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Análise: The Solitaire Conspiracy (PC) transforma Paciência em um estiloso jogo de espionagem

Use cartas para guiar missões de equipes de espiões neste título indie que reimagina o clássico dos baralhos.


Em The Solitaire Conspiracy, uma pessoa misteriosa está causando problemas pelo mundo e somente vários grupos de espiões podem impedi-lo. Para isso o jogador, na pele de um agente, usa uma interface com cartas para coordenar as missões, em uma versão alterada do clássico jogo Paciência. Com a presença de poderes especiais e novas regras, o carteado ganha nuances e dinamismo, resultando em uma experiência inédita e empolgante. Produzido pela Bithell Games (de Thomas Was Alone e Volume), o título envolve com sua atmosfera estilosa e trama contada por vídeos com atores, porém seu potencial é comprometido pela simplicidade inerente de Paciência.

Cartas como meio de espionagem

Protego, a maior agência de espionagem do mundo focada em proteger os inocentes, foi sabotada por um homem perigoso conhecido como Solitaire. O ataque comprometeu o sistema de comunicação do grupo, impedindo que o alto escalão comande diretamente suas equipes espalhadas pelo mundo. Sem oponentes, Solitaire passa a agir impune, espalhando o caos pelo planeta.

A esperança é um agente externo capaz de utilizar um sistema chamado C.A.R.D.S. para guiar remotamente diferentes times de agentes. Na pele desse espião, precisamos coordenar inúmeras missões a fim de restabelecer a rede de comunicação da agência, ao mesmo tempo que tentamos frustrar os planos de Solitaire. Para completar esta tarefa, contamos com a ajuda do agente Jim Ratio, que provê missões, informações e libera acesso a novos grupos de aliados.


Em sua essência, cada missão de The Solitaire Conspiracy é um jogo inspirado em Paciência, especificamente a variação Streets and Alleys. O objetivo é colocar as cartas do baralho na área central do tabuleiro em ordem crescente, partindo do Ás até o Rei. Só é possível mover um cartão por vez, ao contrário de certas variantes que permitem movimentar um conjunto. Além disso, não há restrições de empilhamento de acordo com o naipe, bastando que a carta de cima seja de valor menor que a do topo da pilha.

O grande diferencial do título são os poderes especiais das equipes de agentes, que são representadas por diferentes naipes de baralho. Para utilizá-los, primeiro é necessário colocar o Ás do grupo no centro para energizar os personagens, em seguida basta mover uma das três cartas de maior valor (J, Q ou K) para ativar o poder. Há grande diversidade de times e habilidades: o Grupo Mantis “explode” um conjunto de cartas para outras pilhas; os especialistas em resgates Drive Team 6 recuperam o próximo cartão da sequência, não importando sua posição; já os membros do Blood Legacy organizam de forma decrescente a pilha em que são colocados. Conforme avançamos na campanha, novas equipes são liberadas, o que expande as possibilidades estratégicas.
 


Envolvido em empolgantes missões táticas

The Solitaire Conspiracy me conquistou com sua interpretação curiosa do clássico jogo de baralho. Mover e ordenar cartas é simples, mas o que torna as partidas especiais são os poderes das equipes, pois eles trazem dinamismo às missões e oferecem possibilidades interessantes na hora de resolver os desafios.

Com jogadas certeiras, é possível resgatar cartas localizadas na base de uma pilha, reorganizar os montes ou até mesmo tentar a sorte com habilidades com características aleatórias. Um detalhe interessante é que alguns poderes, em determinadas situações, podem atrapalhar significativamente o andamento da missão, como o time Scorpio, que “sequestra” a próxima carta e a leva para o fundo da pilha, ou Humanity +, que remove as cartas do naipe-alvo do centro do tabuleiro. Logo, precisamos avaliar com cuidado os movimentos para aproveitar ao máximo os personagens.


O modo principal do jogo é a Campanha, que conta com missões com duas variações. No Normal não há restrições e podemos fazer quantos movimentos forem necessários para organizar as cartas; já a modalidade Plus exige que o estágio seja completado dentro de um número determinado de ações, como se fosse um puzzle. Particularmente, gostei bastante dos estágios Plus, pois eles nos forçam a utilizar os poderes e movimentos com sabedoria. Já o modo Normal, por não ter restrições, é praticamente banal, mas não deixa de ser uma opção para relaxar.

Depois de avançar um pouco na história, outras modalidades são liberadas. No Batalha podemos escolher qualquer um dos grupos desbloqueados em uma partida livre. O Contagem Regressiva nos desafia a completar estágios em sequência dentro de um limite de tempo, que pode ser estendido ao mandar cartas para a área central. Já o Desafio Diário oferece puzzles distintos a cada dia. Destes, o meu favorito é o Contagem Regressiva, pois exige reflexos rápidos e destreza para não sermos eliminados do jogo, que conta com desafio crescente — há, inclusive, placares online.


O maior problema do título é que, no fim das contas, ele é uma simples variação de Paciência — ou seja, por todas as fases, você sempre vai ter que mover e ordenar cartas sempre do mesmo jeito. Os poderes e modos adicionais trazem alguma variedade, mas, em longo prazo, o jogo fica um pouco repetitivo. Talvez a inclusão de fases com situações e objetivos distintos ajudasse a quebrar essa sensação. Mesmo assim, não deixa de ser uma ótima opção para partidas descompromissadas de tempos em tempos.

No estiloso submundo da espionagem

Fora a agilidade do carteado, The Solitaire Conspiracy cativa com sua ambientação bem trabalhada. O terminal de controle de equipes conta com visual futurista repleto de cores neon e efeitos brilhantes que aparecem ao mover cartas e ao ativar poderes, deixando as partidas estilosas. A música segue a temática de espionagem com composições suaves e gostei como elas se alteram durante as partidas: novos elementos são adicionados aos poucos conforme fazemos movimentos corretos, adicionando uma sensação crescente de sucesso.


Já os agentes esbanjam personalidade com suas ilustrações e é notável como cada grupo transmite com clareza suas funções somente com o visual: os membros de Icognito Ltda. exalam mistério, Omega Coda são representações curiosas de IA, a maturidade do grupo Blood Legacy é representada com traços sóbrios. Cada personagem conta também com uma pequena descrição background, que pode ser conferida na galeria.

Um detalhe curioso é a trama da campanha, que é contada por meio de vídeos com a atuação de atores. Jim Ratio, interpretado por Greg Miller (do canal Kinda Funny), se destaca com seus monólogos e boa atuação, e o elenco de apoio também convence. O problema é que a história em si é extremamente simples, desinteressante e previsível. Eu até me entreti com as cenas e com as atuações, mas não é algo que realmente faz diferença na experiência. Por sorte, os vídeos podem ser pulados sem prejuízo algum.


Por fim, The Solitaire Conspiracy tem recebido atualizações constantemente desde o lançamento. A interface passou por alterações profundas, novos modos e opções foram adicionadas e até mesmo uma mini-campanha com cenas e história inéditas chegaram ao mundo do jogo. A desenvolvedora promete continuar trabalhando no título por mais tempo, logo novidades devem aparecer no futuro.

Uma interpretação admirável de um clássico

The Solitaire Conspiracy usa a temática de espionagem para modernizar o jogo de Paciência. A adição de habilidades especiais traz aspectos estratégicos ao carteado, resultando em partidas ágeis e interessantes. Na essência ainda é uma versão de Paciência e às vezes a simplicidade incomoda, mas diferentes modos, como a Campanha Plus, que lembra puzzles, e o frenético Contagem Regressiva, que exige também reflexos rápidos, ajudam a trazer diversidade.

Além das mecânicas atualizadas, é difícil não gostar da atmosfera elaborada com direção de arte estilosa e uso de cores neon. A campanha e suas cenas com atuações em vídeo são bem envolventes; só é uma pena que a trama seja bem previsível. No mais, The Solitaire Conspiracy é uma experiência notável e viciante.

Prós

  • Interpretação interessante de Paciência com diferentes habilidades que tornam as partidas mais dinâmicas;
  • Bons modos de jogo que exploram as mecânicas de maneiras distintas;
  • Atmosfera envolvente inspirada em espionagem envolve com cenas de história em vídeo, visuais estilosos e música bem colocada.

Contras

  • Estágios muito similares entre si trazem sensação de mais do mesmo em longo prazo;
  • Trama previsível e desinteressante.
The Solitaire Conspiracy — PC — Nota: 8.0
Revisão: Ives Boitano
Análise produzida com cópia digital adquirida pelo próprio redator

é brasiliense e gosta de explorar games indie e títulos obscuros. Fã de Yoko Shimomura, Yuzo Koshiro e Masashi Hamauzu, é apreciador de roguelikes, game music, fotografia e livros. Pode ser encontrado no seu blog pessoal e nas redes sociais por meio do nick FaruSantos.


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