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Análise: GRIME (PC) é uma mescla de gêneros que proporcionam uma aventura sinistra e impiedosa

Mais do que um metroidvania com alta dificuldade, GRIME é uma experiência que vale a pena ser conhecida.


GRIME
é um jogo do gênero metroidvania com elementos de soulslike e uma pitada de RPG desenvolvido pela Clover Bite e distribuído pela Akupara Games. Somos apresentados a um universo misterioso e intimidador, onde criação e destruição andam lado a lado com Aklhan, o misterioso protagonista gerado a partir dos fragmentos daquele universo. Prepare-se para combater e absorver o que há de mais sinistro e implacável nesse mundo hostil.

Da criação à destruição

Envolto em um mistério, a criação de Aklhan ocorre em um evento divino e curioso. Sem saber seu propósito, o personagem se arrasta até que seu corpo humanoide, com um buraco negro no lugar da cabeça, se forma com os pequenos fragmentos de rochas do local. Tudo o que resta a fazer é andar e descobrir o que está acontecendo.




Gerado com uma suposta perfeição, Aklhan chama a atenção dos demais seres “deformados” que encontra em seu caminho. Diferente do protagonista, as criaturas ali presentes apresentam corpos desproporcionais, seja pelo tamanho da cabeça ou membros. Dessa forma, somos constantemente venerado por sermos  "superiores".

Durante boa parte desse início de jogo, não temos muita explicação do que realmente está acontecendo. GRIME aborda a história com muito mistério e as informações são dadas ao jogador de maneira lenta. A introdução atua como um tutorial, com os elementos básicos de combate e exploração.




Os mistérios vão se desenrolando à medida em que exploramos os diversos setores do mapa. Seguindo uma estrutura semelhante aos jogos metroidvania, temos áreas interligadas com inúmeros corredores estreitos, sendo necessário adquirir novas habilidades para explorá-las por completo. Com uma estética sombria e intimidadora, nos deparamos frequentemente com lugares escuros onde a visibilidade é limitada, nos levando a surpresas desagradáveis ao longo da aventura.

Absorver para crescer

O combate envolve mecânicas já conhecidas de jogos soulslike: podemos atacar e esquivar de acordo com a nossa barra de vigor, consumida em cada ação; e nossa barra de vida diminui consideravelmente após cada dano recebido. 

Podemos equipar até duas armas, sendo possível alternar entre elas a qualquer momento, cujas características influenciam na velocidade e dano infligido por cada golpe. Armas menores dão menos dano, porém são mais rápidas; armas maiores são mais lentas, no entanto impõem maior dano. Essa escolha vai do gosto do jogador, assim como ao uso de armaduras e itens de combate.




A particularidade de GRIME está na possibilidade de absorver oponentes. Aklhan pode usar o buraco negro para bloquear ataques e absorve-los, desde que a ação seja executada no momento em que for receber dano.

Ao destruir um inimigo, seja com ataques ou absorção, coletamos Massa, elemento que é utilizado para realizar upgrades no protagonista. Existem dois tipos de upgrades possíveis de se realizar: o que envolve os atributos básicos e o que envolve as características dos oponentes absorvidos.

Aklhan possui cinco atributos: Vida, Vigor, Ressonância, Destreza e Força. Para realizar o upgrade, precisamos de uma quantidade determinada de Massa, e o custo sempre aumenta após cada escolha. Em alguns casos, para equipar determinados itens, precisamos de um valor mínimo em algum desses atributos, normalmente sendo Força e/ou Destreza.




Ao absorver uma quantidade determinada de um mesmo tipo de inimigo, temos a oportunidade de adicionar uma característica específica ao protagonista chamada de Traço. Essas melhorias podem envolver uma regeneração mais rápida, maior mobilidade, aumento de ataque, entre outros. Escolher o upgrade se torna uma decisão pessoal relacionada ao seu estilo de jogo, tornando-se essencial para que a aventura não se torne repetitiva.

Essas variáveis são fundamentais para que GRIME não seja uma experiência cansativa. O combate tende a ter uma dinâmica padrão, seja para inimigos normais ou chefes. Primeiro temos que entender o padrão de ataque para depois pensar em uma maneira de combatê-lo. Ter diferentes armas e upgrades tornam essa dinâmica diferente para cada jogador. Quer ter mais Força e usar armas maiores? Quer ter mais Vigor e usar armas mais rápidas? O seu estilo de jogo vai ser atendido qualquer que seja.



Tudo feito para te intimidar

No quesito artístico, GRIME apresenta de maneira muito competente um universo fantástico e perturbador (no bom sentido). Ao mesmo tempo que somos idolatrados por seres "inferiores" e "imperfeitos", somos constantemente lembrados do quão pequenos somos em relação àquele universo.

Os pequenos e estreitos corredores dão uma sensação claustrofóbica, principalmente quando há combate com múltiplos inimigos. Os chefes são imponentes e cada ataque é uma surpresa que os tornam únicos e interessantes de enfrentar. O nível de dificuldade dessas batalhas é alto, porém com algumas tentativas já é possível dominar o oponente.




O design dos inimigos e cenários se complementam em uma perfeita harmonia na hora de te deixar desconfortável. Os seres, com muitas feições humanas, geram estranheza ao serem vistos; os cenários apresentam elementos desconcertantes, como olhos nas paredes te observando. Amarrando isso está a música, sempre sutil e nunca te deixando ficar fora do clima. Quando ausente, os efeitos sonoros dão conta do recado para manter a imersão.

A história vai se desenvolvendo aos poucos, sempre deixando muitos mistérios no ar. É comum um diálogo o deixar cada vez mais confuso e curioso. Não há dublagem e os textos estão todos localizados em português. Particularmente, não me lembro da última vez que um jogo me deixou tão desconfortável e intrigado ao mesmo tempo. Foi um misto de sentimentos que me acompanhou ao longo da difícil trajetória que é enfrentar inimigos ágeis em lugares apertados.



Ainda é necessário absorver algumas melhorias 

GRIME apresenta poucos problemas. A curva de dificuldade no início é um pouco amarga, tornando alguns trechos repetitivos até dominar de maneira satisfatória o combate. Ficar repetindo um mesmo trecho com frequência torna toda a experiência cansativa. Talvez um pequeno ajuste na dificuldade nesse início já ajudaria. E não é o caso de facilitar o jogo, considerando que a dificuldade é uma de suas características, seria apenas para torná-lo um pouco mais acessível para os que não tem costume com o gênero.

Em relação aos bugs, o único que ocorreu foi de ficar preso em algumas paredes. Ao tentar descobrir locais secretos pelo mapa, o protagonista acabava ficando travado em alguns locais. Eventualmente eu conseguia me soltar ao usar a esquiva ou ficar pulando, mas chegou em um ponto em que eu já aceitava que o problema iria acontecer.




Por falar em exploração, devido às características de soulslike, Aklhan se movimenta de uma maneira lenta. Navegar por um grande mapa controlando um personagem assim é uma atividade maçante, principalmente quando precisamos cobrir uma extensa área.

Mesmo existindo locais de viagem rápida, irão ocorrer momentos de preguiça, principalmente quando você ficar preso em alguma parte morrendo para o mesmo inimigo inúmeras vezes. Os locais de renascimento são específicos e costumam estar localizados no início de cada área, não estando necessariamente perto do último local que você morreu.



Um experiência excepcional, mas não é para qualquer um 

GRIME despertou em mim o que poucos itens do entretenimento conseguiram: ao mesmo tempo em que me sentia incomodado naquele mundo, queria absorvê-lo cada vez mais. A mistura de soulslike com metroidvania funciona bem, exceto na questão de mobilidade do protagonista, exigindo paciência na exploração. A ambientação é um show à parte, com personagens e cenários bem elaborados e detalhados, provocando os mais diferentes tipos de sentimentos ao jogador. GRIME não é um jogo para qualquer um, mas é uma excelente recomendação para os que desejam experimentar algo diferente.

Prós

  • Parte artística impecável, com inimigos, cenários e trilha sonora se encaixando bem na imersão;
  • Possibilidade de melhorar o protagonista de acordo com seu estilo de jogo;
  • As batalhas contra os chefes são desafiadoras e criativas;
  • A história é envolvente, sempre mantendo o jogador curioso em relação aos acontecimentos.

Contras

  • A mobilidade lenta do protagonista torna a exploração do mapa cansativa;
  • Presença constante de bugs que te deixam preso nas paredes;
  • Curva de dificuldade ligeiramente ingrata no início.
GRIME – PC– Nota: 8.5
Revisão: Farley Santos
Análise produzida com cópia digital cedida pela Akupara Games


Graduando em Engenharia Geológica pela UFOP, viciado em café, RPG e GeoGuessr. Não dispensa uma partida de CS:GO e normalmente está navegando sem rumo pelo Twitter.


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