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Análise: Romance of the Three Kingdoms XIV (PS4) é um jogo pobre estrategicamente

Servindo como um ponto de partida para iniciantes na estratégia por turno, o jogo dificilmente agradará os jogadores mais exigentes.


Sendo um gênero popularizado nos PCs, a estratégia por turnos sempre deu as caras por aqui em títulos como o da série Civilization, por exemplo. No entanto, no Japão, a Koei também se movimentava na produção desses títulos, no que viria a se tornar a “Historical Simulation,” que engloba os jogos das franquias Nobunaga’s Ambition, focada na história japonesa, e o foco de hoje, Romance of the Three Kingdoms. Em meio a tantos anos de desenvolvimento, entretanto, a Koei Tecmo ainda peca em aspectos basilares na construção de uma experiência de estratégia fluida e interessante.

Apesar de bastante factual, Romance of the Three Kingdoms XIV, assim como toda a franquia, é baseado no livro Romance dos Três Reinos, escrito no século XV. Nesse sentido, há de se esperar que algumas liberdades fossem tomadas para com o tratamento dos acontecimentos, enfatizando alguns conflitos e personagens, o que também acontece aqui.

Um batalhão inteiro de personagens

Um dos maiores acertos do título já começa com o que ajuda a constituir a sua fama: os seus líderes. Com mais de cem líderes diferentes à sua disposição, cada um possui traços individuais positivos e negativos, o que realmente aumenta a variedade de formas que se pode aproveitar o jogo. A fim de dar maior destaque a certos líderes mais importantes e famosos, eles também possuem habilidades especiais, que se ativam de acordo com a sua proficiência, por exemplo, em combate.

Desta forma, cada líder possui maior proeza em algum aspecto, como força ou inteligência.  Esses aspectos guiarão a estratégia do jogador e em qual atributo terá maior ênfase em seu império, como poderio militar e capacidade de preencher territórios. Entretanto, nem todos são viáveis, fazendo com que as táticas vitoriosas se afunilem bastante. Por vezes me vi incapaz de vencer partidas por não ter focado tanto no meu poderio militar, por exemplo.

 O relacionamento entre eles também é parte-chave de uma boa estratégia, pois, ao contratar diversos líderes que possuem algum elo de relacionamento, como parentesco, marido e mulher, etc, eventos e táticas especiais no campo de batalha podem acontecer, trazendo um aspecto interessante de formação do esquadrão perfeito para o jogo. É bastante satisfatório fazer uma corrente de generais no campo de batalha, todos com conexões entre si, pois dá uma sensação de recompensa inigualável após todo o trabalho de reuni-los. Realmente, a Koei Tecmo acerta em cheio no número e nas mecânicas de relação dos líderes em Romance of the Three Kingdoms XIV.


Os famosos personagens recorrentes da série, como Liu Bei e Cao Cao, fazem o seu retorno, mas de forma tímida, o que tratarei com detalhes mais adiante. Em Romance of Three Kingdoms XIV, é possível jogar os mesmos cenários com vários líderes diferentes, alternando a perspectiva quanto às partidas e, por consequência, os objetivos. Entretanto, na prática, há pouca mudança no que deve ser feito de fato, caindo em um ciclo de gameplay similar a quase toda partida, que é um dos principais defeitos do jogo.


Controlar um exército nunca foi tão monótono

O maior problema no decorrer das partidas é o tanto de tempo que se perde assistindo, mais do que jogando em si. Mesmo com um provável viés mais contemplativo e analítico requerido pelo gênero, a deficiência de Romance of the Three Kingdoms XIV é na falta de seu elemento tático. No mapa, por exemplo, existe a cidade principal e outras adjacentes, de menor escala. Deve-se, portanto, selecionar o comandante, formar um batalhão e enviá-los um a um para conquistar as cidades.

Todavia, com o tempo, esse tipo de atitude, infelizmente crucial para o bom desempenho na campanha, torna-se apenas um automatismo. Afinal, deve-se percorrer bloco a bloco a área da cidade para se obter todos os benefícios dela, o que torna a tarefa de observar as conquistas de seus exércitos extremamente monótona. O jogo se torna um Splatoon às avessas por depender tanto de quem colore mais o mapa no menor período de tempo até partir para o combate. O principal problema está justamente aí: não há estratégia, apenas turnos e mais turnos passados, como se fosse uma espécie de trabalho manual.



















O jogo peca bastante em outros pontos, permitindo que o foco desenfreado em domínio de território seja a única medida viável para se conquistar a vitória. Aspectos como política interna e planos, por exemplo, tornam-se menos relevantes para a nova perspectiva de cobrir o máximo de território o mais rápido possível, demonstrando a clara semelhança ao nono e décimo primeiro títulos da franquia, que também seguem esta linha.

Nesse mesmo sentido, a possível recompensa que viria nos combates também é decepcionante. O jogo te dá pouco controle nas batalhas fora do óbvio, ou seja, o número total de soldados no exército. O máximo que pode ser feito em uma situação de desvantagem, ou quando o jogador quiser ser mais criativo em suas investidas, é alterar a formação de seu batalhão, modificar o trajeto de suas tropas para emboscar o adversário por trás ou impedir que recursos cheguem até ele.



O épico de forma básica

Como citado anteriormente, os personagens não estão em sua melhor forma visual, e isso se arrasta para os eventos, que outrora foram tratados com tanta pompa e estilo. Os líderes, por exemplo, só são representados por imagens estáticas durante as partidas, o que definitivamente não encaixa com a proposta de expressividade que os seus designs dão. Os eventos, na maioria das vezes, também não passam de imagens estáticas dos personagens, o que é um demérito bem grande para uma série tão longa e importante para a Koei Tecmo.

O jogo também conta com um criador de líder, mas que também é muito básico. Escolhas de sexo, atributos e habilidades únicas e algumas imagens pré-definidas são o que definem a customização de Romance of the Three Kingdoms XIV, algo que também é padrão em outros jogos da Koei Tecmo, como a série Warriors.




















Além disso, cabe tecer um comentário sobre os menus e a UI do jogo, no geral. É evidente que ele foi projetado principalmente com a versão de PC em mente, e os seus menus evidenciam isso. Só de bater o olho na forma com que os botões, listas de seleção e outros elementos visuais são organizados e apresentados, é perceptível que foram feitos para serem navegados com um mouse, e não com o controle do PS4.

O título entrega, no entanto, bons controles, apesar de parecerem estranhos à primeira vista. Mesmo sendo um jogo que tipicamente não se vê em consoles, tudo funciona muito rapidamente igual à sua versão de PC, graças a atalhos inteligentemente implementados no controle, o que agiliza a vida do jogador e facilita a execução de tarefas mais mundanas, como mudanças de generais rotineiras, determinar para onde determinada tropa vai, etc.


Recrutas, sejam bem-vindos

Em Romance of the Three Kingdoms XIV, há um claro foco na acessibilidade, buscando atrair novos jogadores que poderiam se espantar com a aparente complexidade que os títulos da série oferecem. Todas as atividades essenciais para se obter a vitória podem ser feitas de formas simples e, por muitas vezes, igualmente funcionais. Pedir sugestões para seus generais afiliados, por exemplo, ajuda o jogador em momentos difíceis ou de plena confusão, em que não se sabe direito para onde ir ou o porquê de se estar em uma situação ruim na partida.

Diante disso, o jogo realmente entrega uma das melhores experiências para novatos da franquia. O tutorial não é longo demais e ensina as principais mecânicas  de forma eficaz, o que torna este título um ótimo ponto de partida para os que não conhecem a franquia.

Entretanto, com esta escolha, o jogo tomou danos severos em outras áreas, como no teor estratégico da coisa. Como setores centrais da experiência foram simplificados para se tornarem mais acessíveis, com ele também veio a simplificação da inteligência da IA, por exemplo, facilitando bastante as partidas. Além disso, muitas das partidas são similares justamente por isso: é possível modificar detalhes de sua abordagem estratégica, mas, no fim, o jogador se verá repetindo os mesmos passos para chegar à vitória, quebrando o fator replay e a própria criatividade das jogadas, essenciais para o gênero.


Os benefícios e os males da acessibilidade

Dotado de uma grande quantidade de personagens para se jogar, com mecânicas interessantes entre si, Romance of the Three Kingdoms XIV é um prato cheio no aspecto caracterização. Entretanto, quando se trata de mecânicas de estratégia, o jogo se torna repetitivo e justamente o oposto da engenhosidade que se espera de um jogo do gênero, se estagnando rapidamente nas velhas e funcionais táticas.


Servindo como um bom ponto de partida para novatos, tanto na franquia quanto no gênero como um todo, graças à acessibilidade de suas mecânicas e um tutorial bem implementado, a recomendação é certa para este público, que foi o que recebeu maior atenção neste título. No entanto, jogadores veteranos poderão se sentir entediados ou restringidos pela simplificação excessiva dessas mesmíssimas mecânicas, quebrando a tradição de se revisitar, e muito, os jogos do gênero. Portanto, o mercado do gênero no PC ofereceria opções melhores e mais enriquecedoras para este público, apesar de que, no PS4, a categoria não possua tanta representação assim.

Prós 

  • Grande número de líderes disponíveis para jogar;
  • As mecânicas de relacionamento entre os líderes desbloqueiam táticas recompensadoras em combate;
  • É o jogo mais acessível para novatos, sendo bastante eficiente na apresentação de suas mecânicas;
  • Como um jogo aparentemente complexo, que pode espantar novatos, ele faz um excelente trabalho em seu tutorial;
  • Controles bastante responsivos e ágeis para um console de mesa, perdendo pouco da agilidade e conforto de se jogar um jogo do gênero no PC;

Contras

  • O jogo por vezes se transforma em um simulador de preenchimento de grids, o que torna a experiência monótona e repetitiva;
  • Apesar de ter algumas opções táticas, nem todas são viáveis, o que limita a probabilidade de novas estratégias;
  • Os eventos e representações visuais dos personagens são simplórios demais;
  • A simplificação excessiva das mecânicas pesa na dificuldade e na subversão das mecânicas do jogo;
  • Menu e UI poderiam ter recebido um tratamento melhor, ficando menos parecido com um jogo de PC;
  • Por muitas vezes, mais se observa do que se joga, pois seus comandos demoram tempo demais para entrar em efeito total;
Romance of the Three Kingdoms XIV - PS4 - Nota: 6.5
Revisão: Davi Sousa
Análise produzida com cópia digital cedida pela Koei Tecmo

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