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Análise: The Legend of Heroes: Trails of Cold Steel III (Multi): um RPG sólido no caminho para o fim da saga de Erebonia

Terceiro jogo da saga de Erebonia chega ao PC com um excelente port.


Desenvolvido pela Nihon Falcom, Trails of Cold Steel III é o oitavo jogo da série Trails e o terceiro da saga de Erebonia. Trata-se de um RPG baseado em turnos cuja história tem uma continuidade e dependência em função dos jogos anteriores, algo que tem sido construído há anos desde Trails in the Sky (PC/PSP). Apesar disso, a NIS America, que assumiu a tradução da série a partir deste jogo, afirma que o título é uma boa porta de entrada. Será mesmo?

Uma nova classe VII


Depois dos eventos dos dois jogos anteriores, o protagonista Rean Schwarzer se torna instrutor do recém-inaugurado Branch Campus da Thors Military Academy. Lá ele fica encarregado de cuidar de uma nova Classe VII, trocando sua posição de aluno para a de um professor.

Uma das principais forças do novo jogo são os novos personagens. Existe uma química muito boa entre os alunos, cujos backgrounds e personalidades são variados. Desta vez, a Classe VII é reduzida, contando apenas com três estudantes inicialmente (e cinco, no total), mas isso ajuda a manter o grupo mais coeso ao longo do jogo todo.

Também vale destacar os personagens secundários. Considero que uma das maiores forças da série é construir pessoas simples e cativantes naqueles contextos para além da equipe principal. Isso continua funcionando bem em Cold Steel III, com os alunos de outras classes chamando atenção com suas próprias questões pessoais, especialmente ver como a vida deles foi afetada pelos eventos dos jogos anteriores.


E por falar nos antecessores de Cold Steel III, é óbvio que a velha Classe VII e vários personagens de Cold Steel e II estão de volta. Alguns aparecem de formas inesperadas e com interessantes novas reviravoltas, outros só trazendo um conforto simples de rever um velho amigo. Personagens da trilogia Sky e da duologia Crossbell (não lançada ainda no Ocidente) também são figuras bem importantes para os eventos da trama.

De fato, apesar do jogo trazer um resumo dos eventos dos jogos anteriores e descrever com bastante detalhe alguns deles, a importância de ter tido contato com esses títulos não se trata tanto de saber o que aconteceu, mas de sentir o impacto de ver algo pelo qual você se importa voltando à tona. Desde o primeiro capítulo do jogo, isso fica muito evidente em eventos que buscam fisgar o coração do jogador enquanto remexem em eventos importantes da série.


Devido a isso, mesmo com a usual verborragia e níveis altos de exposição que até enfraquecem alguns momentos, boa parte da história depende dos laços que o jogador já tem com aquele universo. Para alguém que não jogou os anteriores, é bem difícil se importar com boa parte dos eventos. A história tem uma estrutura repetitiva, abusa de alguns clichês típicos de animes (e mais especificamente de shounens), e ao final de tudo cai em um cliffhanger, deixando a trama para ser concluída no próximo jogo.

Uma jornada por alguns pontos de Erebonia


No aspecto gameplay, cada capítulo do jogo envolve a ida do Branch Campus a um novo local para realizar suas atividades de campo. Lá, a Classe VII e o protagonista recebem uma variedade de missões, algumas obrigatórias e outras opcionais. Explorando, o jogador também pode conseguir outras sidequests.

As quests são coisas tradicionais de jogos do gênero, com tarefas como “lutar contra monstro X na estrada” ou “encontrar o periquito desaparecido”. Mesmo básicas, elas servem para expandir o conhecimento que o jogador tem do mundo ao seu redor. Também há vários livros e atividades opcionais, como pescaria e um jogo de cartas estilo TCG simplificado chamado Vantage Masters. Ambos são particularmente divertidos, oferecendo bons momentos para relaxar no meio do jogo.

Porém, obviamente o grosso do jogo está nas batalhas em turnos. Com grupos de até quatro pessoas, ele oferece várias opções para o jogador. Em primeiro lugar, vale destacar que todos os personagens têm builds customizáveis. Apesar dos tipos de armas fixos e de habilidades pessoais únicas, as magias (chamadas de arts) e atributos (como movimentação e ataque) podem ser bastante alterados graças ao sistema de quartz.

Cada personagem pode ter um Master Quartz principal e um secundário, que afetam estatísticas variadas dos personagens e oferecem magias elementais específicas. Além disso, é possível equipar vários outros quartz menores, cujo efeito usualmente é um aumento de atributo (ataque, por exemplo) ou uma magia específica (como Tear para curar um aliado). No início, os slots desses quartz estão fechados, mas a abertura deles oferece ao jogador uma grande variedade de opções.


Em termos de batalhas em si, cada personagem pode usar ataques básicos, arts e crafts (técnicas especiais individuais). Os inimigos possuem, além de HP, uma barra de break. Conforme são atacados, ela vai sendo reduzida até se esgotar. Quando o inimigo é “quebrado”, ele se torna vulnerável a novos ataques e seu turno sofre um delay, fazendo com que esse aspecto seja importante na elaboração de estratégias.

Os elos (links) entre os personagens são outro elemento importante. Nas batalhas, é ideal mantê-los sempre conectados para aproveitar o fator unbalance. Quando um inimigo é atacado, ele pode sofrer um efeito de perder o equilíbrio, o que permite um ataque em sequência do aliado que estiver em link com quem atacou. A chance varia de acordo com o tipo do inimigo e do ataque, mas caso o jogador consiga fazer isso, receberá um BP (Brave Point).

Com BP, o jogador pode realizar duas manobras importantes em batalha: ataques em equipe e brave orders. O primeiro é simples: gaste BP quando o inimigo sofre unbalance e será possível realizar ataques mais poderosos ao invés de só um ataque simples em seguida do original. Já o segundo, que pode variar bastante, é uma adição do jogo em relação aos sistemas existentes nos títulos anteriores.

Gastando BP, o jogador pode ativar um grande benefício para a equipe inteira. Coisas como aumentar a defesa de todos ou acelerar o turno dos personagens, etc. Cada personagem tem sua própria ordem, mas qualquer membro pode usar esse benefício, desde que ele esteja na equipe. Vale destacar que isso só pode ser feito e desfeito uma vez por turno, mas é possível realizar outra ação em seguida.

Também há alguns momentos com batalhas envolvendo robôs gigantes. Ao mesmo tempo em que elas são bem chamativas, também senti que elas são muito mais fáceis comparadas às comuns. Provavelmente por acontecerem em momentos específicos e as oportunidades de customização da build dos robôs só acontecerem mais para o final do jogo.

Um port tecnicamente impecável


Em termos mais técnicos, vale a pena destacar uma variedade de coisas. O jogo oferece uma ferramenta de configuração com várias opções para mexer nos gráficos com elementos como resolução, fixar ou não a taxa de quadros por segundo, anti-aliasing, sombras, rodar o mapa inteiro ao invés de só partes, etc.

Elementos como mapeamento de botões, taxa do modo turbo, skip de animações e linguagem dos textos também podem ser alterados nessa ferramenta. E, caso o jogador não saiba exatamente o que customizar, ele também oferece as opções “low”, “medium”, “high” e “ultra” para simplificar a escolha.

Poder usar um turbo de até 6x para acelerar o jogo na hora de explorar as áreas ou em cutscenes que demoram mais do que deveriam é uma grande bênção. Assim como é muito bem vinda a possibilidade de usar teclado e mouse (com botões bem indicados) e trocar entre as vozes em inglês e japonês a qualquer momento.


Vale destacar que, de forma geral, o saldo da dublagem americana é positivo, mas a qualidade pode variar muito de personagem para personagem, especialmente nos NPCs mais genéricos. Apesar de que também só há vozes em momentos importantes da história, e mesmo neles há oscilação entre dublado e não dublado (às vezes na mesma cena, o que pode causar estranheza).

Por outro lado, é bem claro o progresso que Cold Steel III traz visualmente para a série. Cutscenes dos jogos anteriores mostram claramente as deformações dos personagens, que agora estão bem bonitos, especialmente em seus aspectos faciais bem expressivos e vibrantes. Também há um uso bem atrativo de ângulos de câmera nas cutscenes, deixando os eventos mais charmosos e intrigantes. Além disso, como esperado da Falcom, a trilha sonora é consistentemente boa, com pontos altos nas músicas de batalha, como Brave Steel e Erosion of Madness.


De forma geral, Cold Steel III é um RPG que mostra a evolução da empresa. Pessoalmente, ainda estou digerindo o final, que no momento me deixou com ódio mortal da franquia inteira porque me pareceu completamente estúpido e elevou os clichês mais desnecessários e chatos do jogo a um nível que me deixou amargo com a série. Mas até o capítulo anterior a ele, o saldo foi bem positivo e é um bom RPG, mesmo que seja uma péssima porta de entrada e seja importante estabelecer laços mais sólidos com a série antes de aproveitá-lo.

Prós

  • Personagens principais, especialmente a Nova Classe VII, têm bastante carisma e boa química entre si;
  • Gameplay sólido, cheio de mecânicas para explorar na customização da build dos personagens e nos turnos das batalhas;
  • Jogo de cartas “Vantage Masters” e minigame de pescaria são extras divertidos;
  • Trilha sonora consistente com o trabalho de qualidade usual da Falcom;
  • Visualmente, os personagens são bem expressivos e há um bom uso de ângulos de câmera;
  • Versão de PC muito bem feita, com várias opções visuais e a possibilidade de usar teclado e mouse;
  • Turbo até 6x pode ser bem útil para acelerar o jogo em seus momentos mais lentos;
  • Opção de dublagem em inglês ou japonês.

Contras

  • Sem jogar os anteriores, é difícil se importar com boa parte da história;
  • Grande verborragia e alto nível de exposição, com clichês desnecessários e mal usados, e uma conclusão amarga em um cliffhanger.
The Legend of Heroes: Trails of Cold Steel III - PC/PS4/Switch - 8.5
Versão utilizada para análise: PC
Revisão: Davi Sousa
Análise produzida com cópia digital cedida pela NIS America

é formado em Comunicação Social pela UFMG e costumava trabalhar numa equipe de desenvolvimento de jogos. Obcecado por jogos japoneses, é raro que ele não tenha em mãos um videogame portátil, sua principal paixão desde a infância.


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