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Análise: Two Point Hospital (Multi) é diversão hospitalar sem contra-indicação

Título desenvolvido pela Two Point Studios oferece diversas opções de administração e mostra que gerenciar um hospital pode ser, sim, muito divertido.

Ainda me lembro com muito carinho da minha primeira experiência com jogos de gerenciamento — tratava-se do clássico RollerCoaster Tycoon (PC), que rendeu horas e horas de diversão para minha família e até para amigos e colegas de escola, já que no início dos anos 2000 era comum compartilhar CD-ROMs de jogos entre um intervalo e outro (ô, época boa!).


À época, a obra de Chris Sawyer me cativou principalmente pela liberdade que era concedida ao jogador. Ao adquirir o título, confesso hoje que não sabia bem o que esperar: para alguém acostumado com os jogos da Nintendo, nunca pensei que gerenciar um parque de diversões e criar montanhas-russas seria divertido. Porém, não precisei de muito tempo para enxergar a genialidade ali contida e mergulhar em aventuras administrativas cujas prioridades passavam sempre pela satisfação dos meus clientes virtuais.

É com alegria, então, que relato que quase 20 anos depois obtive uma experiência muito similar com Two Point Hospital. O título desenvolvido pela Two Point Studios e publicado pela SEGA para diversas plataformas incumbe ao jogador a missão de construir e gerenciar hospitais, e o resultado final impressiona, sendo muito positivo. Assim sendo, prepare seu jaleco e sua garrafa de café e confira conosco os motivos em nossa análise.

Boas vindas a Two Point

Em Two Point Hospital, você é o CEO de sua própria fundação e está iniciando sua carreira de administração de hospitais no carismático condado de Two Point. Embora os habitantes locais sejam amigáveis e hospitaleiros, não se engane: há muitos desafios a serem combatidos aqui se o seu objetivo é promover saúde e qualidade de vida na região.

Sua trajetória inicia em Hogsport, onde você poderá aprender o básico do gerenciamento hospitalar (construção, contratação e finanças) enquanto tenta resolver os problemas peculiares dos pacientes. Com pouco tempo de jogo, já é possível identificar aqui aquele que é, de longe, o traço mais marcante e significativo do título.

Explica-se: na vida real, hospitais não são exatamente lugares pelos quais as pessoas têm muito apreço (e digo isso como filho de dois médicos, que já passou muito tempo em corredores e quartos de funcionários). Embora seja perfeitamente possível construir e reconstruir memórias felizes com esse pano de fundo, como o nascimento de um ente querido ou a alta de um quadro difícil e incômodo, é difícil para o público em geral não associar tais instituições a coisas negativas, como enfermidades ou diagnósticos preocupantes. 

Sob esse ponto de vista, gerenciar hospitais pode soar a princípio como uma proposta bem menos atrativa do que administrar parques de diversões ou cidades, por exemplo. No entanto, Two Point Hospital consegue driblar essa pré-concepção com maestria ao permear seus sistemas e proposições com muito humor, leveza e carisma. Na prática, isso quer dizer que você estará curando doenças como “clarão na cuca”, “monocelha”, “cara de travesseiro” e “síndrome de pobrestar”, e lidando com funcionários que podem ser desorganizados ou românticos. O resultado são diversas situações hilárias, que mesmo depois de horas de jogo continuam entretendo.

Essa abordagem também configura uma referência direta ao clássico de 1997 Theme Hospital (PC), fazendo com que fãs do simulador da Bullfrog encontrem aqui um sucessor espiritual que, anos depois, segue corretamente a prescrição e brilhantemente faz jus às suas influências.

Investir e construir

A primeira parada e também a alma de Two Point Hospital é o modo carreira, no qual ao longo de diversos níveis o jogador enfrentará cenários cada vez mais complexos — o modo sandbox, ou construção livre, é desbloqueado depois de certo tempo e pode ser personalizado à vontade. O primeiro desafio, Hogsport, se caracteriza por ser uma introdução clara e tranquila às mecânicas e sistemas do título.

Assim como em outros títulos do gênero, o jogador é livre para criar todo o layout do hospital, sendo que algumas áreas são essenciais para um bom funcionamento da instituição. Por exemplo, para que os pacientes sejam encaminhados, é fundamental a existência de uma recepção. Já quando se precisa de um diagnóstico correto, ter um consultório de Clínica Geral, bem como uma ala de Cardiologia e de Raio-X, torna-se imprescindível.

Por sua vez, cada um desses espaços necessitará de um profissional dedicado — médicos podem trabalhar em consultórios, mas enfermarias e alas ortopédicas necessitam de no mínimo um enfermeiro de prontidão. Do mesmo modo, assistentes podem trabalhar na recepção, e zeladores são responsáveis pela limpeza e manutenção das máquinas e da decoração.

Como já pode ser deduzido pela descrição, temos aqui um sistema que exige planejamento e sinergia entre todos seus componentes, e que também está diretamente relacionado à quantidade de dinheiro disponível (nada de contratar dez médicos de uma vez). Cada consulta e cada alta hospitalar geram renda (o valor de cobrança pode ser ajustado), mas é preciso equilibrar arrecadação e gastos para poder crescer com segurança, já que com a popularização vem o aumento de visitantes e também a aparição de doenças singulares.

Tratamento especial

Com o tempo, fica claro que desenvolver um hospital bem-sucedido não é simplesmente criar as alas básicas e deixar que o dinheiro entre e a vida siga seu rumo. Fatores como a satisfação dos clientes e dos funcionários, higiene, decoração e velocidade de atendimento influem diretamente na reputação de sua criação, e esta por sua vez impacta na quantidade de visitantes e de candidatos a emprego. 

Dentro da carreira, a progressão gira em torno de estrelas. Cada nível desbloqueado possui três estrelas a serem obtidas, e cada uma dessas é alcançada após se cumprir uma ou mais condições dentro daquele cenário, como curar um certo número de pacientes ou alcançar um determinado valor de hospital. Estrelas obtidas permitem desbloquear novos níveis mais difíceis (e mais recompensadores), e assim por diante.

É um sistema simples, mas que, assim como em Overcooked (Multi) e Overcooked 2 (Multi), fornece a sensação de ascensão e garante que os desafios propostos estarão dentro das possibilidades dos jogadores. Avançar pelos níveis também é especialmente divertido porque cada estágio traz uma nova sala ou doença, além dos novos objetivos. Como cada hospital criado pode ser revisitado a qualquer momento e as descobertas entre cenários são compartilhadas, há inclusive um bônus no fator replay.

Como exemplo, uma das minhas experiências favoritas foi com a criação de um hospital universitário e de pesquisa em Mitton. Neste nível, todos os candidatos a médicos e enfermeiros são residentes, o que significa que precisam ser treinados para executar funções mais complexas, como psiquiatria e diagnósticos. Treinamentos requerem tempo, uma sala específica e um instrutor capacitado (que pode ser tanto um funcionário com a qualificação ou um convidado pago). Com uma média de 40 dias para formar um psiquiatra, e recursos limitados para contratar residentes e instrutores, logo se formou uma fila grande de infectados com “palhacite” e “pira-cabeção” sem atendimento.

Pacientes que não forem tratados a tempo podem, infelizmente, vir a óbito e assombrar seu hospital, minando a reputação e assustando clientes e funcionários. Por isso, é importante prestar atenção no desenrolar das atividades e manter funcionários e salas em bom estado. Caso o pior aconteça, porém, zeladores qualificados podem capturar os fantasmas ao melhor estilo Ghostbusters. 

Felizmente, atividades urgentes e eventos que demandam atenção são sempre noticiados no canto inferior central da tela e pela caixa de mensagens, fazendo com que administrar nunca seja uma tarefa confusa — ponto muito positivo para a desenvolvedora, posto que muitos títulos do gênero tristemente confundem complexidade com confusão. Assim, depois de quatro anos, dez meses e muitas sessões de treinamento, finalmente consegui um hospital universitário de respeito e autossuficiente, com profissionais conceituados e formados pela própria instituição.

Uma lembrancinha aqui e outra ali

Conforme se joga e se concluem desafios e metas de carreira, é possível acumular Kudosh, que é a moeda corrente de Two Point Hospital. Essas moedas são usadas para comprar mais itens e liberá-los para uso em todos os hospitais de sua instituição. Há uma série de elementos e, embora alguns sejam somente decorativos, como quadros de doenças, há uma boa quantidade de objetos que possuem certa utilidade, como fliperamas (nada como buscar o high score em intervalos de plantão) e fornalhas (!). 

Desbloquear todos os itens para uso nos diversos cenários é algo que certamente consumirá tempo até dos jogadores mais habilidosos, então prepare-se para muitas horas de jogo caso você queira fazer 100% aqui. Em uma medida muito positiva para a versão de PC, há suporte nativo às modificações (mods) via Oficina Steam. Como aqui a criatividade da comunidade é o limite, em menos de cinco minutos já consegui instalar músicas novas e pôsteres alertando para os males da COVID-19 em meu jogo. 

Não que seja necessário recorrer aos mods para se divertir — jogadores dos consoles podem ficar tranquilos. Como dito, há bastante conteúdo no jogo base e a trilha sonora incluída (completa com uma rádio extremamente carismática) é excelente, complementando bem o clima leve e cômico do título. 

Os gráficos e as animações também merecem menção: cada doença é facilmente notada, e até os meios de tratamento são distintos visualmente, provendo um espetáculo à parte toda vez que acontecem — destaque especial para o Apaga-a-Lux e o Superinjetador, que, aposto, certamente irão arrancar um sorriso dos jogadores quando em ação.

Desde o seu lançamento original, Two Point Hospital também recebeu DLCs significativos, dentre os quais destacam-se os pacotes Bigfoot, Pebberley Island, Close Encounters, Off the Grid e o mais recente Culture Shock, lançado em outubro. Cada uma dessas expansões adiciona novos locais para construção de hospitais, com desafios particulares e doenças próprias, além de situações extraordinárias que vão desde o auxílio na recuperação de um hotel até o contato com seres extraterrestres. Além das mudanças visuais, tais pacotes representam uma excelente pedida caso você tenha finalizado a campanha e deseje ficar mais um tempo no universo de Two Point. 

De fato, fiquei positivamente surpreso com as variações propostas pelos conteúdos adicionais: no pacote Choque Cultural (Culture Shock), por exemplo, três novos cenários são adicionados, além de 36 novas doenças — embora seja importante notar que nem todas são diferentes visualmente — e mais máquinas de tratamento. No primeiro estágio (Plywood Studios), o jogador deve auxiliar os produtores na criação de um drama médico estrelado pelo decadente ator Roderick Cushion, o que na prática significa gerenciar o hospital ao mesmo tempo que se atende às exigências dos produtores para tornar o show o mais interessante possível para a audiência, ao melhor estilo Grey's Anatomy. Posteriormente, o jogador deverá dominar os desafios decorridos de um festival similar ao lendário Woodstock em Mudbury, e talvez o que é o cenário mais difícil do jogo em Fitzpocket Academy — afinal, pacientes como celebridades não se impressionam facilmente, e a arrecadação aqui não virá somente das consultas.

Por fim, no que tange à otimização, não tive problemas para rodar o jogo em nenhum momento (instâncias mais leves se mantiveram acima de 120 quadros por segundo em meu computador), mas, conforme os hospitais ficaram mais cheios, quedas na taxa geral se tornaram mais frequentes (raramente abaixo dos 60 quadros, porém). Em uma grata surpresa, o menu do jogo permite configurar uma série de elementos gráficos, como sombras, resolução das sombras e detalhes do mundo, o que certamente ajudará dispositivos mais modestos na missão de tornar Two Point referência para a saúde mundial. Sempre bom mencionar, também, que nenhum bug ou crash foi encontrado durante as sessões para esta análise, e que os menus e textos ganharam recentemente o bem-vindo suporte a português brasileiro.

Diagnóstico positivo

Two Point Hospital
é um daqueles jogos especiais, que têm o potencial de fazer com que o jogador perca a noção das horas quando envolto em seu círculo mágico. Este sucessor espiritual da série Theme Hospital mostra que criar e gerenciar uma franquia de hospitais é muito mais divertido do que um primeiro olhar poderia ousar perceber, graças a temas leves, jogabilidade divertida, desafios justos e uma trilha sonora excelente.

Caso você seja ou não fã de jogos de gerenciamento e construção, faça um favor a si mesmo e experimente Two Point Hospital. Há uma série de doenças graves aqui retratadas, como “clarão na cuca” e “calafrios de sábado à noite”, mas uma das mais preocupantes, sem dúvidas, é a indiferença à diversão pura e descontraída. Recomendado.

Prós

  • Jogabilidade característica do gênero é bem representada;
  • Diversos fatores e aspectos para gerenciar;
  • Doenças e tratamentos são espetáculo à parte;
  • Número considerável de itens e tratamentos desbloqueáveis;
  • Sistema de estrelas garante que os desafios da campanha sejam justos;
  • DLCs adicionam conteúdo significativo ao jogo base;
  • Leveza e comicidade no ponto certo;
  • Suporte à Oficina Steam (PC);
  • Textos e menus em português brasileiro.

Contras

  • Como é comum ao gênero, desafios podem se tornar repetitivos depois de certo tempo;
  • Ausência de modos multiplayer;
  • Ausência de suporte oficial a controle no PC.
 Two Point Hospital - PC/Switch/PS4/Xbox One - Nota: 9.0 
Versão utilizada para análise: PC
Revisão: Ives Boitano
Análise produzida com cópia digital cedida pela SEGA

é bacharel em Produção Cultural pela UFF e estudante de Comunicação Social pela FSMA. Na infância, ganhou um Super Nintendo dos pais e, desde então, nunca mais deixou o mundo dos games. Ainda sonha em ser um Mestre Pokémon.


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