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Análise: Blightbound (Multi) é um desafiante dungeon crawler com excesso de complexidade

Aprimore e equipe seu combatente e aventure-se em em localidades tomadas por uma perigosa Praga.



O desfecho de uma épica batalha contra um titã maligno resulta em uma terrível peste que coloca em risco toda a humanidade, e agora cabe a você montar um grupo capaz de resistir e combater esse mal. Essa é a premissa de Blightbound, jogo desenvolvido pela Ronimo Games e que encanta inicialmente com um visual bem elaborado, personagens estilosos e uma campanha desafiante capaz de ser jogada de forma cooperativa. Entretanto, o título sofre de uma disposição desnecessariamente bagunçada na interface dos menus e um lançamento conturbado por muitos problemas técnicos.

A maldição do titã sombrio

A introdução de Blightbound nos apresenta a ameaça do titã sombrio, um ser que foi capaz de estilhaçar o Sol, levando a raça humana a confrontá-lo em um intenso combate. Mesmo saindo vitoriosos contra o imponente ser, ninguém foi capaz de prever que do cadáver do gigante sairia uma terrível Praga capaz de transformar os seres vivos em criaturas das trevas. Cabe a nós agora liderar os sobreviventes de um refúgio e realizar expedições em locais infestados pela peste no intuito de frear o seu avanço e recrutar novos aliados.




A campanha é narrada pelo ancião, um velho que atua como guia e dita os rumos que teremos que tomar no combate contra a Praga. A aventura ocorre em diferentes mapas que vão sendo liberados conforme objetivos são completados. Com exceção da cutscene de abertura que traz um capricho na apresentação da história, os demais eventos são majoritariamente introduzidos em forma de diálogos. É um detalhe que fica longe de ser insatisfatório, mas que acaba servindo apenas de plano de fundo para justificar a “pancadaria” contra os monstros.

Mesmo assim, o visual do título traz um estilo artístico de figuras pintadas e sobrepostas no cenário, dando um efeito interessante de dimensão e profundidade, semelhante a jogos como Darkest Dungeon e Valiant Hearts.



Combatendo a Praga

Logo de início, o jogo nos coloca em uma fase nos moldes de um tutorial, que introduz o jogador às mecânicas. Um grupo de três heróis ingressam na fase, cumprindo objetivos que vão se atualizando conforme progredimos e derrotamos grupos de criaturas e chefes. Blightbound não traz grandes inovações nesse sentido, sendo cada aspecto de sua jogabilidade familiar para quem já se aventurou em alguns dungeons crawlers e/ou beat ‘em ups conhecidos do mercado.

Conforme mencionado, o grupo que embarca no combate conta sempre com três integrantes: um guerreiro que atua como o famoso tanque de guerra, defendendo-se dos ataques e revidando com poderosas pancadas; uma assassina especializada em causar grandes danos e aproveitar brechas nas defesas inimigas; e um mago que é capaz de curar e lançar toda a sorte de feitiços e punições em seus alvos. Cada classe tem um papel distinto nas partidas e coordenação entre os jogadores é essencial para sobreviver.




A proposta principal é que a experiência seja desfrutada de forma cooperativa online, com você e até duas pessoas embarcando nas incursões nos locais infectados. A cooperação aqui vai além da combinação das características de cada classe, pois em diversas ocasiões nos deparamos com quebra-cabeças que exigem uma ação conjunta em sua resolução.  Embora no Acesso Antecipado encontrar outros jogadores tenha sido um ponto negativo, isso foi consideravelmente amenizado na versão desta análise.

Para aqueles que possuem aversão a partidas multiplayer, mesmo que a proposta aqui passe longe de ser uma competição, os desenvolvedores colocaram a opção de ingressar na campanha acompanhado por bots. Eles executam todas as habilidades disponíveis em cada herói e atacam conforme sua ação ou na presença do inimigo. Caso você seja derrotado, eles correm rapidamente para levantá-lo. O problema é que nem sempre essa será a decisão mais sensata, pois ser ressuscitado no meio de um grupo de criaturas é o mesmo que pedir para morrer novamente.




Outro ponto que eles deixam a desejar é na resolução dos já mencionados quebra-cabeças. A título de exemplo, um desses enigmas envolve pisar em três locais específicos no cenário. Em boa parte dos casos eles cumprem seu papel e reagem assim que você faz a sua parte, entretanto foram consideráveis as vezes em que eles simplesmente congelaram, me obrigando a adaptar a situação ou até mesmo reiniciar a fase. Levando-se em conta o alto grau de dificuldade do título, ter que recomeçar um mapa desafiador já na reta final pode ser desestimulante.




Cada herói traz um arsenal de habilidades especiais que recarregam automaticamente após algum tempo. Ao contrário do instinto de poupar recursos que predominam o comportamento da maioria dos jogadores, aqui o ideal é usar e abusar desses poderes sem parcimônia, pois o tempo de recarga é relativamente curto e a ameaça das hordas de inimigos é alta. Para aumentar as chances de sobrevivência, todos contam com uma habilidade defensiva como a cambalhota da assassina ou teletransporte do mago.

Conferindo uma pitada de aspectos de RPG, é possível aprimorar os atributos de cada herói conforme concluímos as fases e trocamos seus equipamentos por versões melhores. Cada item apresenta níveis de raridades delimitados por cores e propriedades extras, como efeitos adicionais em habilidades e aumento dos status do personagem.




É importante criar uma familiaridade com sua classe favorita e dominar todos os recursos que ela dispõe, pois embora cada fase traga um nível de dificuldade randomizado, até mesmo as dificuldades mais baixas apresentam ameaças perigosas. As criaturas comandadas pela peste costumam atacar em conjunto em combate próximo e à distância, além das armadilhas presentes no cenário. Para complicar ainda mais a situação, em alguns casos a tela fica tomada por adversários, sendo fácil perder nosso protagonista de vista.

Os chefões conferem um combate épico e desafiador, ocupando boa parte da tela com seus corpos gigantescos, visual grotesco e ataques devastadores em área, além de virem sempre acompanhados de seus minions que dificultam ainda mais a tarefa de esgotar a imensa barra de vida do perigoso vilão.




No meu caso, criei uma afinidade maior pela classe guerreira, contudo uma das habilidades do guerreiro que iniciamos, Malborys, não combinou muito com o meu estilo de jogo. Por sorte, ao explorar minuciosamente cada localidade das fases, descobrimos tesouros valiosos, sobreviventes que aumentam o nível do nosso acampamento e, em alguns casos, encontramos novos heróis para serem recrutados. Eles não trazem apenas um visual e contextos diferentes, como mudam algumas habilidades em relação a outros da mesma classe, podendo trazer uma combinação que seja do seu agrado.

Liderando os sobreviventes

Longe do campo de batalha, nos reunimos no Refúgio, a base daqueles que sobreviveram e estão dispostos a nos ajudar na luta contra a Praga. Aqui é onde gerenciamos cada herói recrutado, seus pontos de experiência e equipamentos. 

Fora isso, é interessante notar que cada integrante da equipe traz uma história pessoal e, junto com ela, uma motivação para a ser alcançada no combate. O meu favorito, Kromn (sim, com direito a referências ao Conan) é o último membro da tribo dos Andarilhos do Sol e deseja reunir os últimos fragmentos do Sol destruído pelo Titã no intuito de forjar uma poderosa espada. São pequenos detalhes em teoria, mas que na prática incrementam a imersão e o vínculo criado com cada personagem.




Nem todo aliado aparece na forma de herói e outro aspecto do gerenciamento da base é recrutar pessoas dispostas a se expor aos perigos da Praga a fim de nos oferecer serviços de suporte fundamentais. Eles são recrutados por meio do ancião à medida que aumentamos o nível do acampamento ao cumprir com as tarefas recebidas. Alguns deles são figuras marcantes de todo o jogo com elementos de RPG, como o mercador ou o ferreiro. Saber explorar o que cada um tem a oferecer é importante não só para recrutar mais reforços, como também melhorar os acessórios de nossos aventureiros.

Estabilidade infectada pela peste

Infelizmente Blightbound não está livre de problemas técnicos e escolhas ruins de desenvolvimento. A começar pelo menu do Refúgio que traz uma apresentação exageradamente confusa e que me causou certa estranheza no começo. A forma como cada função é introduzida é feita de forma acelerada, com muitas caixas de texto saltando na tela em sequência, detalhando aspectos que, em teoria, são comuns em jogos desse tipo e dispensam o excesso de explicações.




Outra parte que causou um impacto negativo ainda maior em minha experiência foram os bugs e instabilidade do jogo. Embora não justifiquem, com a pandemia tem sido cada vez mais comum encontrarmos essas instabilidades no lançamento de um título, contudo aqui a coisa se agrava ao ponto de impedir seu uso de maneira regularmente satisfatória. Personagens de outros jogadores acabam sumindo durante a partida, inimigos tornam-se invisíveis, instabilidade na conexão dos servidores e o fechamento repentino do jogo ao acionar mecanismos dentro das fases, foram alguns dos problemas que encontrei. 

O lado bom é que os desenvolvedores vêm mantendo um contato contínuo com a comunidade através dos canais oficiais de comunicação, atuando com rapidez na correção desses problemas. Só nos resta torcer para que sejam rápidos o suficiente para que as impressões negativas não acabem com a reputação da obra.




Uma aventura para quem busca desafio

Blightbound (Multi) consegue apresentar uma proposta interessante, com personagens carismáticos, com visual estiloso e que carregam sua própria história. Sua jogabilidade é, sem dúvida, seu ponto mais forte. Se aventurar em cemitérios, masmorras e montanhas enquanto massacramos, ou somos massacrados, por criaturas grotescas é uma fórmula cativante, especialmente quando temos um alto desafio e a possibilidade de desfrutá-lo com outros jogadores.




Contudo, o lançamento conturbado por problemas técnicos são fortes o suficiente para comprometer a experiência inicial e, até mesmo, desencorajar os fãs do gênero. Enquanto todas as correções não acontecem, será preciso persistência por parte do jogador não só na proposta desafiadora da obra, como também para lidar com esses inconvenientes.

Prós

  • Personagens bem elaborados;
  • Visual bonito dos cenários e heróis;
  • Alta grau de desafio.

Contras

  • Instabilidade do multiplayer e problemas sérios de performance;
  • Interface do refúgio exageradamente detalhada;
  • Bots precisam de maior refinamento.
Blightbound — PC/PS4/XBO — Nota: 6.5
Versão utilizada para análise: PC
Revisão: Farley Santos
Análise produzida com cópia digital cedida pela Devolver Digital

Escreve para o GameBlast sob a licença Creative Commons BY-SA 3.0. Você pode usar e compartilhar este conteúdo desde que credite o autor e veículo original.


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