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Análise: Dandy Ace (PC) é um viciante e estiloso roguelike brasileiro

O novo jogo da Mad Mimic oferece uma aventura repleta de possibilidades e dificuldade acentuada.


Em Dandy Ace, um mágico precisa usar todos os seus truques para escapar de um palácio amaldiçoado. O maior destaque deste roguelike de ação é a grande variedade de feitiços, cujos efeitos podem ser combinados de maneiras criativas a qualquer momento. Produzido pelo estúdio brasileiro Mad Mimic (de No Heroes Here e Mônica e a Guarda dos Coelhos), o jogo empolga com seus combates intensos e atmosfera carismática, contando, inclusive, com dublagem em português. Alguns problemas comuns de roguelikes, como um pouco de repetição, atrapalham o andamento, mas a experiência, no geral, é bem divertida.

Fugindo de um palácio amaldiçoado

O galante ilusionista Dandy Ace encanta multidões com seu carisma e ótimos truques mágicos. Com isso, sua fama cresce e ele passa a ser considerado um dos melhores do mundo. Mas nem todos concordam com isso: Lele, também conhecido como o Ilusionista de Olhos Verdes, vê Ace como um charlatão que roubou seu lugar de destaque. Tomado pela inveja, Lele decide usar um espelho amaldiçoado para mandar seu rival para um mundo paralelo. Preso em um lugar estranho, Ace e suas assistentes vão precisar descobrir uma maneira de fugir.


Para escapar do Palácio Que Sempre Muda, Ace terá que derrotar o Ilusionista de Olhos Verdes, que está esperando na sala do trono. Sendo assim, o galante mágico explora diferentes áreas do castelo em uma aventura de ação focada em combates. O local está repleto de perigos e armadilhas, o que resulta em morte ao agir de forma descuidada. Ao ser derrotado, Ace perde os itens coletados e volta para a entrada do palácio, e cada tentativa oferece uma jornada única, pois os mapas são gerados proceduralmente.

Para atacar os vários monstros que aparecem pelo caminho, Ace utiliza diferentes cartas mágicas, divididas em três categorias. Os feitiços azuis oferecem movimentos de locomoção, como investidas para escapar de inimigos. As cartas de cor rosa contam com ataques diretos, como um punho mágico, bolhas explosivas ou flechas de energia. Já os encantamentos amarelos apresentam efeitos mais diversos, como uma explosão de veneno, uma aura que aumenta a defesa do herói ou correntes que prendem os inimigos. Novas magias podem ser encontradas em baús ou compradas em lojinhas espalhadas pelo palácio.


Além de muitas opções de feitiços, há muita flexibilidade na hora de montar e escolher as habilidades. Ace pode equipar até quatro ações diferentes, e podemos colocar duas cartas em cada um dos espaços — o local escolhido influencia como a magia funciona. No modo principal, podemos ativar a ação básica da carta ao apertar o botão correspondente; já cartas colocadas no espaço secundário modificam o feitiço principal com um efeito de melhoria. As possibilidades são vastas: socos mágicos passam a infligir veneno, uma explosão pode paralisar inimigos, a investida é capaz de aumentar a defesa ao ser ativada, e muito mais. As configurações dos feitiços podem ser alteradas a qualquer momento no menu de pausa.

Dandy Ace é um roguelite, o que significa que há progressão entre as partidas. Com a ajuda de suas assistentes JollyJolly e JennyJenny, e por meio de Fragmentos do Espelho, o herói desbloqueia permanentemente recursos, como xícaras de chá que recuperam a vida, novas cartas que podem aparecer em tentativas futuras e acessórios com efeitos passivos. Já chaves escondidas por áreas do palácio abrem portões que permitem acessar diferentes estágios. Esses recursos fazem com que a aventura se torne, aos poucos, mais diversa. Há também o modo Twitch, que permite que a audiência dos streamers influencie o andamento do jogo.
 


Testando e improvisando truques para enfrentar os perigos

Ação intensa e ininterrupta é uma constante em Dandy Ace. A jornada do mágico é repleta de embates frenéticos: sempre há muitos inimigos diferentes para enfrentar simultaneamente, fazendo com que sobreviver seja um desafio. Além de dominar os feitiços de Ace, precisamos também ficar atentos aos elementos do cenário, pois é fácil ser cercado e morto — muitas vezes fui derrotado justamente por não levar esse detalhe em consideração.

O sistema de cartas, que permite misturar os efeitos das magias, é o meu aspecto favorito de Dandy Ace. No meu tempo de jogo, testei inúmeras combinações: coloquei um feitiço de paralisia em uma varinha mágica que salta entre inimigos para afetar vários de uma vez; criei uma espada de energia que diminuía a defesa do inimigo, o que me permitiu derrotá-los rapidamente; usei uma bolha explosiva em conjunto com um feitiço de empurrar para deixar os monstros bem longe de mim.


A flexibilidade dessa mecânica me permitiu trocar de estratégia várias vezes durante os combates, o que foi útil para corrigir alguma abordagem que não estava funcionando. Há incentivo constante para alterar as técnicas com cartas em baús, lojas ou como recompensas de combates. Além disso, me surpreendi com a grande variedade de feitiços e recursos, que tornam as partidas bem divertidas e diversificadas. No começo a seleção é um pouco limitada, mas logo as opções se expandem e o jogo fica mais interessante.

Dominar os feitiços e se adaptar às situações é essencial em Dandy Ace, pois a dificuldade é acentuada. A maioria dos combates tem grande quantidade de inimigos, e as coisas ficam bem tensas quando eles se juntam. Há monstros que atiram de longe, criaturas que perseguem Ace, inimigos que fortalecem outros inimigos, oponentes ágeis com ataques difíceis de escapar, e mais. Alguns cenários contam também com armadilhas que, com cuidado, podem ser utilizadas contra os monstros.


Esses aspectos nos forçam a pensar estrategicamente e, por isso, precisei avaliar com cuidado cada embate: ataco primeiro aquela torre chata que lança bolas de fogo ou é melhor acabar com esse monstro que me persegue constantemente? Os chefes, em especial, são ainda mais complicados, pois misturam inimigos normais com o grande e poderoso mestre. Mesmo com indicações claras dos ataques dos chefes, penei para derrotá-los, muitas vezes por muito pouco; mas é ótima a sensação de triunfo ao sair vitorioso desses encontros complicados.
 


Algumas falhas no show de ilusionismo

A dificuldade de Dandy Ace é intensa, mas justa, na maior parte do tempo. As melhorias desbloqueáveis ajudam um pouco na sobrevivência, como xícaras de chá que recuperam a vida, um recurso que permite melhorar as cartas, acessórios com efeitos diversos (aumentar a defesa, fortalecer os feitiços sobre certas condições, conseguir mais dinheiro). No entanto, elas são somente um auxílio; o que conta de fato é a habilidade do jogador. No começo eu mal conseguia passar da primeira área, mas, conforme fui entendendo as nuances e testando novas combinações, eu consegui chegar mais longe.


Contudo, alguns pontos incomodam na aventura do galante mágico. Para começar, a variedade de situações é limitada e se resume a combates similares. Uma ou outra sala tem duas ondas de inimigos, mas fora isso é sempre do mesmo jeito. Para piorar, as áreas do palácio são bastante parecidas, sendo a principal diferença uma ou outra armadilha e a seleção de inimigos. Até mesmo o formato das arenas é semelhante. Por causa disso, com o tempo, as coisas ficam um pouco repetitivas. Diferentes feitiços e rotas ajudam a quebrar essa sensação, mas não são completamente suficientes.

Outra questão é o caos visual. Às vezes há tantos elementos na tela que é difícil entender de fato o que está acontecendo. E o problema é que no meio dessa confusão é fácil não saber exatamente onde está Ace e, para piorar, ele às vezes fica preso em algum elemento do cenário. Nesses momentos, a reação natural é utilizar a habilidade de investida para escapar, mas a maior parte delas não tem quadros de invencibilidade e não impede que o herói esbarre em algo, resultando em dano ou derrota. Com o tempo aprendi a lidar com isso ao evitar áreas com objetos ou ao me afastar da bagunça visual, mas não deixa de ser um pouco desagradável.
 


Um espetáculo de carisma

Dandy Ace encanta com sua ambientação estilosa e colorida. O universo do jogo abusa das cores rosa e roxo, e há vários elementos que resgatam o tema de mágicos e ilusionistas: cartolas, cortinas, cartas, varinhas e mais. Já o Palácio Que Sempre Muda tem até boa diversidade de áreas, como salão, galeria, jardim e loja de souvenires. Só é uma pena que visualmente eles não sejam tão distintos assim, mesmo com vários objetos diferentes nos cenários.


O charme maior é o elenco carismático de personagens. Ace cativa com sua personalidade relaxada e galanteadora, sempre fazendo comentários curiosos sobre as situações. Já Lele diverte com sua acidez atrapalhada bem estilo vilão pastelão. Os demais personagens têm destaque menor, mas ajudam a deixar as cenas envolventes. Os diálogos, que estão completamente dublados, são simples e divertidos, contando com referências e piadas, por mais que os comentários constantes de Lele irritem um pouco — recomendo alterar a frequência deles nas opções.

É notável o fato de que Dandy Ace está completamente dublado em português e em inglês. O elenco de vozes é composto por inúmeros influenciadores brasileiros e o resultado é bom — claro, levando em conta as limitações de não ser um trabalho profissional. Um ponto que me incomodou na dublagem nacional é o volume desregulado, que apresenta variações durante um mesmo diálogo, mas não é nada que ajustes futuros não resolvam. Já a dublagem em inglês me surpreendeu com sua qualidade acima da média e fez diferença na minha experiência de jogo.
 


Uma performance mágica e fascinante

Dandy Ace se revela um ótimo roguelike de ação. Seu aspecto mais notável é o sistema flexível de feitiços que permite misturar efeitos de inúmeras maneiras, explorado em combates que exigem readaptação constante — parte da diversão é justamente encontrar combinações poderosas de ataques. Um universo estiloso e com personagens carismáticos torna a aventura envolvente, e há bastante conteúdo para desbloquear. Um ponto problemático é a variedade limitada de cenários e situações, o que pode trazer sensação de repetição a longo prazo. No fim, Dandy Ace é uma experiência frenética que vale a pena ser conferida.

Prós

  • Ótimo sistema de combinação de feitiços que oferece inúmeras possibilidades;
  • Grande quantidade de cartas de habilidades para desbloquear e testar;
  • Dificuldade intensa, mas justa;
  • Ambientação estilosa com muita cor, personagens carismáticos e boa dublagem.

Contras

  • Variedade reduzida de situações pelas fases traz sensação de repetição;
  • Visual similar entre as diferentes áreas do jogo;
  • Confusão visual às vezes atrapalha o andamento das partidas.
Dandy Ace — PC — Nota: 8.5
Revisão: Ives Boitano
Análise produzida com cópia digital cedida pela Neowiz/Mad Mimic



é brasiliense e gosta de explorar games indie e títulos obscuros. Fã de Yoko Shimomura, Yuzo Koshiro e Masashi Hamauzu, é apreciador de roguelikes, game music, fotografia e livros. Pode ser encontrado no seu blog pessoal e nas redes sociais por meio do nick FaruSantos.


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