ter trabalhado a sinergia entre os seus elementos um pouco melhor. Existe um ciclo interessante de coleta de recursos e combate, mas é até fácil ignorá-lo, resultando em uma experiência que pode ser bastante básica.

Chamando um amigo

Além de jogar sozinho, é possível convidar um amigo para o co-op local. O personagem extra é adicionado à campanha, sendo possível utilizá-lo para ajudar a realizar as quests e derrotar os inimigos. Inicialmente, o personagem não conta com nenhum equipamento, sendo necessário dividir o que o primeiro jogador tiver de sobressalente ou comprar um novo. O dinheiro é compartilhado entre os dois jogadores, mas cada um possui seu próprio inventário, sendo necessário largar um item para a outra pessoa.

Em combate, ter outro aliado permite dividir a atenção dos inimigos. Além disso, se uma pessoa morrer, haverá um cooldown para que ele seja ressuscitado com metade do seu HP caso o aliado permaneça vivo. Jogando sozinho, ser derrotado significa perder o resto do dia, despertando posteriormente na cama da Vila Patinhas ou na estalagem da Fortaleza Rivero.

Vale destacar que a tela é única para ambos os jogadores, sendo os menus e elementos de interface divididos entre as áreas esquerda e direita da tela. Caso os jogadores se afastem muito um do outro e saiam da área de visibilidade, eles serão teleportados para garantir que fiquem próximos novamente.

Por um lado, eu acharia interessante que também fosse possível jogar com outra pessoa que já tem seu próprio personagem montado. Por outro, esse sistema local que simplesmente cria um aliado com o qual você precisa dividir os recursos permite uma entrada fácil de um segundo jogador a qualquer momento.

Para melhor diferenciar os personagens, é interessante utilizar o espelho da fazenda Thunderbunn. Ao interagir com ele, é possível trocar o padrão da aparência do gatinho, escolhendo entre cores diferentes, com opções como pelo rajado. Isso pode ser usado também para customizar sua aparência no modo single player.

Uma fábula divertida

Além de apresentar um mundo de animais antropomórficos fofinhos, Kitaria Fables é um jogo que consegue equilibrar ação e elementos de simulação. Ele foca em gerar um ciclo de combate, coleta de materiais e obtenção de itens, criando uma experiência agradável. Jogadores que curtem ação e jogos de fazenda provavelmente irão aproveitá-lo no seu próprio ritmo. No entanto, a sensação é a de que o jogo poderia ir um pouquinho além para fazer algo mais memorável.

Prós

  • Indicação da área de efeito dos ataques é um grande auxílio para o combate;
  • O combate, a coleta de materiais e a criação de itens formam um ciclo interessante de gameplay;
  • Co-op local;
  • Tradução para o português é, de forma geral, competente.

Contras

  • Progressão das missões principais poderia ser mais natural;
  • Pequenos bugs no combate de longa distância;
  • A fazenda acaba tendo menos valor do que o combate para avançar pela história.
Kitaria Fables - PC/PS4/PS5/XBO/XSX/Switch - Nota: 7.5
Versão utilizada para análise: PC
Revisão: Juliana Paiva Zapparoli
Análise produzida com cópia digital cedida pela PQube Games

é formado em Comunicação Social pela UFMG e costumava trabalhar numa equipe de desenvolvimento de jogos. Obcecado por jogos japoneses, é raro que ele não tenha em mãos um videogame portátil, sua principal paixão desde a infância.


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