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Análise: Open Country (Multi) decepciona por sua ambição desprovida de divertimento e coesão

A mistura de gêneros desequilibrada da Fun Labs resultou em uma experiência repleta de problemas e entediante de se jogar.

Em um primeiro momento, Open Country impressiona por sua ambição de mesclar diferentes gêneros como caça, sobrevivência, sandbox e elementos de RPG. No entanto, essas características notáveis são rapidamente ofuscadas por uma estrutura de jogo pobre que nada faz para se manter interessante, criando uma experiência tediosa e repleta de problemas técnicos, principalmente nos consoles.

Desenvolvido pela Fun Labs, estúdio romeno especializado em jogos de caça, e publicado pela 505 Games para PC, PlayStation 4 e Xbox One, este título de sobrevivência poderia ser excelente se tivesse utilizado suas principais ideias da maneira correta, mas infelizmente não consegue se manter de pé por muito tempo.

Da cidade ao campo

Em Open Country, você é um trabalhador infeliz de um grande centro urbano, que inesperadamente decide largar seu emprego estressante e repetitivo para viver em meio à natureza e longe da poluição, dos escritórios e dos congestionamentos. Após limpar sua sala, você dirige por longos quilômetros com seu veículo recreativo até chegar a uma exuberante área verde e selvagem, onde será seu novo lar.

Você pode decidir imediatamente se deseja jogar com um personagem do sexo masculino ou feminino e personalizá-lo da forma que mais gostar. Existem opções limitadas de estilo de cabelo, barba e cor de pele, mas essas características são apenas estéticas e não influenciam de qualquer forma o andamento do jogo.

E assim sua verdadeira aventura começa. Você conhecerá o charmoso Chalé Cume de Neve e também será apresentado a Gary, o dono do lugar, que fornece uma série de detalhes introdutórios sobre o mundo do jogo. Ele também pedirá que você realize diversas atividades para pagar sua estadia.

Open Country exibe cutscenes de diálogos entre os personagens de forma semelhante aos jogos da Telltale, com cel shading. No entanto, a dublagem inglesa da obra é vergonhosa e de vez em quando uma voz é trocada por outra no meio da cena em questão. No começo da experiência, ao falar com Gary pela primeira vez, o meu personagem começou a alternar entre duas vozes diferentes, o que me deixou completamente perdido.

A sincronia labial também é péssima e o NPC parece estar falando loucamente quando não há nada para falar. Existem legendas em português brasileiro que são satisfatórias, o que deixa tudo menos decepcionante.

Não há exatamente uma narrativa principal por trás do título; você apenas realizará tarefas para Gary e outros personagens que vão sendo apresentados no decorrer da jornada, cada um com atividades variadas, como montar um acampamento, caçar animais, pescar, andar com um quadriciclo (chamado de ATX) ou ainda treinar um cachorrinho.

Além disso, caso não queira ajudar ninguém, você ainda pode montar uma cabana no meio da selva e passar os dias por meio de mecânicas de caça e sobrevivência, sem se preocupar com nada relacionado às demais atividades. Porém, optar por isso deixa a experiência um pouco limitada, já que é obrigatório realizar algumas missões para liberar novas partes do mapa e outras particularidades.

Outros impasses gritantes também deixam o jogo horroroso, tanto em interações com NPCs quanto na jogabilidade em geral. Em um primeiro momento, acreditei que o título da Fun Labs pudesse ser verdadeiramente ambicioso, porque me levou a acreditar que nele eu poderia explorar áreas imensas e construir meu próprio acampamento com toda a liberdade do mundo, sem qualquer tipo de regra. Infelizmente minhas expectativas foram literalmente por água abaixo, porque ao invés de oferecer liberdade como sugeria, ele trouxe apenas frustração e tédio.

RPG, caça, sobrevivência e monotonia

Open Country é uma experiência em terceira pessoa, em que você deve controlar seu personagem por um mundo dividido em três áreas semiabertas: Colinas Serenas, Vale Tumnus e Cume de Neve. Cada uma delas vai sendo desbloqueada de acordo com sua progressão, geralmente relacionada à conclusão de atividades oferecidas pelos outros NPCs.

Por isso, você obrigatoriamente terá que realizar as tarefas para progredir e boa parte delas são repetitivas e cansativas de se fazer. Algumas incluem caçar um específico tipo de animal, outras pedem que você se locomova pelas áreas para entregar pacotes. Existem até missões interessantes, como andar de quadriciclo, mas você só poderá fazer isso algumas vezes, quando os personagens pedirem.

Enquanto exploramos essas áreas e completamos missões, os principais elementos de sobrevivência, caça e RPG vão sendo introduzidos. Na experiência de caça, você deve comprar armas com um NPC do chalé ou produzir um arco e flecha para sair paisagem afora em busca de animais, geralmente indefesos. Existem alvos de pequeno porte, como coelhos e raposas; de médio porte, como veados; ou até mesmo os mais agressivos, como ursos e lobos.

Matar um coelho é o mesmo que matar um veado, lobo ou urso — isto é, fácil demais. Geralmente você mata qualquer um dos três com apenas um tiro e se eles fugirem não é nada difícil localizá-los mortos alguns metros adiante. A mecânica de caça também exige que você compre roupas diversas para se camuflar ou ainda que ande vagarosamente abaixado para não fazer barulho. Infelizmente, essas características não importam muito, pois a inteligência artificial geralmente é burra, o que garante que você não precise se esforçar muito.

Outro exemplo da precariedade da IA do título é o companheiro canino que você pode ter depois de um tempo jogando. O comportamento do animal é desengonçado e nas poucas vezes que pedi para ele buscar algum alvo caído, apenas o presenciei correr na direção oposta e desaparecer.

Como jogo de sobrevivência, Open Country soa realmente ambicioso, mas na prática se torna sem graça. Aqui você deverá saber administrar suas principais barras de energia, como sede, fome, fadiga, temperatura e lesões — que caem rápido demais. Para fazer isso, você tem duas opções: coletar recursos da natureza para criar curativos, analgésicos e comida, ou simplesmente ir até o chalé e comprar de um NPC o que precisa. Claro que a segunda opção é bem mais eficiente, rápida e menos chata, então não há motivos para usar o outro método.

Um dos poucos detalhes interessantes está relacionado à sede, pois não é possível comprar água, então você terá que encher seu cantil em lagoas ou rios. No entanto, beber água suja pode deixá-lo doente, por isso é preciso cozinhar para purificar o líquido, o que exige que você tenha equipamentos e faça uma fogueira.

À sua disposição existe um guia de receitas para montar diferentes ferramentas, cabanas e fogueiras, bastando apenas coletar os recursos necessários. Por exemplo: para fazer uma fogueira é necessário ter tronco, galho e material inflamável. Os dois primeiros suprimentos são abundantes na natureza e são os mais usados para criar algum equipamento, porém o que mais frustra é que você só poderá encontrá-los no chão, tornando a experiência de crafting bem limitada.

Fazendo uma fogueira.
Logo no começo da campanha, você ganha um machado e um facão, mas eles não têm muita utilidade, visto que não é possível derrubar árvores ou cortar plantas. No primeiro tutorial de sobrevivência, tive que coletar troncos para construir uma fogueira, e por mais que o ambiente estivesse cheio de árvores, eu não podia cortá-las, o que me obrigou a sair explorando até encontrar um.

Open Country também contém elementos de RPG, com muitas árvores de habilidades para que você possa explorar determinadas áreas com mais facilidade. Uma vez que você conseguir muitos pontos de experiência, seu personagem ficará mais forte, inteligente, preciso, rápido e discreto, e suas barras de energia cairão com menor velocidade.

Você também pode ir ao chalé para vender produtos da selva, como peles de animais ou consumíveis, e conforme avança nas missões, a loja evolui. No entanto, os preços são totalmente desbalanceados e os valores para frutas são geralmente mais altos que para a pele.

Por mais que a Fun Labs tenha uma visão de jogo ambiciosa, com uma mesclagem de gêneros interessante, nada disso é bem estruturado, tornando a experiência muito abaixo da média. As mecânicas de caça, sobrevivência e RPG são ótimas, mas subutilizadas e muitas vezes desnecessárias, deixando o título ainda mais problemático do que já é.

Uma jogabilidade tenebrosa

Se os gêneros já representam um grande problema por não funcionar em conjunto, é porque ainda não falamos dos controles, da jogabilidade em geral e da construção de mundo. No PlayStation 4, você controla o personagem por meio dos analógicos do DualShock 4. Um deles funciona para movimentos e o outro para controle de câmera, como é de praxe.

No entanto, existe um problema pertinente de latência no jogo, fazendo com que o personagem demore cerca de dois segundos para caminhar após o toque no botão, ou que uma arma leve dois segundos para disparar. No primeiro exemplo, isso acontece o tempo todo; já no segundo foram apenas algumas vezes, mas o suficiente para frustrar.

Open Country também tem uma física completamente problemática, com saltos desregulados e uma mecânica de escalada terrível. Na realidade, só é possível escalar poucas rochas em locais que o jogo estipula. Portanto, se você encontrar um obstáculo pequeno e pensar que pode passar por cima caminhando, está errado: o personagem trava ali mesmo, te obrigando a dar a volta para prosseguir.

Há também outros erros e bugs, como o cachorro voando, o quadriciclo de ponta-cabeça, o personagem preso nas pedras e assim por diante. Open Country é um verdadeiro show de bugs, mas o que mais atrapalha a diversão são erros que travam o software e forçam uma reinicialização. Durante minha experiência, isso ocorreu umas cinco vezes, suficientes para me deixar irritado.

Outros pontos jogáveis terríveis são a interface de usuário e os menus desorganizados, feios e confusos. Por exemplo: ao precisar ligar a lanterna ou usar o binóculos, você precisa realizar três ações utilizando os direcionais do lado esquerdo do DualShock 4. Primeiro, clique na seta para baixo, depois vá para a esquerda e direita até localizar o equipamento. Em seguida aperte X para usar.

Todas essas seleções para utilizar um simples equipamento são um pouco exageradas e demoradas, o que quebra a imersão da situação, principalmente se você selecionar o item errado. Além disso, durante uma missão de coleta, uma interface enorme aparece no lado esquerdo da tela, mostrando o que já foi coletado e o que falta.

Isso não é necessariamente ruim, porém o tamanho da janela e dos ícones é meio desnecessário. Em contrapartida, poderiam ter adicionado um minimapa, pois cada vez que você precisa se locomover terá que abrir um menu.

Um mundo selvagem menos vivo e mais morto

Em relação ao visual, Open Country também não impressiona. Os animais são estranhos e os biomas selvagens não são exatamente bonitos. Na realidade, a qualidade gráfica do título é decepcionante, com poluições visuais o tempo todo.

O excesso de aliasing, clipping e texturas feias posicionadas em cada centímetro do cenário atrapalha demais, principalmente quando se está caçando, visto que parece que tudo à sua frente se mexe freneticamente. Problemas graves de renderização também estão presentes, fazendo com que boa parte do mundo desapareça inesperadamente.

O jogo parece limpo na captura de tela, mas é totalmente poluído durante a experiência.

A trilha sonora possui algumas melodias interessantes, como uma música country bem divertida no menu inicial e outra de vez em quando durante a aventura. Entretanto, elas parecem ter sido tiradas aleatoriamente da internet e são pouco convidativas. Não existem sons que realmente motivam e na maior parte do tempo não há qualquer música ambiente.

Por fim, uma das coisas mais detestáveis que presenciei durante a experiência foram efeitos sonoros extremamente irritantes. Quando o personagem pula de um lugar relativamente alto, ele geralmente torce o tornozelo e caso você não tenha curativos, terá que ouvir ele gemer incalculáveis vezes, o que é odioso. A cada quatro segundos, ele solta um ruído que deveria afastar todos os animais à sua volta, se eles já não estivessem mecanicamente mortos.

Atenção, área restrita!

Open Country tenta ser original e inovador por meio de uma mesclagem de RPG, caça, sandbox e sobrevivência, mas acaba colocando toda a sua ambição em uma grande lata de lixo. Essa mistura de gêneros incoerentes e relaxadamente desestruturados resultou em uma experiência completamente esquecível e não recomendada, obstruindo qualquer chance de sucesso.

Além disso, as principais características jogáveis do título são abarrotadas por problemas de latência e física. Não há qualidades gráficas, sonoras e narrativas para enaltecer, apenas a sensação de uma jornada entediante e frustrante, desprovida de diversão e imersão.

Prós

  • A mistura de gêneros variados oferece uma visão de jogo ambiciosa.

Contras

  • Dublagem medíocre;
  • Erros e bugs frequentes que forçam reinicializações;
  • Problemas de renderização e excesso de poluição visual nos cenários;
  • Efeitos de slowdown, latência ruim nos controles e física de jogo problemática;
  • Menus e interfaces confusos e desorganizados;
  • Tarefas e missões repetitivas e cansativas;
  • Mecânicas de caça, sobrevivência e RPG subutilizadas;
  • Efeitos sonoros nem um pouco convidativos.
Open Country - PC/PS4/XBO - Nota: 3.0
Versão utilizada para análise: PS4
Revisão: Davi Sousa
Análise produzida com cópia digital cedida pela 505 Games

é entusiasta e apreciador de jogos com conceito artístico minimalista e narrativas de significado profundo. No GameBlast escreve notícias, análises, crônicas e especiais; no tempo livre produz roteiros autorais de séries e filmes. Criatividade, imaginação e curiosidade são algumas de suas características marcantes.


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