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Análise: Tsugunohi (PC) leva assombrações e outros terrores para o cotidiano de pessoas comuns

Coletânea de jogos de terror funciona como uma espécie de walking simulator 2D.

Tsugunohi é uma série de jogos de terror desenvolvidos por ImCyan. Cada jogo é praticamente independente dos outros, mas todos seguem uma temática similar: um cotidiano gradualmente corrompido por horrores. São ao todo nove capítulos, e os sete primeiros haviam sido lançados separadamente no Japão. A versão para Steam funciona então como uma coletânea que também adiciona aos jogos uma tradução para o inglês.

Um cotidiano infectado pelo terror

Capítulo 1

Cada capítulo de Tsugunohi é centrado em protagonistas diferentes. No primeiro temos um rapaz aparentemente voltando para casa após suas aulas. Ele tem uma aparência mais velha, mas usa um uniforme escolar. Esse trajeto de retorno diário é a única coisa que vemos do personagem, cuja história é a mais vaga de todos os capítulos.

Apesar do personagem não esboçar reações durante a maior parte do jogo, é possível ver espíritos pelo caminho. A cada dia que passa, ele fica mais cansado até chegar a um ponto em que tudo ao seu redor está estranho e horripilante.

Capítulo 2






















Já no segundo capítulo temos uma garota voltando para casa de forma similar. No entanto, o ambiente é diferente e ela acaba reparando em coisas sinistras ao seu redor enquanto atravessa um cruzamento.

O terceiro capítulo conta a história de uma jovem garotinha e sua família. De todos, essa é a história mais longa. Há até mesmo divisões em partes e a possibilidade de salvar o progresso, enquanto todos os outros são pensados para se jogar de um vez só.

No quarto capítulo, A Closed Future, temos novamente uma garota, mas o tópico desta vez é diferente. O seu retorno para casa é marcado pelo pensamento de refazer o seu dia do zero. Em seu caminho há uma grande ponte e a personagem realmente acredita que pode mudar o passado de alguma forma.

The Cat Ghost

The Cat Ghost conta a história de um gato passeando pelas ruas da cidade. No entanto, o seu território vai sendo tomado por elementos sinistros e inesperados. Apesar de ser basicamente a mesma coisa dos outros, esse jogo acaba sendo mais cômico.

The Parallel Train in the Dark traz novamente uma jovem estudante. Ao invés de voltar a pé para casa, ela costuma usar o trem. Quando chega próximo de sua parada, ela anda até uma porta mais próxima da saída. Porém, coisas estranhas começam a acontecer dentro do veículo.

Whispering Toy House conta a história de uma jovem garotinha que acaba entrando em uma casa cheia de bonecas. Enquanto os outros capítulos focam em mostrar espíritos, neste o aspecto de uncanny valley dos brinquedos ganha destaque. Existe uma brincadeira com espelhos e vários outros elementos de terror gráfico que chamam a atenção.

The Ethereal Railroad Crossing

Um dos dois capítulos novos é The Ethereal Railroad Crossing. Conectado de forma mais direta com The Parallel Train in the Dark, o jogo conta a história de uma garota cuja irmã gêmea faleceu recentemente. O caminho que ela usa para casa passa pelos trilhos do trem nos quais a irmã se jogou.

Por fim, AI’s Silent Cries conta com a protagonista Kizuna AI. Para quem não conhece o nome, a personagem é uma vtuber (youtuber virtual), ou seja, uma persona utilizada por uma pessoa real para interagir em vídeos com o seu canal de vídeos. A história brinca então com elementos virtuais para criar o seu terror.

Whispering Toy House























De forma geral, todas as histórias contam com atmosferas bem construídas de terror. Isso inclui, por um lado, o uso de sons baixos que evocam a sensação de vazio e ruídos. Por outro, são constantemente adicionados elementos visuais como aparições e deformidades gráficas. Chama a atenção a utilização de personagens e cenários que são recortes fotorrealistas. Isso ajuda a dar um clima de seriedade e encaixa bem com a proposta de “cotidiano”, apesar de também ter uma leve sensação de algo tosco.

Em termos das histórias em si, as narrativas são geralmente simples e seguem premissas similares, alterando-se personagens, espíritos e ambientes. Em particular, a primeira história é a mais fraca em termos de desenvolvimento, enquanto as outras conseguem apresentar mais elementos interessantes.

Nota-se também que alguns casos são mais voltados para a tática de jumpscare. Ou seja, algumas histórias trazem rapidamente elementos sombrios para a tela, usualmente com barulhos altos, no intuito de assustar o jogador. Isso não é verdade para todos os capítulos, sendo alguns mais graduais e bem desenvolvidos.

Infelizmente, a atmosfera macabra dos capítulos acaba sendo diluída e enfraquecida em alguns momentos que utilizam jumpscare e táticas mais infantis de terror. Em particular, é notável que os personagens muitas vezes não esboçam reações, fazendo com que a abordagem seja muito superficial. Junto com histórias lineares e simples, o resultado é basicamente vivenciar uma lenda urbana de baixa qualidade.

O desespero de não ter escolhas

Parallel Train in the Dark























A linearidade e completa ausência de controle do jogador é refletida também na forma como o gameplay se desenvolve. O jogador precisa apenas se movimentar para a esquerda e avançar os diálogos. Ambas as ações podem ser feitas mantendo o botão esquerdo do mouse pressionado.

De certa forma, todos os jogos da série são basicamente walking simulators 2D. Infelizmente, mesmo dentro de um gênero que opta por simplicidade de gameplay, Tsugunohi vai um pouco longe demais. Não há elementos interativos pelo caminho, nem mesmo uma forma de virar para o outro lado.

A Closed Future

Artisticamente falando, é possível interpretar o design do jogo pelo viés de uma restrição intencional. A ausência de escolha estaria então no aspecto de um destino imutável, forçando o personagem a sofrer com aqueles eventos pré-determinados. Nesse sentido, existe uma coesão de design que para alguns jogadores pode ser interessante.

Infelizmente, ter uma intenção por trás não significa que uma escolha de design é boa. A jogabilidade é restritiva demais, a ponto de tornar os jogos apenas enfadonhos. Combinado aos outros elementos já mencionados, o resultado é um jogo de terror de qualidade medíocre.

Um jogo de terror difícil de salvar

AI's Silent Cries
Para pessoas que são muito fissuradas com terror ou aquelas que realmente são movidas às chamadas creepy pastas e lendas urbanas, talvez o jogo ainda valha a pena. No entanto, Tsugunohi não é um representante de qualidade do gênero e pouco se salva, a não ser por sua atmosfera sinistra e algumas histórias mais elaboradas.

Prós

  • De forma geral, a atmosfera macabra dos capítulos costuma ser interessante.

Contras

  • Jogabilidade muito restritiva;
  • Histórias lineares, algumas simples demais, outras mal explicadas;
  • Predomínio de uma abordagem infantil e superficial.
Tsugunohi - PC - Nota: 5.0
Revisão: Felipe Fina Franco
Análise produzida com cópia digital cedida pela PLAYISM


é formado em Comunicação Social pela UFMG e costumava trabalhar numa equipe de desenvolvimento de jogos. Obcecado por jogos japoneses, é raro que ele não tenha em mãos um videogame portátil, sua principal paixão desde a infância.


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