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Análise: Ys IX: Monstrum Nox (PS4) — explorando uma vasta cidade em um empolgante RPG de ação

O novo jogo da série resgata conceitos do título anterior em uma aventura divertida, mas conservadora.


Em Ys IX: Monstrum Nox, novo título da longa série de RPGs de ação, o aventureiro Adol Christin obtém poderes especiais após ser amaldiçoado, mas agora está preso em uma cidade. Com habilidades sobrenaturais, os heróis conseguem explorar os cenários com versatilidade, introduzindo uma verticalidade nunca vista antes na franquia. O jogo resgata e expande conceitos do episódio anterior em uma aventura com combates intensos e muito para ver, por mais que a ambientação não seja muito interessante.

Amaldiçoado e confinado em uma imensa cidade

Em uma de suas viagens, o aventureiro Adol Christin e seu amigo Dogi decidem visitar a famosa cidade-prisão Balduq. Chegando lá, Adol é preso, acusado de “espalhar boatos absurdos” por todo o Império. Acreditando que sua detenção é injusta, o herói monta um plano e consegue escapar da prisão. No entanto, a real aventura começa durante a fuga, quando ele encontra uma estranha mulher chamada Aprilis. A garota dá um tiro em Adol e o transforma em um Monstrum, um ser amaldiçoado com habilidades especiais, mas confinado à cidade de Balduq.


O aventureiro, que agora é conhecido como Crimson King, é forçado a se esconder da guarda local, ao mesmo tempo que precisa colaborar com outros Monstrums, enfrentando criaturas violentas em uma dimensão paralela. Mesmo assim, Adol vai tentar descobrir uma maneira de quebrar a maldição para finalmente conseguir deixar a cidade. Logo ele percebe que a tarefa não será fácil: algum poder maligno se espalha pela prisão do local e será necessário resolver inúmeros mistérios para reverter a situação.

Assim como outras séries de RPG, cada episódio de Ys conta com uma aventura única e pode ser aproveitado de forma independente. Os jogos compartilham alguns elementos, como a presença constante de Adol e Dogi e o sistema de combate de ação. Existem também algumas referências a outros títulos, mas elas funcionam mais como easter eggs.
 


Usando poderes para desbravar uma cidade elaborada

Ys IX: Monstrum Nox tem estrutura bem tradicional e para fazer a trama avançar basta completar as missões principais. Mas a progressão não é trivial: muitas partes da cidade, em um primeiro momento, estão protegidas por barreiras. Para quebrá-las, é necessário completar tarefas, explorar regiões e derrotar monstros em combates especiais. As áreas que podem ser visitadas no início são bem limitadas, mas, aos poucos, o universo do jogo se expande.

A grande novidade deste episódio são os Gifts, habilidades de navegação especiais de cada um dos Monstrums. Adol começa a aventura com o poder de se teletransportar instantaneamente para diferentes pontos do cenário e o repertório de ações se expande conforme outros personagens se juntam ao grupo, como escalar paredes, planar pelo ar ou se esconder nas sombras.


Gostei bastante dessas várias técnicas de locomoção, pois trazem uma verticalidade e uma fluidez à exploração nunca antes vistas na série. A cidade de Balduq e seus calabouços nos convidam a utilizá-las constantemente com construções elaboradas e muitos segredos escondidos, e várias partes só podem ser acessadas após obter habilidades específicas. É bem agradável usar um dos Monstrums para correr por paredes, explorar telhados, flutuar pelos ares e mais em busca de itens escondidos ou novos locais.

A aventura está restrita a Balduq, mas há muito o que fazer na imensa cidade. Além dos vários colecionáveis (como pétalas azuis e grafites espalhados nas paredes), Adol pode fazer várias outras tarefas, como completar missões opcionais, encontrar pontos turísticos e lojas, mapear áreas ou procurar materiais para construir equipamentos. Há também um bar que serve de base para os heróis com vários recursos úteis, e novos personagens vão pra lá conforme a trama avança.


A progressão de Monstrum Nox é sequencial e cada capítulo repete a fórmula de missões de história com um calabouço no fim. Felizmente, o ritmo é bem dosado entre exploração de áreas mais abertas e trechos mais lineares. Os calabouços contam com caminhos diretos, mas há várias partes opcionais que só podem ser alcançadas com o uso correto dos poderes. Mesmo assim, achei um pouco preguiçoso limitar o acesso a áreas da cidade com barreiras — com algumas mudanças de design, seria possível utilizar as habilidades de locomoção para o mesmo fim.

No frenesi variado das batalhas

Adol e seus companheiros enfrentam inúmeros inimigos em combates em tempo real de ritmo acelerado, como é de praxe da série. Além de golpes com a arma principal, cada personagem também é capaz de executar técnicas especiais, esquivar, bloquear ataques, e mais. Cada herói tem um estilo diferente de luta e é possível alternar entre eles instantaneamente durante os embates — uma ação necessária, já que os monstros são vulneráveis a certos tipos de dano.

O sistema de combate de Ys IX não conta com grandes novidades em relação aos últimos títulos, mas funciona muito bem. A ação é sempre frenética e lembra um hack ‘n slash, mas há alguns elementos estratégicos bem interessantes. Esquivar momentos antes de ser atingido por um ataque deixa tudo em câmera lenta, o que possibilita golpear rapidamente os inimigos. Já bloquear na hora certa faz com que todos os ataques se tornem mais poderosos por alguns segundos. Para executar essas técnicas avançadas, é essencial ficar atento aos movimentos dos oponentes, já que o intervalo de tempo para ativá-las é bem curto.


O combate alterna entre dois estilos. Boa parte dos confrontos é trivial e basta atacar de qualquer jeito para vencer; já alguns inimigos, como monstros maiores, exigem maior cuidado para serem derrotados. Gostei, em especial, das batalhas contra os chefes: é essencial ficar atento aos seus padrões de ataque para escapar e golpear no momento certo. Alguns mestres, inclusive, exigem o uso dos Gifts, como planar para evitar espinhos que aparecem na arena ou subir por paredes para alcançar criaturas voadoras.

Há também eventos especiais com elementos de tower defense, como em Ys VIII: Lacrimosa of Dana. Neles, os heróis são transportados para uma dimensão paralela e têm que impedir que ondas de inimigos destruam um imenso pilar mágico. Para ajudar na tarefa, é possível construir (e melhorar) várias estruturas, como objetos que atraem monstros ou lanternas para facilitar a locomoção, e aliados podem ativar efeitos passivos de tempos em tempos. Há recompensas específicas de acordo com o desempenho e novos tipos de eventos aparecem no decorrer da trama.


A mistura entre combates simples e complexos é muito agradável, e apreciei bastante o ritmo frenético constante dos combates. Claro, muitas vezes basta apertar os botões de qualquer jeito para vencer, mas há um bom equilíbrio entre os tipos de monstros. Mesmo assim, na dificuldade padrão, achei o jogo muito fácil. Por esta razão, logo mudei para o nível “difícil” e a experiência melhorou consideravelmente: inimigos maiores e os chefes se tornaram de fato desafiadores, me forçando a usar todas as mecânicas para vencer. Os eventos especiais ajudam a trazer variedade ao jogo, mas, no geral, não são interessantes e não exigem muita estratégia.

Um mundo interessante a despeito de suas limitações temáticas

Fora os seus vários sistemas de combate e de exploração, Ys IX: Monstrum Nox cativa com um universo interessante. A trama, mesmo não sendo muito original, é interessante e instiga com vários mistérios, em especial algumas questões que envolvem o protagonista. Inclusive, é notável como Adol esbanja personalidade mesmo sendo um herói silencioso: em alguns momentos precisamos responder perguntas e características como ironia, senso de justiça e aventura, diversão e ousadia estão presentes nas respostas. Ah, não deixe de fazer as missões opcionais, pois elas contam com temas que expandem o universo do jogo.

Um elenco colorido e variado dá vida ao mundo, e os capítulos se concentram em explorar as motivações e os passados de cada um dos Monstrums. É uma decisão acertada, pois assim nos importamos mais com os heróis. Claro, muitos dos personagens representam estereótipos batidos, como o guerreiro irritadiço, a garotinha ingênua e a mulher misteriosa, mas carisma e diálogos divertidos compensam os defeitos. O texto faz referências às aventuras anteriores de Adol e inclusive faz piadas sobre algumas situações (como o fato de o herói sempre acabar perdendo artefatos poderosos obtidos nas suas jornadas).


Fora isso, é impressionante a grandiosidade da cidade de Balduq: as várias áreas são repletas de prédios e ruas elaboradas, e pessoas trazem vida ao local. Cada bairro transmite um ar distinto, e a arquitetura gótica oferece um tema não visto antes na série. Mesmo assim, fiquei decepcionado com a pequena diversidade temática do mundo de Ys IX. A maioria dos cenários são construções repletas de cinza e sem elementos notáveis, e os calabouços se resumem a corredores subterrâneos muito parecidos entre si. Para piorar, durante a história somos forçados a retornar inúmeras vezes à prisão, que é tematicamente desinteressante. Faltou um pouco de criatividade nesse aspecto.

Já a trilha sonora segue a qualidade já conhecida da franquia, com composições elaboradas e memoráveis. Desta vez, o destaque são os temas dos calabouços e dos chefes, que usam pianos, violinos, guitarras e sintetizadores para ditar o ritmo frenético da ação. É difícil esquecer de faixas como Heart Beat Shaker, Cloaca Maxima, Monstrum Spectrum e Welcome to Chaos.
 


Tecnicamente preso no passado

Ys IX oferece agilidade em sua jogabilidade, mas a parte técnica incomoda. O jogo é repleto de cenários com modelos simples e com texturas em baixa resolução, os personagens se movimentam de maneira robótica, certas habilidades de locomoção apresentam comportamento estranho, e mais. O resultado é um título com ar datado que parece ter sido lançado para gerações atrás.

Em Ys VIII, o episódio anterior da franquia, isso podia ser relevado, afinal era um jogo para portátil que recebeu um port HD, mas Ys IX foi desenvolvido especificamente para a última geração. Mas há de se notar os avanços: os modelos dos heróis estão bem detalhados e a maior parte dos imensos cenários pode ser explorada sem telas de carregamento. Com o tempo você se importa menos com os problemas, afinal a ação flui bem e os sistemas são bem divertidos.


Mesmo com visuais simples, Ys IX: Monstrum Nox sofre com vários problemas técnicos. Joguei no PlayStation 4 padrão e foram raríssimos os momentos em que a ação se manteve constante nos 30 quadros por segundo — a queda de fluidez é mais aparente em áreas com muitos elementos, como as praças movimentadas da cidade. No PlayStation 5, via retrocompatibilidade, os jogadores afirmam que a fluidez melhora, mas o jogo trava aleatoriamente constantemente. É decepcionante ver um título tecnicamente simples apresentando esse tipo de dificuldade.

Uma maldição que vale a pena

Ação ágil torna Ys IX: Monstrum Nox uma experiência envolvente. Explorar a cidade de Balduq é empolgante por causa dos cenários elaborados e das ótimas habilidades de navegação que nos convidam a desbravar todos os cantos. O combate continua frenético e repleto de energia, com mecânicas que oferecem uma mescla de ação trivial e momentos estratégicos. Além disso, o mundo conta com muito conteúdo e a trama prende com seus personagens cativantes. No entanto, o jogo peca ao explorar temáticas visuais desinteressantes e ao apresentar visual datado e problemas de performance. No mais, Ys IX: Monstrum Nox é um ótimo RPG de ação cujas qualidades superam os poucos defeitos.

Prós

  • Habilidades de locomoção tornam a exploração versátil;
  • Sistema de combate ágil que combina momentos simples com batalhas mais complicadas;
  • Mundo extenso e repleto de atividades para fazer;
  • Elenco de personagens variado e interessante;
  • Trilha sonora enérgica.

Contras

  • Direção de arte tímida e com pequena variedade temática de cenários;
  • Parte técnica datada e com problemas de performance.
Ys IX: Monstrum Nox — PS4 — Nota: 8.5
Revisão: Ives Boitano
Análise produzida com cópia digital cedida pela NIS America

é brasiliense e gosta de explorar games indie e títulos obscuros. Fã de Yoko Shimomura, Yuzo Koshiro e Masashi Hamauzu, é apreciador de roguelikes, game music, fotografia e livros. Pode ser encontrado no seu blog pessoal e nas redes sociais por meio do nick FaruSantos.


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