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Análise: Titan Quest: Legendary Edition (Mobile) é um RPG clássico assombrado por uma interface de usuário pouco amigável

Edição definitiva para smartphones vem com o jogo base e os DLCs Immortal Throne, Ragnarok e Atlantis.

Titan Quest é um clássico RPG de ação hack and slash, lançado originalmente em 2006 para PC, e acompanha um guerreiro espartano pela Grécia Antiga, pelo Egito e pela China em uma missão inédita a fim de derrotar os Titãs que escapam da prisão. O título foi publicado pela THQ Nordic e, ao longo de dez anos, passou pelas mãos de inúmeras desenvolvedoras, as quais produziram DLCs e novas versões de jogo para diversos dispositivos, incluindo os consoles da atual geração e dispositivos móveis. Destacam-se nesta lista Titan Quest: Anniversary Edition e as expansões Immortal Throne, Ragnarok e Atlantis.

Visto que Titan Quest é uma série de videogames clássica e ainda popular, no início de 2021 a HandyGames lançou uma versão definitiva do RPG para dispositivos móveis chamada de Titan Quest: Legendary Edition, que inclui o jogo base e todos os DLCs. O port para smartphone é um prato cheio para quem deseja ter um vislumbre completo da experiência na tela pequena, mas pode causar alguns desconfortos indesejáveis por conta de uma interface de usuário pouco amigável.

A ascensão dos novos titãs

Titan Quest começa uma cutscene ágil revelando que, há muito tempo, os Titãs governaram a escuridão primordial, resultando em um vasto cenário de caos e desolação pelo mundo. Tudo mudou quando os Deuses do Olimpo apareceram e, por meio de uma grande e devastadora guerra, conseguiram exilar e prender os inimigos, dando início à era dourada para o mundo mortal.

No entanto, alguns anos mais tarde, um trio de titãs menores, chamados de Telkines, surgiram e convocaram seus exércitos de monstros para aterrorizar o mundo novamente, restando somente um guerreiro espartano com coragem suficiente para encará-los, buscar por respostas e acabar com a ameaça. O personagem então viaja pelos mais vastos cantos do mundo, incluindo Grécia, Egito e China, e aprende mais sobre os novos Titãs, a fim de derrotá-los.

É impressionante destacar como Titan Quest não envelheceu quase nada em pouco mais de dez anos e continua sendo uma referência global para o mercado de jogos eletrônicos, principalmente para aqueles desenvolvedores que desejam contar uma história sobre mitologia antiga. Além de Titan Quest, os anos 2000 parecem ter impulsionado esse conceito narrativo com o início da famosa série God of War, do PlayStation.

Eu diria que a narrativa do jogo base em si não é nada surpreendente, mas perfeitamente criada para absorver os aspectos jogáveis e moldar o mundo mitológico rico no qual foi baseado. É uma história que cumpre o seu papel, é ótima para entender o universo no qual o jogo está inserido e conhecer alguns deuses antigos, embora não demonstre muito mais do que isso. Para os jogadores que procuram um pouco mais de essência narrativa, as expansões possuem mais vantagens.

Immortal Throne foi o primeiro DLC, lançado em 2007. Nele, o herói atravessa os portões de Elysium e vai para o submundo de Hades investigar uma nova onda de ataques de monstros. Ragnarok foi lançado juntamente com Titan Quest: Anniversary Edition, em 2017, e introduz alguns conceitos da mitologia nórdica, em que o herói explora a cidade de Corinto, na Grécia. Atlantis chegou ao jogo base em 2019 e foi a primeira expansão não relacionada diretamente com o enredo principal. Nela, o herói e um explorador partem em busca da lendária cidade perdida de Atlântida.

Titan Quest: Legendary Edition tem uma quantidade abundante de conteúdo e, para aqueles que buscam uma experiência longínqua de RPG no celular, é uma boa recomendação. Essas três aventuras integradas ao jogo base apresentam novos locais, novos equipamentos e novos monstros para ampliar sua jornada e tem um reforço narrativo maior. No entanto, antes de decidirem se vão adquirir o título ou não, fiquem atentos a alguns problemas jogáveis que podem desestimular sua aventura.

Enfrentando criaturas mitológicas pelo mundo

Em Titan Quest: Legendary Edition, você deve controlar um avatar personalizado por um mundo tridimensional e em perspectiva isométrica enquanto entra em combate com hordas inimigas de monstros mitológicos. Por meio da tela sensível ao toque do smartphone, você seleciona os respectivos comandos; no lado esquerdo da tela está a navegação, onde você movimenta o personagem em diferentes ambientes do mapa, no lado direito estão os comandos de ataque, onde você transfere golpes de espada, arco e flecha, e utiliza habilidades especiais e magias.

À medida que você progride na aventura, seja eliminando monstros ou realizando missões secundárias obtidas ao falar com NPCs espalhados pelos ambientes, ganhará pontos de experiência que aumentam o nível do personagem e fornecem atualizações de atributos como saúde, energia, destreza, inteligência e força.

Para cada nível alcançado, você também poderá atualizar poderes na forma de magias, chamadas de Masteries. Isto é, sistemas de atualizações baseados em árvore de habilidades. Existem dez Masteries no total (oito no jogo base e duas nos DLCs Immortal Throne e Ragnarok) incluindo Guerra, Espírito, Natureza, Sonho, Tormenta, Terra, Defesa, Runas, Caça e Astúcia. Cada domínio apresenta habilidades específicas que o auxiliam durante as batalhas e influenciam sua experiência.

No começo da jornada ,no nível 2, você poderá escolher a primeira Masterie para ir atualizando até o nível 8, quando o jogo permite que você escolha uma segunda. Isso vai auxiliá-lo na criação de jogadas mais complexas, utilizando várias combinações novas e, assim, permitindo derrotar monstros mais poderosos com facilidade. A combinação de Masteries cria diferentes classes de personagens que se tornam mais poderosos à medida que o jogo se desenrola. Depois de um determinado momento, você também terá acesso a NPCs que podem realocar pontos de habilidades mediante pagamento, o que significa que será possível mudar de classe durante a aventura.

Uma interface de usuário pouco estimulante

Tenho que admitir que o sistema de habilidades robusto e inteligente é um dos maiores pontos fortes do título, pois fornece uma ampla gama de possibilidades para o jogador realizar uma viagem digna por esse brilhante mundo mitológico.

Titan Quest é um hack and slash com combates em tempo real, por isso, além das magias propriamente ditas, também existem inúmeras armas de combate para atacar inimigos gerados aleatoriamente no mapa. Entre o arsenal de ferramentas estão espadas, arcos, machados e bastões que podem ser atualizados com melhorias para desferirem golpes mais poderosos. Também existem diversas armaduras e outros cosméticos que servem para aumentar a defesa do jogador.

Esses equipamentos podem ser coletados de inimigos derrotados, em baús espalhados pelos ambientes ou ainda comprando por meio de um NPC nos acampamentos, vilas e cidades que você explora. Cada um desses itens possuem uma variante de qualidade; a cor cinza representa baixa qualidade, roxo é classificado como algo lendário e laranja indica relíquia.

Ao entrar em uma batalha e acidentalmente morrer, o seu personagem renascerá em fontes místicas espalhadas pelo mundo. Elas funcionam como uma espécie de checkpoint e geralmente estão localizadas em regiões importantes do mapa, como vilas, acampamentos e cidades, mas também podem aparecer em campos abertos se houver muitos inimigos ou tarefas secundárias por perto.

As missões são divididas em duas categorias: principais e secundárias. As principais estão relacionadas à narrativa central, enquanto as secundárias estão disponíveis em áreas específicas do mundo e geralmente são fornecidas por outros NPCs. É possível interagir com muitos desses personagens controlados por IA para saber mais sobre os deuses antigos e as culturas locais. São poucos os que oferecem missões extras e, mesmo que tenham alguma, elas são na maior parte do tempo repetitivas e não oferecem uma recompensa estimulante.

O imenso mundo criado para o jogo é muito bem detalhado e convidativo para a exploração. Enquanto as vilas e os acampamentos são vazios, solitários e sem nenhuma atividade prazerosa a se fazer, os cenários abertos são recheados de inimigos, sejam corvos, águias, centauros ou mesmo bruxos perigosos. É ação para todo lado, por onde quer que você ande. O conceito artístico e a trilha sonora clássica foram mantidos, mas as cutscenes não receberam o devido polimento e são borradas.

Embora a jogabilidade hack and slash seja sólida, parece que a HandyGames não se atentou às principais críticas atribuídas à interface de usuário da versão base lançada para Android e iOS há alguns anos. Titan Quest: Legendary Edition se assemelha e encontra os mesmos empecilhos jogáveis e possui algumas decisões de design contraditórias que podem afetar diretamente a sua experiência.

O fato é que, além de desferir ataques, o comando do lado direito da tela também serve para coletar itens e interagir com os NPCs. Isso gera uma certa confusão, já que nem sempre a ação projetada no jogo é a que desejamos. Um bom exemplo é o que ocorre durante um combate intenso com muitos inimigos e itens para coletar no chão. Ao eliminar um monstro, o comando nunca sabe o que deve fazer primeiro, se é atacar o próximo ou coletar os itens deixados no chão.
 
Se o jogador pudesse definir no que focar primeiro, seria menos hostil, mas é tudo muito rápido e quando você vê terá que sair correndo daquele caos para não morrer, porque deixou de matar para ficar coletando equipamentos. O mesmo ocorre em outro cenário, quando você deseja pegar uma poção de cura do chão para não morrer, mas a ação da vez é o ataque. Além disso, falar com NPCs específicos também é problemático, porque em alguns momentos você precisa mover o personagem aleatoriamente pelo cenário próximo a ele para que o menu identifique a opção de falar com a pessoa e não a de batalha ou a de coleta.

Outro ponto que deixa a desejar é a administração de recursos no inventário, pois os itens são extremamente pequenos e, para analisá-los, é preciso selecioná-los meticulosamente com o dedo. Amuletos e relíquias de armaduras são ridiculamente minúsculos e utilizar a tela sensível ao toque para levá-los a um slot específico é uma tarefa irritante.

A interface de usuário é uma das piores que já vi dentre tantos jogos mobile que testei, parecendo simplesmente que o desenvolvedor não soube portar as mecânicas do PC para um dispositivo de tela menor. Mesmo funcionando perfeitamente e sem travamentos em meu ASUS Zenfone 3, Titan Quest: Legendary Edition se torna maçante por conta de quesitos relacionados ao gameplay, pois as ações jogáveis começam a ficar repetitivas depois de um tempo, bem como as missões e outras tarefas.

Um clássico, completo e regular RPG de ação no celular

Titan Quest é uma experiência de hack and slash robusta que se mantém enaltecida no tempo por meio de seus conceitos mitológicos bem detalhados e de seu mundo recheado de ação.

Infelizmente, Titan Quest: Legendary Edition não consegue chegar aos pés de sua versão para PC neste port mal projetado para dispositivos móveis. Ainda que ele traga todo o conteúdo lançado até hoje, mantendo seu rico sistema de habilidades e suas narrativas interessantes, essa nada mais é que a versão definitiva de um RPG de ação arruinado por uma interface de usuário pouco amigável.

Prós

  • Grande quantidade de conteúdo jogável em um único pacote;
  • Sistema de habilidades robusto;
  • Narrativas interessantes, embora não muito surpreendentes;
  • Mundo bem detalhado e ótimo para ser explorado.

Contras

  • Interface de usuário pouco amigável;
  • Missões secundárias repetitivas;
  • Jogabilidade se torna cansativa depois de um tempo.
Titan Quest: Legendary Edition - Android/iOS - Nota: 6.0
Versão utilizada para análise: Android
Revisão: José Carlos Alves
Análise produzida com cópia digital cedida pela HandyGames

é entusiasta e apreciador de jogos com conceito artístico minimalista e narrativas de significado profundo. No GameBlast escreve notícias, análises, crônicas e especiais; no tempo livre produz roteiros autorais de séries e filmes. Criatividade, imaginação e curiosidade são algumas de suas características marcantes.


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