Discussão

Apple Silicon: Como a nova transição de chips vai afetar a jogatina no Mac?

Saem de cena os processadores da Intel e placas gráficas da AMD e Nvidia para dar espaço a soluções próprias.

Foi anunciado na WWDC 2020 o que já era especulado há anos na comunidade da Maçã: a Apple deixará de usar processadores da Intel após mais de 15 anos de parceria. A adoção dos chamados Apple Silicon não causou surpresa, já que a empresa tem buscado, nos últimos anos, internalizar tudo o que consegue, seja com seu invejável departamento de planejamento, seja comprando outras empresas ou divisões delas ou ainda startups.

Nesse último anúncio, ainda que sem qualquer destaque, foi anunciado que os chips gráficos também serão feitos pela empresa de Cupertino, deixando a longa e saudável parceria com a AMD (desde que era ATI) e a igualmente longa, porém não tão saudável, parceria com a Nvidia.

Você, que não é usuário de Mac ou que é usuário recente, pode estar se perguntando o que isso tem a ver com os jogos na plataforma. Vou trazer aqui uma contextualização histórica e levantar fatos mais recentes para analisarmos o que pode nos esperar.

O legado do silício

A Apple nasceu em uma garagem em Cupertino, Califórnia, em 1976. O Apple I utilizava processadores Motorola (sim, eles faziam processadores, eram bons nisso e detinham uma volumosa fatia de mercado) e assim foi nas máquinas da Maçã até 1994, quando foi feita a transição para chips da IBM, na já não tão famosa plataforma PowerPC.

Steve Jobs, cofundador da Apple e visionário da indústria, foi demitido de sua própria empresa e levado de volta a ela com o status de messias já na era PowerPC. Sob sua batuta, a linha de computadores foi simplificada, um sistema operacional revolucionário foi implementado (Mac OS X, estou falando de você!) e novos produtos foram desenvolvidos. Você deve se lembrar do iMac colorido e do iPod (se não conhece, aventure-se em busca dessa parte relevante da história da indústria). Foi nessa época que os processadores PowerPC ficaram mais conhecidos.

Contudo, algumas exigências feitas pela equipe de desenvolvimento (processadores G5 para a linha portátil) e pelo próprio Steve Jobs não foram atendidas e a relação com a IBM se desgastou ao ponto de o impensável acontecer: a Apple anunciou que deixaria os queridos processadores PowerPC para adotar soluções da Intel, principal fornecedora de chips para computadores com o sistema operacional Windows.
As maiores revoluções no Mac até então.
Agora, após uma experiência de mais de 10 anos produzindo os chips de seus dispositivos móveis (iPhone, iPad, iPod e iWatch), e após uma série de falhas nos produtos da Intel, grande parte deles identificados pela própria Apple, é hora de dar um passo além, que deve ser o passo definitivo: a produção de processadores e placas de vídeo próprias.

Mas como foi que isso começou?

Bom, não é de hoje que a Apple vem internalizando a produção de componentes de seus produtos, mas é um processo que se intensificou na última década. A compra da United Microelectronics Corporation, produtora de chips Arm, em 2013, foi o pontapé inicial. Assim eliminou-se a dependência de terceiros para o desenvolvimento de processadores e chips gráficos para sua linha móvel. Chips de segurança chegaram mais recentemente e até mesmo modems de dados estão na lista, sendo o principal motivo das já encerradas disputas judiciais com a Qualcomm e da compra da divisão de 5G da Intel.

Mas peraí, dá pra jogar no Mac?

Por mais que a plataforma não seja a mais popular entre os jogadores, desde o Apple II temos jogos de peso nos computadores da Apple, como Prince of Persia, Karateka, Centipede, Frogger e a série Wolfenstein.

Em 1995 se juntaram à Bandai para lançar um videogame. Infelizmente (ou não) o Pippin foi um fracasso. Na MacWorld 1999, Steve Jobs pessoalmente anunciou Halo como exclusivo para Mac e inclusive ficou perto de comprar a Bungie, mas, após uma primeira negativa, a Microsoft comprou a Bungie; quando ele decidiu pela compra, era tarde demais. Como era costumeiro de sua parte, ficou bravo e ligou para os executivos da Microsoft reclamando, o que resultou na versão de Halo para seus computadores.
O Apple Pippin.
Steve Jobs apresentando Halo ao mundo na MacWorld 1999.
Steve Jobs apresentando Halo ao mundo na MacWorld 1999.
Vale lembrar também que Steve Jobs e Steve Wozniak, fundadores da Apple, trabalharam na Atari antes de começarem sua empreitada, tendo seus nomes nos créditos de Breakout, mostrando que a relação da Maçã com os jogos é estreita desde sempre.

O que vira e mexe surge como rumor é a possibilidade de a Apple comprar a Nintendo. Isso surgiu lá em 2006 e volta e meia ressurge por aí. Dinheiro em caixa pra concretizar a operação ela tem, inclusive pra comprar a Disney, rumor que surgiu nesse ano, após a desvalorização de suas ações com o fechamento dos parques pela quarentena.

Hoje, jogos para iPhone, iPad e iPod touch já são mais do que comuns, com a movimentação deles na App Store em 2018 alcançando US$ 9,4 bilhões. Esses números fazem da Apple, atualmente, a quarta maior empresa de games do mundo, atrás apenas do fenômeno chinês Tencent, da Sony e da Microsoft, respectivamente.

Ainda temos jogos para o Apple TV, set-top box que, entre outras funcionalidade, é um “console”. O que começou pequeno, hoje, já tem suporte para os mais variados controles, incluindo os do Xbox, além do recente Apple Arcade, que nada mais é do que um sistema de assinatura de games que lembra o Xbox Game Pass. A variedade de títulos é enorme e ainda tem títulos exclusivos com Konami e Lego, apenas para citar alguns. Vale ressaltar que o Apple TV é impulsionado pelos processadores da Apple, agora denominados Apple Silicon.

Certo, mas no Mac, o que vai mudar?

Bem, a mudança de processadores é mais complexa do que se pensa. Cada plataforma tem sua própria arquitetura, sob a qual os aplicativos são desenvolvidos. Quem viveu a era dos Mac PowerPC sabe bem o problema que isso pode representar. Cada aplicativo tinha que ser desenvolvido especificamente para aquele ambiente, o que resultava em versões muito diferentes de um mesmo aplicativo (o pacote Office é um exemplo clássico e vale até hoje), versões atrasadas (o saudoso MSN Messenger for Mac levou anos para ter suporte a chamadas de vídeo e morreu sem ter todas as funcionalidades disponíveis em sua versão para Windows) ou ainda o pior dos cenários, no qual a maioria dos jogos se encaixava: simplesmente não havia versão para Mac.

Hoje, apesar de tanto o macOS quanto o Windows utilizarem a arquitetura x86, na qual tanto os processadores da Intel quanto os da AMD são baseados, ainda vemos que a oferta de jogos para quem usa máquinas da Maçã é menor. No Steam, para se ter uma ideia, dos 38.104 jogos disponíveis hoje, apenas 10.249 são compatíveis com o macOS, o que representa aproximadamente 27%. Resident Evil, por exemplo, não tem nenhum título disponível para Mac.

Se com a mesma arquitetura ainda temos essa discrepância na disponibilidade de jogos, o que podemos esperar quando a nova ruptura se concretizar? Bom, temos alguns cenários a se analisar.
Espero que o Steam continua firme e forme no Mac.

A unificação da Mac App Store com a App Store

Assim que forem lançados os computadores com Apple Silicon, as lojas de aplicativos para computadores e dispositivos móveis serão completamente integradas. Utilizando a mesma arquitetura, Arm, os jogos lançados para iPhone e iPad serão automaticamente compatíveis com a nova geração de computadores da Maçã. E estamos falando de algo que irá ocorrer ainda em 2020. Essa integração só não estará disponível por opção dos desenvolvedores, o que deve ocorrer apenas em aplicativos e jogos que utilizam dados celulares, como Pokémon GO, Harry Potter: Wizards Unite e WhatsApp.

Em resumo, de imediato a biblioteca do Mac ganhará milhares de jogos. Tudo bem, sabemos que existem jogos que não valem o espaço que ocupam, mas temos exemplos de jogos mobile que, inclusive, superaram sua contraparte para consoles. Power Rangers: Legacy Wars (iOS/Android) é muito superior a Power Rangers: Battle for the Grid (Multi), ambos com a mesma proposta e desenvolvidos pela nWay.

E o que já sabemos?

Bom, além de ganhar a biblioteca quase que integral de jogos para iPhone e iPad, o Mac também ganhará um aplicativo para suavizar a transição, o Rosetta 2. Sua função será emular um ambiente x86 na arquitetura Arm para que os aplicativos que ainda não tiverem sido portados para a nova plataforma possam funcionar “normalmente”.

Esse ambiente de virtualização garantirá que a biblioteca de jogos hoje disponível para Mac não se perca, mas, a não ser que os jogos ganhem versões novas, isso não vai durar para sempre. Na transição anterior, o Rosetta original durou cinco anos.
No início da transição, esse será o responsável pela manutenção de nossa jogatina.
Além disso, ainda não foi confirmado se será possível instalar o Windows via Boot Camp, o que nos leva a crer que isso não acontecerá, ainda que exista uma versão do Windows 10 para Arm, mesmo que seja baseada em virtualização.

E o que se especula?

Bom, a Apple costuma ser pioneira em diversos aspectos do mercado, e isso não é de hoje. Os rumores sobre essa migração vem pelo menos desde 2013. E, como não poderia deixar de ser, a concorrência está de olho nas ações da Apple.

A Samsung, principal fabricante de dispositivos Android, também fabrica seus próprios chips Arm e estuda se aproveitar da versão dedicada do Windows 10 para equipar seus computadores com tal arquitetura num futuro próximo.

Outros fabricantes também têm pesquisas no mesmo caminho, o que mostra que o mercado de computadores como um todo pode passar por esse mesmo processo de migração, que hoje é movido, principalmente, pelo consumo de energia e performance. Dessa forma voltaríamos a ter tanto Windows quanto Mac sob a mesma arquitetura.
Será ele o futuro protagonista da computação mundial?

E o que esperamos?

Com base nos pontos levantados, podemos estabelecer dois cenários: a Apple voltando à sua bolha, com pouco apoio dos desenvolvedores de jogos, como é hoje, se aproveitando dos jogos mobile, e o mercado de PCs como um todo adotando a arquitetura Arm, permitindo que mais jogos sejam amigáveis ao Mac e, quem sabe, o apoio da indústria aumente.

Hoje, com apenas 7,5% do mercado mundial de computadores, a Apple não gera muito apelo às publishers para lançarem versões de seus jogos para sua plataforma, ainda que o trabalho não seja grande. Adotando uma arquitetura que ainda não é comum em computadores, esse cenário pode inclusive piorar. Isso se concretizando, quem joga no Mac terá que se contentar com jogos mobile ou apostar no sucesso do Apple Arcade.

A transição tem previsão de conclusão em dois anos. Levando em conta que os Mac tem vida útil de cinco anos, a janela para que os próprios usuários da Maçã estejam em sua maioria sob as asas do Apple Silicon pode levar sete anos. Este que vos escreve por exemplo, usa o mesmo MacBook Pro há nove anos. Ainda, boa parte dos usuários deve esperar algum tempo para embarcarem nessa jornada, até que existam pareceres suficientes sobre a confiabilidade da nova plataforma, como é de praxe nessa indústria.

Agora, se a indústria de PCs adotar a arquitetura Arm, como já é ventilado por aí, teremos uma integração universal entre jogos para Android, iOS, Windows e Mac. Dessa forma ficará muito mais fácil (e, quem sabe, atrativo) para as publishers portarem seus grandes lançamentos para todas as plataformas.

Eu, particularmente, acredito que após concluída a transição dos equipamentos (pelo menos os disponíveis para compra), devemos ter um movimento maior das empresas de software (incluindo jogos) para lançar versões nativas de seus produtos. Nesse período, inclusive, acredito que já teremos PCs com processadores baseados na tecnologia Arm e uma versão do Windows (10?) livre de virtualização para ela. Não seria a primeira vez que a Apple puxaria a indústria a um mesmo movimento. Isso se concretizando, é bem provável que tenhamos uma biblioteca de jogos (desconsiderando os vindouros mobile) maior que a atual.
CS: GO, não me deixe!
E você, caro leitor que joga no Mac, como espera que essa transição te afete? Conte para a gente nos comentários!

Revisão: Ives Boitano

Fã de Cavaleiros do Zodíaco, Power Rangers e videogames, em especial Metroid e Resident Evil. Tem uma queda pela Nintendo, mas sabe apreciar o que há de bom na concorrência. Quando se lembra posta alguma coisa bacana no Instagram .


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