Blast from the Past

Silent Hill 2 (PS2): 20 anos de uma obra-prima do terror

Relembre como esse clássico elevou o gênero do survival horror a um novo patamar e inspirou todos os jogos de terror que vieram depois.



Silent Hill 2 chegou às prateleiras há 20 anos, no dia 24 de setembro de 2001, originalmente para o PlayStation 2. Mesmo com a expectativa enorme que o sucesso de seu antecessor lançara sobre o projeto, o Team Silent conseguiu mais uma vez conquistar a crítica e o público, vendendo mais de 1 milhão de cópias já no primeiro mês após o lançamento.


Para muitos que tiveram a oportunidade de se aventurar no game, Silent Hill 2 se tornou um dos melhores —  senão o melhor — jogos de terror já produzido na história dos videogames. E, para celebrar o aniversário de 20 anos do título, que tal visitar mais uma vez a cidade da neblina eterna e relembrar o que faz de Silent Hill 2 uma obra tão única e tão fascinante no mundo dos jogos eletrônicos?

Derrotando o monstro da expectativa

Contrariando o ditado que diz que "em time que está ganhando não se mexe", Silent Hill 2 surpreendeu a todos por simplesmente ignorar a história contada no jogo anterior e trazer um enredo totalmente novo. Deixando de lado Harry Mason, que havia acabado de salvar sua filha Cheryl dos planos malignos de uma seita macabra no primeiro Silent Hill, o Team Silent decidiu construir uma nova trama do zero, com personagens inéditos.

Em vez de utilizar uma temática focada no sobrenatural, que seria o caminho mais fácil para provocar medo nos jogadores, os escritores e roteiristas decidiram trabalhar numa trama muito mais "humana" e focar nos sentimentos do protagonista, seus dramas pessoais e em como essas coisas — corriqueiras e presentes na vida de todos nós — podem ser assustadoras, cruéis e perturbadoras.

A principal ligação entre os dois games está na verdade em seu personagem principal, o mais importante de toda a saga: a cidade de Silent Hill.

A carta: o início da jornada

"Em meus sonhos mais inquietos, vejo aquela cidade... Silent Hill.
Você prometeu que me levaria lá de novo um dia, mas nunca levou.
Bem, estou lá sozinha agora. 
Em nosso lugar especial... esperando por você."
Silent Hill 2 nos conta a história de James Sunderland, um homem que acabou de perder sua amada esposa. Com a morte da mulher que ama, ele viu seu mundo desmoronar. Mas e se essa terrível situação não tiver passado de um mal-entendido ou apenas um sonho ruim? James se vê diante dessa hipótese quando recebe a misteriosa carta com os dizeres acima, assinada por sua esposa, Mary.

Perdido em seu luto, sem mais nada a perder, James se agarra a essa última esperança. E é assim, com o protagonista chegando à cidade de Silent Hill para procurar pela esposa, que a narrativa de Silent Hill 2 tem início.

Com essa abertura simples e curta, mas incrivelmente comovente — e um tanto inquietante —, Silent Hill 2 mostrou que a história que queria nos contar era algo bastante diferente do padrão para um jogo de terror. Qualquer pessoa que começasse a jogar o game logo se sentia imersa no drama pessoal de James Sunderland, simpatizando com o personagem e torcendo para que ele pudesse encontrar o que procurava. É muito por conta disso que o grande plot twist do jogo é tão poderoso e efetivo.
Na cena de abertura do jogo, James observa a cidade no horizonte sem imaginar o que lhe aguarda.
É fascinante como aos poucos o enredo do game, que iniciou como um drama comovente sobre a dor do luto, vai se transformando em algo diferente e muito mais perturbador conforme James avança em sua busca por Mary. É então que o grande protagonista da série, a cidade de Silent Hill, começa a mostrar sua verdadeira face.

A cidade, como já mostrado no primeiro game, é um lugar muito especial que tem o poder de materializar no mundo físico os sonhos, pesadelos e os pensamentos mais obscuros das pessoas. E, conforme presenciamos a realidade de James se tornando cada vez mais distorcida e perturbadora, com os cenários se tornando cada vez mais bizarros e ameaçadores, e monstros cada vez mais grotescos surgindo pelo caminho, percebemos que há algo muito errado com o homem e que a cidade o atraiu até ali para lhe mostrar a dura e cruel verdade. A história vai então se mostrando muito mais intrigante e complexa do que inicialmente imaginávamos.

Somado a isso, no decorrer do game encontramos outros personagens que, assim como James, foram atraídos a Silent Hill em busca de respostas para suas perturbadoras questões pessoais, seja para lidar com sentimentos de culpa por coisas que fizeram no passado, seja para lidar com traumas antigos que precisam vencer para continuar a viver. A forma como as histórias desses personagens secundários vão se cruzando com a de James durante o jogo contribui para aumentar ainda mais a complexidade e densidade da narrativa.
Angela é um dos personagens que cruzam o caminho de James.

Não entrarei em mais detalhes sobre o enredo, para evitar estragar a experiência de quem ainda não teve a oportunidade de jogar essa obra-prima. Acompanhar a narrativa de Silent Hill 2 — desde o início comovente, passando pela espiral de loucura que vai se desenrolando de forma cada vez mais assustadora, até o soco no estômago que é seu plot twist final — é uma experiência bastante singular, que todos que apreciam uma boa história de terror devem saborear por conta própria.

A psicologia do terror

Uma das características mais marcantes de Silent Hill 2 está na aplicação que o jogo faz da psicologia tanto em seu enredo quanto na parte artística e até na jogabilidade. É surpreendente observar todas as diferentes formas da cidade manifestar no mundo físico os sentimentos, traumas e medos dos personagens, e notar como tudo foi construído cuidadosamente de forma a enfatizar essa ideia.
Há algo muito errado com esse cenário...
Os cenários se alternam entre locais a céu aberto, onde podemos andar pelas ruas desertas e cobertas de névoa da cidade, e ambientes fechados, como prédios, um hospital, uma prisão, entre outros. Todos esse lugares são incrivelmente perturbadores, fazendo mesmo o jogador mais corajoso se sentir ameaçado a cada passo. Somado a isso, temos a trilha sonora majestosa por Akira Yamaoka, sobra a qual falarei mais adiante.

Outra coisa que merece destaque é o design dos monstros que encontramos durante a jornada de James Sunderland. Cada um deles tem comportamento, sons e aparência bastante distintos, que sempre evocam em nós um grande incômodo subconsciente e em alguns casos até um certo sentimento de tristeza. As criaturas decadentes parecem saídas de um pesadelo, e essa é exatamente a impressão que os artistas do game desejavam nos causar.

É interessante que a maioria desses inimigos não oferece muita dificuldade para serem abatidos, mas ainda assim nos causam um sentimento de angústia, ansiedade e a sensação de estarmos sob ameaça o tempo todo. Isso porque cada uma das criaturas foi desenhada como uma materialização de algum dos traumas e medos de James e dos demais personagens.
Todas as criaturas do game são uma manifestação do psicológico dos personagens.


A trilha sonora genial de Akira Yamaoka

Um fator que contribui muito para a efetividade da narrativa de Silent Hill 2 é a genialidade da trilha sonora composta por Akira Yamaoka, músico japonês que trabalhou em todos os jogos da série principal, com exceção de Silent Hill: Downpour (PS3/X360).

Marcadas pelos sintetizadores carregados de efeitos, pelos ruídos de fundo que remetem a coisas como sirenes e metal sendo arrastado, e por batidas que dão a impressão de que não deveriam combinar com os compassos — mas combinam —, as músicas de Yamaoka causam uma sensação sem igual de estranheza, que se encaixa perfeitamente no tom que o jogo pretende passar. A trilha sonora, somada à arte visual, ajuda a causar no jogador a sensação de estar presenciando algo saído de um sonho.

Akira Yamaoka, o gênio por trás das músicas de Silent Hill.
Os títulos das canções falam muito por si só: "A World of Madness" (Um Mundo de Loucura), "Silent Heaven" (Paraíso Silencioso), "Terror in the Depths of the Fog" (Terror nas Profundezas da Neblina) e "The Darkness That Lurks In Our Mind" (A Escuridão que Espreita em Nossa Mente) são apenas alguns dos temas presentes na trilha sonora criada por Yamaoka especialmente para Silent Hill 2, que está disponível na íntegra em diversas plataformas de streaming.

O Legado e o futuro da franquia

Silent Hill 2 mostrou que um bom jogo de terror não precisa se apoiar no sobrenatural, em armas biológicas ou mesmo no gore exagerado para ser assustador. O jogo conseguiu, com seu enredo bastante humano e focado nos dramas de pessoas normais, provar que talvez as coisas mais assustadoras que existem no mundo estão na verdade dentro de nós.

Outro feito do game foi o modo de apresentar sua narrativa, utilizando todos os recursos visuais e sonoros para contar a história. Tudo no jogo se complementa; Os cenários, mesmo seus detalhes mais pequenos, os diferentes tipos de monstros, os elementos visuais e os sons estão todos lá para nos ajudar a formular teorias sobre o que de fato aconteceu com James Sunderland e com os demais personagens. Isso enriquece muito a experiência e contribui para o impacto psicológico do jogo sobre quem está jogando.

A série teve mais seis jogos principais lançados após Silent Hill 2: Silent Hill 3 (2003), Silent Hill 4: The Room (2004), Silent Hill: Origins (2007), Silent Hill: Homecoming (2008), Silent Hill: Shattered Memories (2009) e Silent Hill: Downpour (2012). Porém, nenhum deles conseguiu um lugar tão especial quanto o segundo game da franquia.

Mais recentemente, em 2012, foi anunciada a produção de um novo episódio da série, batizado de Silent Hills. Os fãs ficaram extremamente animados ao saber quem estava por trás do título: o estúdio Kojima Productions. Infelizmente, tivemos um verdadeiro banho de água gelada quando o jogo foi cancelado sem grandes explicações em 2015.

O que aumentou esse sentimento de desamparo foi o fato de em 2014 a equipe de desenvolvimento ter lançado uma pequena demo que ficou conhecida como P.T. (iniciais para Playable Teaser). O pequeno jogo, apesar de curto, acabou por conquistar um lugar entre os jogos mais assustadores já concebidos, o que nos leva a imaginar o que Silent Hills poderia ter nos proporcionado.

Depois do cancelamento de Silent Hills, parecia que a Konami havia engavetado a série assim como fez com outras de suas grandes franquias, mas no início de 2021 os rumores do retorno da franquia se tornaram cada vez mais constantes e mais fortes, e parece que agora é só questão de tempo até vermos o anúncio oficial de uma ou mais novas entradas Silent Hill em produção.

Silent Hill 2 deixou sua marca no mundo dos games ao apresentar uma história humana e sensível, mas ao mesmo tempo perturbadora e poderosa, capaz de mexer até com o mais corajoso dos jogadores. Em 20 anos desde seu lançamento, o game inspirou diversos dos jogos de terror que vieram depois. Agora nos resta aguardar para ver o que o futuro da franquia nos trará.

Revisão: Davi Sousa

Amante das artes digitais. Estudante de Jogos Digitais (em busca de fazer deles minha profissão). Metal Gear, Zelda e Control são algumas de minhas séries favoritas.


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