Dublagem de games no Brasil: quando eles falam a nossa língua

Mais que aumentar a imersão, a versão brasileira dos jogos também são uma importante ferramenta de inclusão e mostram a qualidade deste trabalho nos jogos lançados no Brasil.

em 13/11/2019
Antigamente a maioria dos jogos que tínhamos acesso possuíam dois principais idiomas, japonês, para os que eram exclusivos do mercado nipônico, e inglês, para os que faziam parte dos mercados norte-americano e europeu. Com o passar dos anos muitas barreiras de mercado começaram a ser ultrapassadas e a do idioma também. Hoje é até raro encontrar algum jogo que não tenha, no mínimo, de quatro a seis idiomas disponíveis em seu lançamento, sendo que muitos deles recebem novas línguas com o passar do tempo por meio de atualizações.




Não se limitando apenas a localizar o conteúdo em texto, muitas desenvolvedoras também investem em localizar a dublagem nos jogos. Títulos com atores reais interpretando personagens nos jogos viraram um padrão para a indústria e a barreira do idioma não é mais tão intransponível como antigamente. Jogos no nosso idioma nativo estão cada vez mais comuns e, como todo conteúdo localizado, existem os trabalhos bons e ruins. O que te leva a questionar, muitas vezes, sobre a qualidade de alguns trabalhos e até soltar críticas como “Eu faria melhor!”.

Você tem o que é necessário pra fazer melhor?

No Brasil não existe a profissão dublador propriamente dita. A dublagem é uma atividade exercida pelo profissional da atuação e interpretação, o ator. Para trabalhar com dublagem profissionalmente é obrigatório ser formado e ter um registro nesta profissão. Portanto, todos os atores e atrizes que trabalham com dublagem profissionalmente são chamados de dubladores. Existem também cursos especializados e oficinas de dublagem, mas estes não excluem a necessidade de ser formado em teatro para trabalhar profissionalmente neste ramo.

Ser a voz de um personagem não se trata apenas de traduzir uma fala e simplesmente encaixar o áudio na boca do ator. O profissional da dublagem interpreta, transmite o sentimento do personagem na cena e também adapta o texto quando isso se faz necessário.

Nem todo ator é um dublador, mas todo dublador é um ator.
As exceções existem, como da vez em que tivemos as polêmicas participações de Pitty em Mortal Kombat X e Roger, da banda Ultraje a Rigor, em Battlefield Hardline. Esse tipo de situação existe por exigência do cliente, que é a empresa que contrata o estúdio para fazer o trabalho de localização em áudio de um jogo.

Muitas vezes a campanha de marketing de um jogo ou filme explora a participação de artistas que tiveram participação no produto em questão. No caso citado acima, a recepção foi bem negativa por conta da falta de qualidade em seus trabalhos e influenciou nas vendas dos jogos na época. O fato acendeu uma luz de alerta para os estúdios de criação dos jogos, que agora evitam a prática no Brasil. No cinema a prática ainda é bem comum e ainda continua recebendo críticas negativas da audiência brasileira.

As boas práticas da dublagem

O processo de localização de um jogo funciona, basicamente, da mesma maneira que a localização de qualquer outro material audiovisual, como um filme para o cinema. Existe um diretor para orientar os profissionais, há uma tradução e adaptação do texto para nosso idioma, são feitos testes de elenco com atores para os papéis que fazem parte da história do jogo e, após o estúdio selecionar e o cliente aprovar essas escolhas, o processo de dublagem começa.

Diferente de um filme, onde o material em vídeo também é usado, nos games isso geralmente não acontece. O estúdio recebe apenas o áudio de referência que é usado para que os atores façam o trabalho. E assim como um filme, a produção possui prazos para serem cumpridos para que possamos apreciar o trabalho feito ao jogar os games.

E assim como nos filmes, existem trabalhos ruins, bons e os considerados excepcionais, que costumam ser o ponto forte de um jogo mesmo se ele não for tão bom assim. Desde 2012 a quantidade de jogos localizados para nosso idioma só cresce. Hoje não é difícil achar um jogo que não possua nosso idioma disponível para ouvir.

Mas quantidade e qualidade nem sempre andam de mãos dadas. Como exemplos de trabalhos que não deixaram boas impressões, podemos citar novamente Mortal Kombat X e Battlefield Hardline, onde a atuação ruim, ou mal dirigida, rouba a cena. Apesar destes dois títulos contarem com outras vozes, inclusive muito competentes em seus papéis, as atuações de Pitty e Roger ainda são a primeira coisa que os jogadores brasileiros se lembram nestes jogos.

A cantora Pitty recebeu muitas críticas por sua interpretação da personagem Cassie Cage em Mortal Kombat X.
Ettore Zuim assumiu a voz do Batman nos cinemas durante a “era Nolan”. O ator foi escalado para dublar o personagem de Christian Bale na trilogia Cavaleiro das Trevas nos cinemas e por conta disso também foi a escolha mais óbvia para interpretar o personagem nos games, o que aconteceu em três ocasiões. No primeiro Injustice: Gods Among Us (2013), em Batman Arkham Origins (2013) e Batman Arkham Knight (2015).

Na ocasião, a Warner realizou um evento para o lançamento de Batman Arkham Knight e Ettore declarou em entrevista que considera uma “falta de noção” que músicos realizem trabalhos de dublagem. A declaração foi dada justamente por conta das críticas recebidas pelos trabalhos que envolveram os músicos Pitty e Roger.



Quando a dublagem é um dos pontos altos da experiência

Como trabalhos bons, podemos citar alguns jogos da Ubisoft, como os jogos da série Assassin’s Creed, que chegam dublados para nós desde o III, Watch Dogs e For Honor. Exclusivos para o PlayStation 4 também falam português desde seu lançamento. Dentre estes podemos citar inFamous Second Son, Uncharted 4: A Thief's End, Ratchet & Clank e Marvel’s Spider-Man. Os da Microsoft também contam com localização, como os títulos mais recentes da série Halo e Gears of War.

E claro, existem também jogos que são lembrados justamente pelo ótimo trabalho de localização que receberam. Em sua maioria, estes contaram com profissionais veteranos da dublagem profissional no Brasil, com anos de experiência em diversos trabalhos no cinema e na televisão. A seguir vamos destacar alguns jogos e os atores que fizeram trabalhos muito bem recebidos pela comunidade gamer brasileira.
Injustice 2 (Multi)
O primeiro título, lançado em 2013, já contava com um diferencial. A Warner Bros. é dona da DC Comics, e por este ser um título da WB Games, o estúdio deu preferência para que atores que já davam voz a seus personagens no Brasil fossem os escolhidos para representar novamente os membros da Liga da Justiça e seus vilões no game. Apesar da qualidade superior na localização do jogo, algumas vozes não foram exatamente as mesmas esperadas pelos fãs. Exemplo foi o ator Ettore Zuim, que citamos anteriormente.

Houve uma grande comoção para que o Batman fosse interpretado por Márcio Seixas, que deu voz ao personagem durante muitos anos nas séries animadas do personagem no Brasil. A cargo da Unidub, estúdio do ator Wendel Bezerra, mais conhecido por ser a voz de Goku em Dragon Ball Z e Bob Esponja, o trabalho de dublagem de Injustice 2 é considerado por muitos um dos melhores já feitos e uma referência no segmento da dublagem de games no Brasil.

Outras vozes consagradas e conhecidas são as de Guilherme Briggs, novamente interpretando o Superman, e Márcio Simões como o Coringa, personagem que já interpretou nos games em outras oportunidades.

Guilherme Briggs (Superman)
Márcio Seixas (Batman)
Márcio Simões (Coringa)
The Last of Us (PS3)
O último exclusivo do PS3 também chegou dublado no Brasil e teve um elenco que contou com veteranos da dublagem nacional. Luiz Carlos Persy deu sua voz a Joel e para muitos consegue bater de frente com a igualmente impecável interpretação de Troy Baker, intérprete original do personagem. Luiza Caspary interpreta Ellie, a segunda protagonista, e outras vozes famosas que fazem parte do elenco são Miriam Fisher, como Tess, e Júlio Chaves, como Bill. A expectativa é que o elenco retorne para a sequência, em maio de 2020.

Luiz Carlos Persy (Joel)
Luiza Caspary (Ellie)

The Witcher 3: Wild Hunt (Multi)
O que chama a atenção em The Witcher 3, além de ser um excelente jogo, é o trabalho de dublagem feito nele, ainda mais se considerarmos o tamanho do jogo e quantidade massiva de personagens que temos dentro deste mundo. O destaque aqui fica para Sérgio Moreno, que dá voz a Geralt de Rívia. Por ser a voz que mais ouvimos durante o jogo, o mínimo que poderíamos ter era uma voz familiar e conhecida para nos fazer companhia nos momentos em que Geralt fica resmungando quando encontra monstros.

Infelizmente a versão lançada em outubro para o Nintendo Switch ainda não conta com nosso idioma disponível para o jogo.

Sérgio Moreno (Geralt de Rívia)

God of War (PS4)
O retorno de Kratos no PS4 não foi o primeiro título do fantasma de Esparta a falar nosso idioma. God of War Ascension (PS3) debutou Ricardo Juarez como o dublador de Kratos no Brasil, e ao ser selecionado para reviver o personagem em 2018, a recepção foi muito positiva pelos fãs do ator. Não desmerecendo o impecável trabalho de Christopher Judge, que também teve uma grande responsabilidade ao assumir o papel que durante anos pertenceu a Terrence C. Carson, mas é difícil imaginar outra pessoa senão Ricardo no papel do pai de Atreus no Brasil.

Ricardo Juarez (Kratos)

Horizon Zero Dawn (PS4)
Outro jogo de mundo aberto com muitos diálogos e personagens, outro excelente trabalho executado pela Unidub. Aqui o destaque fica para Tatiane Keplmair cujo papel mais conhecido na dublagem nacional foi o de Hannah Montana. No jogo, ela dá voz a protagonista Aloy em sua jornada de descoberta e é muito bem acompanhada por outros grandes nomes, como Alfredo Rollo, interpretando o Rei dos Carja, e Mauro Ramos como o misterioso Sylens.

Tatiane Keplmair (Aloy)

Detroit: Become Human (PS4/PC)
Este é um dos jogos que possui uma das melhores experiências já proporcionadas justamente por conta da dublagem brasileira. Em outro trabalho de excelência do estúdio Unidub, Wendel Bezerra dá voz ao andróide Markus e divide o protagonismo do jogo com Flora Paulita, no papel de Kara, e Vagner Fagundes, como Connor. Os três também trabalharam juntos em Dragon Ball Super, em que Wendel e Vagner reprisaram seus papéis como Goku e Gohan, e Flora estreou na série dando voz à personagem Caulifla.

Wendel Bezerra (Markus)
Vagner Fagundes (Connor)
Flora Paulita (Kara)

Os Cavaleiros do Zodíaco: Alma dos Soldados (PS4/PC)
Este tem um valor particular no Brasil por conta da dublagem. O jogo teve uma recepção bem morna por não inovar muito em relação ao seu antecessor, Bravos Soldados. O que deu um diferencial ao jogo no Brasil foi justamente a forte dose de nostalgia que a Bandai Namco proporcionou ao anunciar que o jogo viria dublado para o Brasil.

Praticamente todo o elenco original do anime foi reunido para dar voz novamente aos seus respectivos personagens no jogo, com exceção de alguns atores que faleceram, como Maralise Tartarine, que eternizou o golpe principal de Shina com seu “Venha Cobra!”, e outros que não puderam participar por estarem fora do país ou afastados da profissão na época, como Marcelo Campos, que deu voz a Mu de Áries na animação e na nova adaptação da série na Netflix.

E o mais importante, o quinteto original formado por Hermes Barolli (Seiya), Francisco Bretas (Hyoga), Élcio Sodré (Shiryu), Ulisses Bezerra (Shun) e Leonardo Camilo (Ikki) está presente no jogo que vale muito pela nostalgia de ouvir essas icônicas vozes que fizeram parte da infância de muita gente.

Hermes Barolli (Seiya de Pégaso)
Maralise Tartarine (Shina de Cobra) 1944-2014

Overwatch (Multi)
A Blizzard é muito exigente em seu departamento artístico. O trabalho de dublagem dos jogos da empresa possuem um elevado nível de qualidade, tanto em seu idioma original quanto no nosso. A riqueza de detalhes é facilmente identificada em Overwatch, no qual os vários personagens conseguem transmitir muito bem seus sentimentos e reações através da voz.

No Brasil, o jogo possui o mesmo nível de primor em sua dublagem como nos vários idiomas em que o jogo é localizado. O destaque no jogo da Blizzard aqui fica por conta de Luisa Palomanes, a voz da personagem Tracer, que esbanja carisma na capa do jogo. A atriz também é conhecida por dublar a personagem Estelar em Jovens Titãs e a protagonista que dá nome à série da Nickelodeon, iCarly.

Luisa Palomanes (Tracer)

Dublagem é mais que um gosto pessoal

A verdade é que ter jogos de qualquer lugar do mundo em nosso idioma hoje é mais que um privilégio. Dar acesso a um conteúdo traduzido para o português é uma importante ferramenta de imersão em uma narrativa e de inclusão para quem está conhecendo este novo universo. Por mais que existam pessoas que repudiam a dublagem brasileira por “N” motivos, isso é facilmente resolvido selecionando outro idioma para jogar.

Mas ter o prazer de se divertir com um personagem que fala a mesma língua que a gente, isso não tem preço. Esperamos que o talento verde e amarelo possa crescer cada vez mais nesse segmento e que possamos continuar dizendo que a dublagem brasileira é uma das melhores do mundo.

E você, leitor? Qual jogo conquistou você pela versão brasileira? Qual seu favorito? Considera que nada supera o original? Compartilhe sua opinião nos comentários abaixo e #PrestigieaboaDublagem.

Revisão: Farley Santos


Fã de Castlevania, Tetris e jogos de tabuleiro. Entusiasta da era 16-bit e joga PlayStation 2 até hoje. Jogador casual de muitos e hardcore em poucos. Nas redes sociais é conhecido como @XelaoHerege
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