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Impressões: The Life and Suffering of Sir Brante (PC): entre a rebelião e a religião, quem traça o destino?

Numa história onde cada passo já está traçado, o destino é uma sina ou uma escolha?

Histórias interativas são um gênero já conhecido no mundo dos jogos eletrônicos. Elas geralmente envolvem uma narrativa semelhante à de um livro, na qual escolhas aparecem em determinados momentos e baseado nas opções que você escolher, o enredo é traçado para diferentes pontos e clímaces. Sem dúvida, é um formato de jogo que utiliza menos recursos e conta bastante com a imaginação, além de depender de um bom enredo para prender quem o joga.


The Life and Suffering of Sir Brante (PC) tem como proposta ser uma história interativa com elementos de RPG. Os dois primeiros capítulos do jogo se encontram disponíveis para jogar de forma gratuita na Steam. 

A partir do momento em que o play é pressionado, você encarna em um membro da família Brante e revive suas experiências, felicidades e angústias. O jogo se inicia com o seu fim, por mais contraditório que seja. Ao fim da vida de sir Brante, uma longa retrospectiva passa diante de seus olhos: escolhas, atos e desejos que se misturam no passado harmonioso ou não. Sob essa premissa, tudo começa.

Nascemos e vivemos, como uma sina?

A vida começa com uma visão enigmática e sobrenatural. Antes de vir ao mundo de fato, gritar seus primeiros berros e ver a face de seus pais, criaturas sobrenaturais se apresentam diante de você: os deuses gêmeos, acompanhados por uma entidade que mantém a sombra.

Nessa cena há a sua primeira escolha: com qual das entidades você, ainda bebê, irá interagir. Cada uma delas possui características próprias e valores aos quais estão relacionados. Sua interação também marcará o primeiro atributo que será pontuado, até que finalmente seja a hora de você surgir no mundo físico onde seus pais e irmãos lhe aguardam.

Nesse breve início é possível vislumbrar uma característica marcante no jogo: a religião está em todas as camadas da sociedade. Os deuses parecem recebê-lo, como se marcassem sua presença a toda criatura, pobre ou rica, que vem ao mundo. 

Seu nome fica a seu critério, mas no futuro você entenderá que seu sobrenome pesa. O mundo no qual você vive se chama O Grande Império Arkniano, uma nação onde pessoas têm seus papéis bem definidos, a religião é presente e a morte nem sempre simboliza o fim. Como um bebê, muitas coisas ainda escaparão da ciência do pequeno Brante, mas nada lhe impede de alimentar o instinto questionador desde já. 

Seu primeiro ciclo, e o primeiro cenário da história, é o seio familiar. Compreender a dinâmica dentro de seu próprio lar e o motivo de seu pai estar sempre trabalhando, sua mãe ser sempre tão religiosa e submissa ou por que seu irmão é tão bem tratado e respeitado mesmo sendo tão jovem. A dinâmica do destino, sina ou "lot", no original, é ensinada aqui.

Como parte da religião, cada pessoa nasce enquadrada numa casta e a transição entre elas não é impossível, mas é importante saber que mesmo fazendo essa mudança sua origem ainda será lembrada. Os pobres nasceram para ser pobres, para servir e sofrer, essa é a sua sina. Os nobres são o que a própria palavra sugere: aqueles que nasceram para governar, para ser os protagonistas. O clero é uma terceira classe, específica e cujo papel é exercer o sacerdócio da fé.

Brante nasce pobre. Por mais que seu pai seja um juiz, ele ainda é de origem humilde e sua mãe pior ainda. Seu pai figura a ilustra imagem do pobre que não se satisfez com o destino e, depois de muito estudo, conseguiu elevar-se um pouco mais perto da nobreza. Sua mãe, ao contrário, não teve a mesma determinação, e toda e qualquer criança que sair de seu ventre estará destinada à mesma sina, a menos que siga um caminho de muita determinação para evoluir um pouco mais.

Nessa parte do jogo, você ainda está aprendendo sobre o mundo e o que te rodeia. Seja a religião que impõe seu destino e seus dogmas, representados pela figura dos deuses gêmeos e a torre de luz que sempre brilha no horizonte, ou ainda o fato de seu papel ali. Seu irmão, diferentemente de você, teve uma mãe abastada e seu pai como um nobre por mérito, que garantiram a ele um lugar numa nobreza emergente.

Não pense que sua infância será marcada pela tranquilidade, nem de longe. Você terá que escolher se irá questionar o mundo e o destino, ficar ao lado da religião ou se rebelar contra ela e socializar com os membros de sua família. Momentos de decisões difíceis surgirão, e é importante saber que o que suas escolhas podem desencadear irão repercutir em conteúdo liberado ou bloqueado. Você pode ser o jovem que, decidido a mudar de destino, irá ouvir os conselhos de seu pai e estudar incansavelmente; aquele que ficará ao lado de sua mãe e irmã quando a hierarquia delas as castigar; ou ainda outros futuros que mais à frente irão se revelar.

Uma infante rede de descobertas e consequências

Se na primeira infância o foco eram os relacionamentos no ciclo familiar, com o avançar da idade o mundo se expande. Agora você pode explorar um novo mundo e conhecer novas pessoas. Sua cidade é um local importante onde há comércio, problemas sociais, excesso de poder e nada tão diferente das grandes metrópoles da vida real.

Seu primeiro amigo ou inimigo, a depender de suas escolhas, te conhece em uma confusão em que socos serão trocados pelo bully que fazia seu irmão mais novo sofrer. A adolescência trará diversas descobertas e os primeiros amores. Com sorte, somente aqui você terá sua primeira morte. Sim, a primeira.

A benevolência dos deuses gêmeos é sem precedentes. Cada pessoa possui um total de quatro mortes, sendo a última delas a definitiva. Não se engane: morrer não é algo tão difícil de acontecer aqui; você pode ser atropelado por cavalos descontrolados, ser alvo da fúria de um parente ou ainda castigado por questionar a autoridade de um nobre. Vida e morte caminham em terreno frágil, apesar da sensação de que quatro vidas são muita coisa, mas acredite, não são.

Na adolescência, você compreende que suas escolhas podem trazer consequências maiores do que na infância. Agora não se trata mais de uma briga entre irmãos ou as broncas e castigos de sua mãe; agora uma situação mal resolvida pode fazer com que seu pai entre em um duelo de vida ou morte, ou que você mesmo se veja através de um desses. Também é aqui que seu juramento pode ser feito, durante um breve passeio da escola. Você e seus colegas de classe visitam o templo local, onde uma árvore sagrada jaz. Lá, nobres e pobres fazem seus juramentos e sofrem com eles. Seja o chicote ou a espada, e quem sabe até um artefato religioso, a escolha é importante e pode não ser bem recebida, portanto faça-a com sabedoria.


Outro ponto forte nesta parte do jogo é que a cidade muda e os eventos parecem não ter relação direta com suas escolhas. Acredito eu que seja a construção de uma ambientação futura que aí sim terá impacto em você e você nela. De forma simples, você poderá checar o status da cidade e suas relações entre nobreza, religião e a população.

Não obstante, também nessa parte do jogo as relações sociais voltam, mas dessa vez seguindo via dupla, entre sua família, a sociedade e possíveis amigos. Você terá a oportunidade de rever certas relações e valorizar e desvalorizar uma ou outra, e tais escolhas podem trazer eventos infelizes no fechamento da adolescência. Esse capítulo é onde você pode acabar elevando o status social de sua família ou criar uma grande situação de desconfiança e amargura entre os integrantes.

O acesso antecipado encerra aqui um prelúdio do que os desenvolvedores querem para o jogo e, modéstia à parte, souberam fazer com muita competência. O enredo é muito bem construído, de forma que cada ponta solta que surja abra uma janela para um grande evento no futuro. Os desenvolvedores conseguiram criar um universo que te faz ser questionador, que te faz querer ditar seu próprio destino, e como a premissa do jogo é que você faça suas próprias escolhas - e lide com elas -, todo esse contexto cai como uma luva.

No fim das contas, The Life and Suffering of Sir Brante não tem um universo tão diferente do nosso, mesmo que seja uma alegoria de tempos passados. Você vai nutrir sensações, como eu também fiz, de querer se salvar, de defender quem você acha que precisa ou tirar vantagem de situações que podem ser benéficas para você. Mesmo de forma simples, a história encanta por todas as suas congruências e incongruências.

Não é mais um conto de fadas

A narrativa do jogo e seu desenvolvimento se dão a partir de capítulos, que envolvem partes da sua vida, sendo eles: Childhood, Adolescence, Youth, Peace Time e The Revolt. Cada um possui alguns episódios que simbolizam os anos de sua vida, e alguns capítulos são maiores que outros.

O sistema do jogo, à primeira vista, não é complicado. Em momentos pontuais, e em certos capítulos frequentes, você terá escolhas. Essas escolhas impactarão ora o mundo e ora você mesmo. Elas farão você não somente moldar sua personalidade e escrever sua história, mas também contribuirão para uma trama mais concisa sobre a sociedade local.

Existem habilidades no jogo que servirão seus atributos, mas não se desespere: não é uma grande árvore de habilidades digna de RPGs mais complexos. Geralmente, elas se dividem entre 3 a 5 e podem alcançar pontuações positivas ou negativas. Cada uma influenciará no desenvolvimento de outras, pois a cada fase da sua vida, essas habilidades se misturam e quando sua pontuação é contada, outras são liberadas e eventos de um novo capítulo são bloqueados ou desbloqueados.

Um atributo que se mantém e que servirá para situações mais complicadas é a Força de Vontade. Esse atributo é consumível, você poderá ganhar ou gastá-lo em escolhas de caráter mais importantes ao longo dos capítulos. Você o usará quando quiser tomar uma grande decisão, salvar alguém ou encorajar uma pessoa a agir de modo pouco convencional. Da mesma forma, você acumulará pontos aqui quando, no geral, apresentar escolhas menos altruístas ou mais egoístas.

Quando quiser tentar salvar alguém ou deliberadamente desafiar a autoridade de um sacerdote ou ancião, você gastará pontos de Força de Vontade. Quando preferir ficar fora dos holofotes e tomar escolhas mais seguras que não desafiem a sociedade ou seus atores, você irá acumular Força de Vontade. Encontrar uma balança entre agir e omitir será essencial.

Outro ponto curioso é a sua relação com as pessoas. Você ganha ou perde pontos com alguém mediante suas interações e escolhas que faz. Seu pai pode reprovar que você pegue uma espada de treino e fique praticando esgrima secretamente, mas ele será a favor quando você decidir se empenhar nos estudos e escutar seus conselhos. Essa "corda bamba" é um verdadeiro teste, pois frequentemente você se pega pensando sobre que escolha fazer e qual NPC prefere ter como aliado. 

De fato, essas escolhas definirão como os personagens se sentem em relação a você, e pode ser desde inimizade à indiferença, da admiração ao amor. Essa relação poderá definir se eles irão traí-lo ou lhe ajudar.

Não é de Hans Zimmer ou Spielberg, mas que obra!

Eu não estaria falando de forma sensata desse jogo sem citar aqui a trilha sonora e a animação. Confesso que não esperava grande coisa desses dois pontos e me surpreendi. A trilha sonora, os efeitos sonoros e as animações, mesmo que simples, te jogam dentro de um imaginário. Em determinados momentos você realmente se sente lendo um livro, e em outros, se imagina dentro daquele universo. Seja o som do desembainhar da espada, os cascos de cavalos batendo do chão de pedra, as vozes misturadas da multidão, o choro de uma criança ou uma frase ou outra que aparece no decorrer da história, tudo me parece ter sido colocado no exato ponto que deveria, deixando seu efeito fazer o jogador ficar ainda mais embebido nessa ambientação e na história.

De forma geral, eu me surpreendi muito com The Life and Suffering of Sir Brante. Eu já conhecia esse estilo de jogo desde os tempos em que ele era mais comum em livros onde no final de algumas páginas havia as anotações de "se você fez isso, vá para a página X", mas a experiência que esse jogo me proporcionou foi única.

Não se trata apenas de uma boa história, de personagens capazes de fazer você despertar sentimentos variados ou de uma boa trilha sonora. É o conjunto, o todo. A simples mecânica de atributos e escolhas casa muito bem com o tema. Seus desenvolvedores me pareceram extremamente empenhados em entregar uma experiência de qualidade. A história de sir Brante é fácil de simpatizar e não é algo tão longe do que podemos consumir em livros, filmes e jogos, mas talvez as formas como ela é apresentada e como ela funciona é que sirvam como o ingrediente que dá liga nessa mistura. Fico muito feliz e animada por ter jogado o acesso antecipado do jogo completo e mal posso esperar para que ele seja lançado, ainda esse ano segundo a previsão do estúdio. 

Recomendo fortemente que coloquem The Life and Suffering of Sir Brante em sua lista de desejos da Steam Store e baixem quando puderem os capítulos 1 e 2, já disponíveis de forma gratuita na Steam. Ele não é um jogo pesado e imagino que não virá em um valor alto, considerando o tipo de jogo que é e o fato de ser indie. Nos resta agora aguardar para saber o desfecho da história da família Brante.

Revisão: Davi Sousa

É formada em Arquivologia pela UNIRIO. Amante de RPGs antigos e que quase enfartou com Fatal Frame, é fã assumida da série Red Dead e sempre se pergunta quando farão um crossover de Jurassic Park e Dino Crisis.


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