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Análise: Dawn, P.I. (Mobile) é uma singela carta de amor aos Adventures dos anos 1990

Criado por um brasileiro, esse jogo de apontar e clicar carrega consigo uma carga de nostalgia e lições do estilo que marcou uma geração.



Sim, é verdade que os "Adventures", que era o jeito que a gente chamava esses games de apontar o cursor na tela e clicar em pontos de interesse, já não vivem mais a sua época dourada. Mas volta e meia surgem alguns games que transbordam aquela pegada das saudosas desenvolvedoras Sierra e Lucas Arts. 

Dawn, P.I. é, sem dúvidas, um desses jogos. O título criado por Rodrigo Roesler, do estúdio brasileiro Rabbit Tell — que lá por meados da década de 2000 fez sucesso com jogos em Flash —, conta a história de Dawn, uma adolescente investigadora particular (o P.I., “private investigator”, do título) que precisa desvendar o misterioso desaparecimento de duas alunas da escola Marlowe.

Combinando itens com a ponta dos dedos

Para ajudar a solucionar esses mistérios, temos todos aqueles elementos clássicos dos games de apontar e clicar: dicas visuais pelo cenário; dicas textuais entregues pela heroína que gosta de falar consigo mesma; um inventário robusto de itens para aquela boa e velha tentativa e erro; e meia dúzia de personagens interessantes – mas pouco aproveitados – para interrogar conversar.


O gameplay é muito simples: arraste o dedo pela tela (ou o cursor do mouse, se for jogar a vindoura versão para PC) e interaja com os diversos pontos de interesse pelo cenário para solucionar os quebra-cabeças. Parece fácil, mas para quem não passou dias travado em um único puzzle naqueles Adventures da década de 1990, pode ser bem difícil conseguir progredir.

Entretanto, a verdade é que Dawn, P.I. está longe de ter aquele nível de dificuldade insano dos games do estilo que faziam sucesso no passado. Especialmente os da Sierra, que podiam fazer você perder todo o seu progresso com um simples clique no lugar errado. O jogo da Rabbit Tell tem quebra-cabeças lógicos, orgânicos, evitando as soluções sem pé nem cabeça que víamos nos títulos de antigamente.


Você até pode ficar trancado em algum momento, mas com um pouco de atenção e uma pitada de tentativa e erro (especialmente ao clicar e combinar itens no inventário), tudo se resolve. Ajuda bastante o fato de a interface na touchscreen ser, no geral, bem amigável e intuitiva. 

Versões e conteúdos

Dawn, P.I. possui uma versão grátis e outra completa, que pode ser comprada na Play Store ou App Store. A versão grátis entrega um jogo com início, meio e fim, mas com limitações: só permite que o usuário jogue no nível Fácil, que limita os troféus e esconde alguns segredos da história, além de contar com puzzles em menor número e simplificados. Na versão completa recebemos a aventura em sua melhor forma, com todos os desafios e detalhes do enredo.


Por falar em enredo, apesar de muito curto e raso, ele consegue instigar a curiosidade do jogador de forma constante com pequenos twists. Comecei a jogar Dawn, P.I. pensando em curtir sem pressa meu tempo com a aventura. Mas fiquei vidrado na telinha, sem conseguir largar o celular até resolver todos os mistérios da escola Marlowe. Em poucas horas, havia destravado todos os troféus e estava com um sorriso largo no rosto, vendo os créditos. Pena que durou tão pouco!

O ritmo é ótimo, mas não espere por muito desenvolvimento de personagens ou momentos hilariantes. O humor é agradável, mas bem bobinho. E os poucos personagens, apesar de interessantes, têm pouca profundidade. Acabamos passando pouquíssimo tempo com cada um deles e as interações são limitadas, resumindo-se a pequenos arcos de história — e puzzles a serem concluídos. Alguns personagens em especial mereciam ser mais bem trabalhados, como a peculiar bibliotecária Senhora Galápagos e sua obsessão pelo sobrenatural.


Já os mencionados troféus substituem de forma muito satisfatória os tradicionais sistemas de pontos que víamos em games do gênero, em especial os da saudosa Sierra. Para conquistar a maioria deles, basta progredir na história. Entretanto, os mais complexos exigem investigação e coleta de pistas que extrapolam os passos necessários para apenas terminar a aventura.

Gameplay clássico com arte moderna

Qualquer veterano dos velhos Adventures percebe logo de cara que Dawn, P.I. tem uma jogabilidade bem tradicional. Mas no aspecto visual, o título da Rabbit Tell é bem distinto daqueles velhos clássicos. No lugar das carregadas artes em pixel, sempre ricas em detalhes, temos um visual mais limpo e num estilo bem mais moderno, que quase lembra rabiscos em um caderno. O que, diga-se de passagem, ajuda muito na hora de encontrar os pontos de interesse nos cenários, sem aquele "pixel hunting" irritante dos games de antigamente.


Mesmo sem o charme pixelado dos clássicos, a arte com poucas cores e traços assimétricos (que logo me remeteu à Day of the Tentacle) é super agradável. Já nas limitadas animações podemos perceber que este se trata, de fato, de um pequeno jogo, feito por um pequeno "estúdio de um homem só". São raríssimos os momentos-chave da história que o título nos presenteia com animações lindas e detalhadas (às custas de algumas portas destruídas), mas no geral temos pouco movimento na tela.

Enquanto o visual moderno pode agradar alguns e desagradar aos mais nostálgicos, ninguém pode negar a enorme limitação na parte sonora. A sonoplastia é praticamente inexistente e as músicas, apesar de agradáveis, são poucas e extremamente repetitivas. Em jogos neste estilo, em que podemos ficar horas olhando para uma mesma tela, isso pode deixar a experiência geral ligeiramente mais cansativa.

Não deixando a chama morrer

As diversas referências aos clássicos, presentes neste curto e agradável jogo de apontar e clicar, não me deixam mentir: Dawn, P.I. é uma singela homenagem aos grandes Adventures que marcaram uma geração nos PCs dos anos 1990. Mas ao mesmo tempo em que o título brasileiro anda nos ombros de gigantes, se esforça para se desprender de algumas amarras daquela época, entregando um gameplay mais acessível, com puzzles orgânicos e ritmo excelente. Está longe de ser revolucionário, mas mesmo com suas limitações tem todos os elementos necessários para agradar a velhos e novos fãs do estilo.

Prós:

  • Interface amigável e tela de toque funcionam perfeitamente para o estilo;
  • Desafio na medida certa com puzzles orgânicos e dicas sutis;
  • Visual limpo e agradável, que facilita a exploração dos cenários;
  • Jogo brasileiro, em PT-BR.

Contras:

  • Sons limitados e músicas repetitivas;
  • Pouco desenvolvimento de personagens e história rasa.
Dawn, P.I. – Android/iOS – Nota: 8.0
Versão utilizada para análise: Android
Revisão: Farley Santos
Análise feita com cópia digital cedida pela Rabbit Tell

Comunicador e colecionador. Já foi Sega kid e Nintendo kid, agora é retro "kid". Está no Twitter em @carloscirne e faz vídeos no YouTube no canal CirneStuff.


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