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Impressões: ENDER LILIES: Quietus of the Knights (PC) oferece beleza melancólica na forma de metroidvania

Uma atmosfera elaborada é o maior destaque deste título indie que ainda está em desenvolvimento.


Em ENDER LILIES: Quietus of the Knights, uma garota indefesa precisa explorar um reino infestado de perigos. Para isso, ela conta com a ajuda de guerreiros espectrais que são a principal forma de ataque em combates intensos e focados em precisão. O título utiliza elementos de RPG, plataforma e metroidvania para criar uma aventura familiar, mas que se destaca com a excelente ambientação de fantasia sombria. O jogo foi lançado no PC em formato Acesso Antecipado e, como tem sido de praxe nesse formato, já oferece uma experiência bem robusta.

Desbravando um mundo sombrio

Uma garota chamada Lily acorda nos fundos de uma igreja, com praticamente nenhuma memória do seu passado. Ela é saudada pelo Cavaleiro Negro, que explica a situação: no passado distante, o País do Fim foi assolado pela Chuva da Morte, que corrompeu os seres vivos e os transformou em criaturas imortais violentas. O Cavaleiro informa a Lily que ela é a Sacerdotisa Branca, a única capaz de limpar a corrupção e salvar as almas perdidas. Sem outra opção, a garota decide explorar o reino em busca de respostas e do seu passado.


O mundo de ENDER LILIES está tomado por criaturas perigosas e armadilhas, e Lily é uma sacerdotisa indefesa. Sendo assim, para sobreviver, a garota conta com a ajuda dos Cavaleiros Espectrais. Ela é acompanhada inicialmente somente do Cavaleiro Negro, mas pelo caminho é possível conquistar novos aliados ao derrotá-los em combate. Cada um destes personagens age de um jeito diferente: o Cavaleiro Negro desfere golpes de espada em sequência, a freira Siegrid fica parada girando a sua poderosa corrente, o corvo Mercador atira projéteis nos inimigos. Alguns espectros, inclusive, liberam novas habilidades úteis, como um salto adicional no ar ou um golpe capaz de destruir trechos de solo frágil.


O País do Fim é dividido em inúmeras áreas interligadas com trechos de plataforma, exploração e combate. Há toques de metroidvania com sessões que dependem de habilidades específicas para serem acessadas, mas a progressão, no geral, é bem direta. Ao desbravar os cenários, Lily pode encontrar itens para fortalecer a si e aos seus Cavaleiros Espectrais, o que traz um aspecto de RPG ao jogo. Cartas espalhadas pelo mundo ajudam a entender o que aconteceu com o local e qual é a origem da protagonista.

Lutando cuidadosamente para sobreviver

O conceito de ENDER LILIES não é muito criativo, afinal explora o subgênero metroidvania de maneiras familiares. Mas, felizmente, o título conta com boas qualidades que tornam a experiência envolvente.


O combate é o destaque do jogo e é também meu ponto preferido. As áreas do País do Fim estão repletas de inimigos que exploram a dualidade da protagonista: Lily é fisicamente frágil e desajeitada, recebendo grande dano ao ser golpeada; já os Cavaleiros Espectrais, que funcionam como armas e feitiços, têm várias limitações e tempos de ativação distintos. Logo, as batalhas de ENDER LILIES exigem estratégia e observação para serem vencidas, sempre nos atentando aos padrões de ataques dos inimigos para escapar ou golpear na hora certa — agir impulsivamente, na maior parte das vezes, resulta em morte.

Uma boa diversidade de ataques oferece diferentes opções estratégicas. Alguns aliados são rápidos e fracos, já os mais poderosos exigem um tempo de descanso entre as invocações. Com um pouco de experimentação, é possível montar combinações com sinergias, e Lily pode alternar instantaneamente entre dois conjuntos de habilidades, o que traz versatilidade. Alguns itens permitem alterar levemente atributos da sacerdotisa e os espectros recebem novos golpes e características ao serem fortalecidos com itens especiais.


Os confrontos são empolgantes e foram várias as vezes em que escapei por pouco. A dificuldade não é trivial, principalmente em trechos que contam também com perigos nos cenários. As lutas contra os vários chefes, em especial, são o ponto alto, por serem mais complexas e estratégicas. No entanto, depois de um tempo, há uma sensação de repetição, pois a variedade de inimigos é limitada e a maior parte deles conta com um único ataque. Trechos em que diferentes inimigos aparecem juntos ajudam a trazer um pouco de tensão, mas espero que no futuro essa diversidade seja melhor trabalhada.
 

A beleza na melancolia

Fora o combate, ENDER LILIES conta com progressão tradicional com alguns elementos de metroidvania. Ao contrário de outros títulos similares, aqui os mapas são mais lineares e contidos, quase como um jogo de plataforma tradicional. Depois de adquirir algumas habilidades, mais áreas e rotas se abrem e a jornada fica mais interessante. Itens e segredos estão escondidos em todos os cantos, incentivando a investigar as áreas com cuidado, e a presença de muitos pontos de viagem rápida torna a exploração ágil.

Apreciei essa abordagem focada e há muito o que descobrir em seu mundo, mesmo com mapas mais lineares e quantidade de conteúdo limitada. A versão de lançamento do Acesso Antecipado já apresenta alto grau de polimento e até mesmo localização para o português do Brasil, mas alguns detalhes ainda precisam melhorar: o salto às vezes se comporta de forma estranha e algumas vezes o jogo travou do nada. Além disso, é difícil não se incomodar com a falta de criatividade e ousadia: o jogo basicamente reproduz ideias já exploradas amplamente no gênero e não oferece nada de inédito.


Uma característica digna de nota de ENDER LILIES é a sua excelente ambientação de fantasia sombria. A decadência do País do Fim é desoladora e bela ao mesmo tempo, retratada com ótimas artes 2D em ruínas, vilas abandonadas, templos exóticos, florestas escuras e mais. A paleta com pouca cor traz um ar melancólico ao mundo, e o uso de iluminação e cores esparsas reforça o contraste. Essa sensação se estende à trama, que é explorada por meio de muitas cartas e algumas belas cenas animadas.

Uma trilha sonora suave, com composições produzidas pelo grupo japonês Mili, reforça as sensações do visual. Destaque especial para a engenharia de som: a música muda sutilmente conforme a localização de Lily nos cenários, e o barulho constante de chuva assume diferentes intensidades para passar a sensação de imersão. O cuidado dos aspectos audiovisuais resultou em um mundo elaborado e intrigante.
 


Um início promissor

No geral, ENDER LILIES: Quietus of the Knights se revela um metroidvania sólido. O jogo combina conceitos consagrados em uma aventura interessante e focada em algumas poucas características, o que traz agilidade à experiência. O combate se destaca com foco em precisão e observação, sendo bastante divertido montar diferentes times de Cavaleiros Espectrais para superar os desafios. Além disso, a ambientação é excepcional com ótima direção de arte, trilha sonora e engenharia de som. Na versão de lançamento de Acesso Antecipado alguns detalhes técnicos incomodam, assim como a ausência de aspectos mais únicos, entretanto isso pode mudar no decorrer do desenvolvimento. Mesmo assim, no fim, ENDER LILIES é uma aventura imersiva e com muito potencial.

Revisão: José Carlos Alves
Texto de impressões produzido com cópia digital cedida pela Binary Haze Interactive

é brasiliense e gosta de explorar games indie e títulos obscuros. Fã de Yoko Shimomura, Yuzo Koshiro e Masashi Hamauzu, é apreciador de roguelikes, game music, fotografia e livros. Pode ser encontrado no seu blog pessoal e nas redes sociais por meio do nick FaruSantos.


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