Crônica

Como Street Fighter II (Multi) me ensinou a dividir

O jogo de luta da Capcom foi parte de uma das minhas primeiras experiências marcantes com videogames.

Se você foi criado por uma família grande ou já teve de dividir o videogame com parentes e amigos, sabe que passar o controle quase nunca é uma tarefa simples. Nem sempre os jogos permitem que duas ou mais pessoas brinquem juntas, então os próprios jogadores precisam se organizar e garantir que todos tenham seus cinco minutos de diversão.



Já passou por isso? Pois é. O jeito, muitas vezes, era aplicar a regra do “perdeu passa o controle” e torcer para não tentarem furar a fila perto da sua vez.

Passando o controle

Eu tinha cinco anos de idade quando meu dois irmãos mais velhos ganharam um Super Nintendo. Minha família não tinha condições financeiras para gastar com videogames, então, por muito tempo, nossos únicos cartuchos foram: Super Mario WorldDonkey Kong Country 3 e Street Fighter II Turbo: Hyper Fighting. Super Mario e Donkey Kong até tinham modos para dois jogadores, mas meus irmãos achavam que demorava mais pra passar das fases e jogavam revezando o mesmo controle.

O problema é que sou seis e sete anos mais novo que eles, o que me tornava uma exceção natural ao “perdeu passa o controle”. Eles faziam de tudo para me enrolar e costumavam me deixar fora da jogatina. O argumento para me manter assistindo costumava ser: “ele não sabe jogar, temos poucas vidas”. Apesar de ver eles jogando também ser legal, eu sempre ficava ansioso para colocar minhas mãos no controle e gastava uma parte razoável do meu tempo imaginando o que faria quando minha vez chegasse.

Competição, orgulho e rivalidade

Geralmente, eu só tinha minha chance de jogar quando meus irmãos colocavam a fita de Street Fighter II. O jogo de luta da Capcom ficou famoso por sua estrutura competitiva e, mesmo contando com um divertido modo arcade, brilhava muito mais quando dois jogadores se enfrentavam. Tudo isso acabou criando uma atmosfera de rivalidade que me favoreceu muito, já que meus irmãos passaram a competir diariamente pelo título de "melhor jogador de Street Fighter II da casa".

Fui beneficiado porque ao invés de me deixar de fora da jogatina na conversa, eles começaram a me passar o controle - afinal, as lutas eram curtas e qualquer desafio valia a pena para reafirmar suas habilidades. Eu me lembro de perder várias vezes, até começar a observar os botões que meus irmãos mais apertavam. Foi assim que, eventualmente, consegui soltar meu primeiro Hadouken. Tudo mudou. Daquele momento em diante, meu interesse pelo jogo cresceu muito e meu novo objetivo era ser o melhor.

Desafiante entra no ringue

Street Fighter II teve um impacto gigantesco no universo dos jogos de luta. A primeira versão do clássico foi lançada em 1991 e popularizou a jogabilidade baseada em seis botões, que ainda é usada por muito títulos da atualidade.

O sucesso da Capcom também foi marcado pela riqueza do conteúdo que era oferecido: todos os personagens tinham visuais, estágios, músicas e histórias únicas - o que fazia com que jogadores das mais variadas cores, pesos, alturas, gêneros e estilos se identificassem com muita facilidade.

Meu irmão mais velho, por exemplo, adorava jogar de Honda. Ele usava o lutador de sumô para pegar jogadores desavisados de surpresa e causar muito dano com o golpe da "mãozinha". Meu outro irmão costumava lutar com Ryu e vivia esfregando o controle pra encher a tela de Hadoukens. Eu não lembro de ter um personagem favorito, mas gostava bastante do Blanka. O monstro da Amazônia me marcou muito, porque foi a primeira vez que vi a bandeira do Brasil estampada em um videogame. Pode parecer besteira hoje em dia, mas esse tipo de coisa não era tão comum naquela época.

Essas diferenças entre os personagens ficavam mais nítidas durante as partidas, porque cada lutador tinha seu arsenal de movimentos próprio. Enfrentar um Dhalsim jogando de Zangief, por exemplo, era completamente diferente de lutar contra o indiano no controle de Chun Li ou Balrog. As fraquezas dos personagens eram organizadas de uma forma que eles não só pareciam únicos, mas também faziam com que cada luta tivesse potencial para ter desfechos inéditos - dependendo, principalmente, do personagem escolhido pelos jogadores e da postura praticada por eles.

Em busca do mais forte

Se antes eu gastava o recreio pensando em como seria legal jogar uma ou duas fases de Donkey Kong, passei a tentar aprender o máximo sobre Street Fighter II para fazer bonito da próxima vez que meus irmãos ligassem o Super Nintendo. Perdi muitas partidas, troquei dicas com amigos da escola e até comprei revistinhas pra conhecer os golpes de todos os personagens. Um dia eu acabei superando meus irmãos, mas a vontade de continuar melhorando ainda estava dentro de mim. Gosto de pensar que esse é o sentimento que ainda me mantém apaixonado e interessado por jogos de luta.



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