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Análise: Paradise Lost (Multi) é um evento pós-guerra contemplativo e humano que fracassa na jogabilidade

Controle Szymon, um garoto de 12 anos, e explore um abrigo nazista abandonado, onde a mitologia eslava se mistura com a tecnologia retrofuturista.

O conceito de realidade alternativa vem sendo utilizado com muito mais frequência em grandes obras cinematográficas e interativas nos últimos anos. Distorcer e alterar certos eventos históricos do mundo real permitiu criar narrativas abrangentes e interessantes, portanto os estúdios de jogos eletrônicos resolveram explorar todas essas possibilidades.

Desenvolvido pela PolyAmorous e publicado pela All in! Games para PC, PlayStation 4, PlayStation 5, Xbox One e Xbox Series X, Paradise Lost é uma aventura narrativa que retrata alguns dos principais acontecimentos pós-Segunda Guerra Mundial de outra realidade. Presencie um poderoso evento contemplativo e humano enquanto acompanha Szymon, um garoto de 12 anos que procura por um homem desconhecido em uma ex-base subterrânea nazista.

Um bunker cheio de histórias

Em Paradise Lost, a Segunda Guerra Mundial se estendeu até meados de 1960, quando os nazistas lançaram bombas nucleares de alta potência e transformaram a Europa em um inabitável deserto consumido pela radiação. Para sobreviver, o grupo comandado por Adolf Hitler resolveu construir bunkers repletos de tecnologia de ponta para se abrigar, prosperar e principalmente preservar a “raça ariana”. No entanto, a tentativa de criar um paraíso no subsolo fracassou e os próprios alemães vieram a morrer nos anos que se seguiram.

Duas décadas depois, quando o nível de radiação caiu drasticamente, um menino de 12 anos chamado Szymon encontra um desses bunkers secretos na Polônia e decide explorá-lo para descobrir quem é o homem de uma fotografia antiga de sua falecida mãe. Ao entrar nesse subsolo nazista, o garoto descobre que não é o único que está ali e uma voz misteriosa começa a lhe pedir ajuda pelos sistemas de monitoramento. Juntos, Szymon e Ewa (como é chamada a voz) partem em uma jornada emocionante e profunda, descobrindo as verdades horríveis do período da Segunda Guerra e da natureza de ambos.

O título da PolyAmorous é dividido em três arcos narrativos que se conectam para formar uma única e emotiva história. A trama principal se concentra em questionar o jogador sobre quem é o homem da fotografia da mãe de Szymon enquanto os outros dois arcos estão relacionados à utilização do bunker pelos nazistas durante a Segunda Guerra Mundial e a quem é Ewa, a pessoa por trás da voz que segue o protagonista pelo local. Ao explorar cada cenário, você encontrará documentos, registros de áudio e terminais de computadores que contam a história do bunker e das pessoas que ali viviam, incluindo a do homem que Szymon procura.

Paradise Lost apresenta uma única e impressionante narrativa que cruza elementos reais e ficcionais para mostrar ao jogador uma sociedade abalada pelo medo. É uma história profundamente humana sobre solidão, já que o protagonista percorre esse caminho – muitas vezes aterrorizante – sozinho.

Sua atmosfera é densa e, conforme você avança na história, ela dá mais peso para algo profundamente humano. Toda a construção do bunker em questão é satisfatória, deixando os sentidos do jogador aguçados para quaisquer perigos. Você vai notar o aço enferrujado das estações de trem, os monumentos nazistas e luzes vermelhas sombrias refletidas em lugares muito específicos. Tudo isso traz uma sensação extrema de solidão, medo e terror. Abrir uma porta é apavorante e isso faz o jogo ser bastante profundo. Toda a atmosfera é auxiliada pelo design de som exemplar que destaca qualquer ruído, perfurando o silêncio inquietante.

No entanto, como qualquer boa aventura com foco em narrativa, o jogo também pede para você selecionar opções de diálogo que podem ou não afetar o rumo do jogo. Aparentemente, esse conceito introduzido em títulos famosos como Life Is Strange (Multi) não funciona muito bem aqui, e não consegui entender direito o motivo da inclusão, porque nenhuma dessas opções tem um impacto real na experiência (exceto pela cena final) e você acaba sempre indo para a mesma direção, independente da resposta.

Uma jogabilidade descartável

Em relação à jogabilidade e ao nível de desafio, Paradise Lost é extremamente genérico. Não que isso tenha me incomodado tanto, porque toda a parte narrativa e atmosférica permitiu que ainda pudesse me manter curioso o suficiente para finalizá-lo. Acredito que o principal objetivo do desenvolvedor foi contar uma história e fazer com que o jogador absorvesse as sensações provindas dos cenários, os mesmos critérios que a Thatgamecompany utilizou para criar Flower (Multi) ou Journey (Multi). Isso é perfeitamente aceitável, porque às vezes é bom consumir algum produto interativo que não exija que você aperte os botões como louco para não morrer.

As únicas ações que você terá que fazer no jogo é se movimentar de um ponto A até um ponto B, abrir portas, empurrar alavancas, interagir com objetos e ocasionalmente pular para chegar a novas áreas. Nada disso apresenta um senso de desafio notório, porque os únicos quebra-cabeças que existem requerem que você encontre cartões de acesso que estão visíveis no cenário.

Eu consegui finalizar a experiência por conta da minha curiosidade pela narrativa, mas ainda assim tenho que criticar a movimentação de personagem engasgada e lenta e a repetição de ações. Szymon se move tão devagar que chega a ser irritante e o jogador provavelmente vai passar cerca de cinco horas agoniado com sua lentidão.

Outro ponto é que você terá que abrir muitas, mas muitas portas durante a jornada, e fazer isso repetidas vezes é chatíssimo. O título também possui alguns bugs visuais, como documentos não legíveis graças a um problema que deixa a tela toda preta. Travamentos indesejados ocorrem repentinamente e, embora não feche o jogo por conta de um erro de leitura ou no sistema do PlayStation 4, ainda demora cerca de 30 segundos para que os comandos voltem a responder. Mecanicamente falando, Paradise Lost não tem nada a compartilhar com outros jogos no quesito jogabilidade, porque, para ser sincero, eles são usuais e ruins demais. No entanto, se você conseguir ignorar isso e quiser aproveitar a história e a atmosfera histórica, valerá a pena.

Abrir portas e gavetas é uma ação repetitiva, porque segue sempre o mesmo padrão.

Sublime para alguns, genérico para outros

Paradise Lost apenas se sustenta por meio de uma atmosfera contemplativa e de uma narrativa profundamente humana, já que sua jogabilidade genérica, repetitiva e sem desafios deve afastar boa parte do público. Carregado de nuances, o título da PolyAmorous é um conto histórico comovente sobre os horrores da guerra, bem como das faces do luto e da solidão, indicado somente para aqueles que não estão interessados em apertar botões exageradamente ou quebrar a cabeça para resolver puzzles.

Prós

  • Narrativa poderosa e humana sobre solidão;
  • Ótima construção de mundo com atmosfera e cenários detalhados e belos;
  • Trilha e efeitos sonoros excelentes.

Contras

  • Movimentação de personagem engasgada e lenta;
  • Níveis de desafio e quebra-cabeças inexistentes;
  • Opções de diálogo sem impacto real na narrativa.
Paradise Lost  PC/PS4/PS5/XBO/XSX  Nota: 6.5
Versão utilizada para análise: PS4
Revisão: Ives Boitano
Análise produzida com cópia digital cedida pela All in! Games

é entusiasta e apreciador de jogos com conceito artístico minimalista e narrativas de significado profundo. No GameBlast escreve notícias, análises, crônicas e especiais; no tempo livre produz roteiros autorais de séries e filmes. Gosta de descobrir os segredos do universo em Outer Wilds, enquanto espera por Rayman 4.


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