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Análise: Granblue Fantasy: Versus (PS4/PC) traz o universo do RPG em lutas bem feitas

Franquia se aventura em um gênero totalmente diferente e acerta a mão com um sistema de combate simples e visuais bem trabalhados.

Granblue Fantasy pode parecer um nome desconhecido para quem acompanha os jogos de luta, já que se trata de um universo vindo de um RPG. Lançado no Japão em 2014, a aventura para browsers e dispositivos móveis tem ganhado cada vez mais adeptos pelo mundo, o que resultou em um upgrade que adicionou textos em traduzidos para o inglês. Para expandir a marca, a Cygames, criadora de Granblue, confiou na Arc System Works, especialista em jogos de luta 2D, para confeccionar um título do gênero utilizando 11 personagens de seu vasto elenco. O resultado foi Granblue Fantasy: Versus (PS4/PC), que além de trazer combates entre os personagens, trouxe uma narrativa inédita em formato de RPG de aventura, em uma mistura inusitada.

Direto ao ponto

Granblue usa o sistema Arc System de combate, já conhecido por quem é adepto de suas outras séries, como Guilty Gear e BlazBlue. Todos os personagens possuem três botões de ataque (A, B e C) e um botão de ação (D). Os botões de ataque podem ser pressionados três vezes para fazer um combo automático e sem firulas. Cada um dos lutadores tem seus golpes especiais, sendo a grande maioria com os mesmos comandos, seja meia lua para frente, para trás ou com um comando similar ao shoryuken (→↓↘). A diferença da intensidade do golpe é determinada pelo tipo de ataque utilizado para o comando.

O adicional aqui é que os golpes especiais também podem ser aplicados com o “botão de habilidade” (R1) em estado neutro ou seguido de algum direcional. Esse tipo de comando simplificado é típico de RPGs de ação e cada habilidade precisa de um tempo para ser recarregada, efeito conhecido por ‘cool down’. Quanto mais forte a técnica utilizada, mais ela irá demorar para ser usada de novo, e usar o atalho pelo botão também influencia no tempo de recarga. Fica a critério do jogador qual comando será mais conveniente utilizar na hora. Caso alguém não esteja familiarizado com jogos de luta, esse sistema é perfeito até se acostumar com a execução normal dos ataques especiais.

Outros comandos básicos também ganharam botões de atalho. O ataque sobre a cabeça, recurso utilizado contra oponentes agachados e aqui chamados de contramedida, é executado com o L2, e os agarrões são feitos com o L1. O bloqueio pode ser feito da maneira tradicional, segurando para trás, ou utilizando o botão R2. Se feito com o botão, ele te dá abertura para mais dois recursos, a esquiva (segurando para trás) e o rodeio (segurando para frente), que é uma curta corrida de aproximação enquanto desvia-se do golpe do rival.

Parecem detalhes pequenos, ainda mais visto que outros jogos permitem que configurações similares sejam feitas, mas aqui eles tornam o combate mais fluído. Este sistema é muito competente para iniciantes, que querem aprender sem ter que passar por combinações muito sofisticadas. Já os veteranos terão um desafio em tentar buscar diversas maneiras de derrotar seus inimigos com uma baixa variedade de movimentos.


O ponto contra fica por conta da repetição exaustiva dos mesmos comandos. A estética de combinações de um mesmo personagem é sempre visualmente idêntica, variando apenas sua força e velocidade. Não que isso afete a imprevisibilidade dos duelos contra outros jogadores, mas depois de algumas partidas fica um pouco mais fácil fazer uma leitura das estratégias do seu oponente.

Caso o jogador encontre dificuldades de se habituar, Granblue conta com um tutorial bem completo chamado de Modo Tático. Além de ensinar o básico, como utilizar a esquiva, punição e tempo de contra-ataque, também é possível aprender a executar todos os movimentos especiais dos personagens, alguns combos mais extensos e também como evitá-los da maneira mais eficaz para um revide.

Meio RPG, meio luta

Além do Modo Tático e os já conhecidos Arcade, Versus, Online e Treino, típicos de 99,9% do gênero, também está disponível um modo RPG. Na verdade trata-se de uma espécie de beat ’em up com movimentação 2D com a possibilidade de evolução de nível e customização de equipamentos. A narrativa é exclusiva para este jogo e funciona como uma espécie de aventura paralela do RPG de origem, o que pode ser meio desconexo para quem não tem conhecimento do universo em que a aventura se situa. Não chega a ser um problema enorme, mas é inevitável ficar perdido ao tentar entender como todo mundo da história já se conhecia e quais são as suas motivações.

Neste modo, devemos cumprir missões em cada ilha até chegarmos ao destino final. Todas elas funcionam da mesma maneira: devemos enfrentar hordas de inimigos e nosso desempenho é recompensado no final com notas de C a S. Existem as batalhas contra chefes, que apresentam alguma variedade em meio a grande repetição das demais. Cada fase é jogada pelo personagem escolhido e um segundo, que pode ser controlado pela CPU ou por outro jogador no mesmo console. Também há a possibilidade de solicitar ajuda ou auxiliar alguém que abriu uma sala online durante uma missão.


Para melhorar nossos atributos, nós ganhamos experiência para subir de nível e também podemos equipar armas, que podem ser obtidas na lojinha, por compra ou forjadas, ou ganhas após alguma luta. Elas possuem atributos elementais, como fogo, terra, ar, água, luz e trevas, e cada fase indica qual deles irá nos favorecer em combate. Algumas das armas adquiridas podem alterar o visual de um lutador em combate, o que torna colecioná-las uma tarefa um pouco mais prazerosa.

A adição deste modo chega a ser interessante, mas assim que as missões começam a se repetir em exaustão, tudo torna-se um pouco arrastado. Outro ponto que chega a entediar é que os movimentos usados aqui são os mesmos utilizados em combate, sem variação alguma. Quem veio pelas lutas pode largar de mão fácil, e quem veio por causa da franquia com certeza vai estranhar o estilo mais dinâmico e distante do confronto por turnos característico do jogo original.


Outra coisa enfadonha são as diversas telas de loading. Toda transição entre menus tem carregamentos que levam um tempinho considerável. No modo RPG elas pelo menos contem algumas informações para distrair o jogador, mas no restante do jogo elas são simplesmente pretas e demoram consideravelmente, principalmente em relação a outros títulos de luta.

Todos no mesmo barco

O modo Online conta com duas modalidades de lutas em rede. As disputas casuais são realizadas em diversas salas com capacidade para até 64 jogadores. Elas são separadas por regiões do mundo com a finalidade de organizar os jogadores de uma mesma área, mas na prática pode-se entrar em qualquer uma de qualquer lugar. Ao escolhermos um lobby, nosso avatar é levado a um ambiente inspirado no barco Grandcypher, que conta com diversas cabines de fliperama. Podemos circular pelo espaço, trocar mensagens e emojis com os outros participantes, ou nos sentar em alguma das cabines e esperar por um adversário.

Durante a análise, encontramos jogadores asiáticos em grande maioria pelo fato do lançamento antecipado no Oriente, mas isso não influenciou em nada na qualidade das partidas. Todas as casuais disputadas ocorreram sem problemas e com uma ótima qualidade. Porém, as ranqueadas foram um pouco mais complicadas justamente por não ter ocorrido os lançamentos norte-americano e europeu ainda. A demora para achar adversários foi grande e a qualidade da conexão algumas vezes deixou a desejar, com alguns lags ocorrendo durante as lutas.

O modo RPG também tem sua parte online. Em algumas missões é possível abrir uma sala e esperar que outro jogador venha lhe ajudar. Porém, nesse caso não existe um lobby com outras pessoas esperando, então somos obrigados a esperar até aparecer alguém, o que raramente aconteceu. O inverso também acontece, pois podemos procurar alguém que precise de auxílio e começar uma busca. Assim que alguém abrir um pedido, somos acionados, só que, mais uma vez, a demora para encontrar alguém foi grande. Por fim, as partidas em rede no modo RPG apresentam bem mais travamentos que as lutas simples, principalmente por causa do tanto de coisa que acontece na tela em alguns momentos, como nas batalhas contra chefes, por exemplo.

Coisa mais linda

Se teve um aspecto que foi bem trabalhado, com certeza foi o visual. Granblue conta com um nível artístico altíssimo em todos os níveis. O visual 2.5 dos cenários de fundo é belíssimo, e caso uma luta vá para o terceiro round, acontece uma animação de transição, como uma passagem do tempo. Os modelos de cada lutador também esbanjam detalhes, com cores vivas e vibrantes. Ao atacar com suas Super Artes Celestiais, acontecem vários efeitos caprichados, e se usados para encerrar o segundo round da luta, a animação final do lutador também muda. O modo RPG também conta com cenas desenhadas especialmente para ilustrar pontos chave, como se fosse um anime.

Os menus também contam com ilustrações conceituais de cada personagem, que podem ser visitadas a qualquer momento na galeria. Um detalhe inesperado é que tudo está legendado em português, desde os textos dos modos de jogo até cada diálogo que antecede os combates. Porém, talvez para criar uma identificação com o público brasileiro, algumas falas trazem expressões coloquiais mais modernas, como “full pistola” e “bolada”. Pode até ser bem humorado, mas quem conhece a língua inglesa vai estranhar algumas adaptações entre legenda e áudio, criando aquela sensação de “ele não quis dizer isso”.

A parte sonora também é bastante competente, trazendo belas composições ao estilo medieval e uma dublagem impecável. Além das trilhas de fundo de cada combate, o modo RPG também conta com faixas próprias. Destaque especial para as músicas utilizadas nas batalhas contra os chefes, que ajudam a aumentar a tensão no combate. Entretanto, aqui temos um pequeno deslize: se estamos no modo Arcade, onde fazemos lutas em sequência, e finalizamos o segundo Round com uma Super Arte Celestial, a música de encerramento não para ao prosseguirmos e entra em conflito com a da tela de carregamento da próxima luta. Desta maneira uma fica tocando por cima da outra até o duelo começar de fato. Isso não acontece se ganhamos o round com qualquer outro ataque normal.

Qualidade sobre quantidade

Granblue Fantasy: Versus é um título que merece atenção. Seu combate simplificado pode parecer repetitivo, mas é uma ponte ideal para outros mais complexos, como Dragon Ball FighterZ (Multi) e a franquia Guilty Gear, da própria Arc System Works. O número de personagens também pode parecer muito pouco para um elenco inicial, mas seus estilos diferentes conseguem cobrir esse déficit e também podemos esperar novos lutadores via DLC, já que o universo que dá vida a eles é muito vasto. O pano de fundo de RPG também ajudou em muito nos fatores artísticos, tornando-o um dos mais bonitos jogos de luta em 2D dessa geração. Vale a pena se aprofundar e conhecer mais dessa aventura.

Prós

  • Jogabilidade simples e objetiva;
  • Personagens carismáticos e com estilos bem distintos entre si;
  • Excelentes visuais;
  • Trilha sonora digna de combates épicos;
  • Tutorial bastante completo;
  • Luta contra os chefes no RPG são bastante desafiadoras.
  • As partidas casuais no lobby são fluidas e ocorrem sem atraso algum.

Contras

  • Telas de loading excessivas e um pouco demoradas;
  • Poucos lutadores no elenco inicial;
  • Modo RPG tem missões muito repetitivas, sendo mais um beat’ em up do que RPG de fato;
  • Muita demora para achar oponentes para partidas ranqueadas e chamados de ajuda no modo RPG;
  • Músicas de fundo se sobrepõem no modo Arcade.
Granblue Fantasy: Versus ─ PS4/PC ─ Nota 9.0
Versão utilizada para análise: PS4
Revisão: Farley Santos
Análise feita com cópia digital cedida pela XSEED Games


é pai do próximo Batman, tio de uma princesa e viúva da Sega. Só sabe jogar títulos de luta, se mata frequentemente em FPS e adora uma velharia (que todo mundo agora gosta de chamar de retrô). Ah, ele está esperando até agora pelo Ridge Racer dessa geração também.


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