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Análise: Catherine: Full Body (PS4) — quando um quadrado amoroso e puzzles se encontram

A nova versão do puzzle da Atlus traz várias melhorias que o torna mais acessível e divertido.


Puzzles complexos e uma trama densa que aborda temas mais maduros são as características marcantes de Catherine: Full Body. Produzido pelo estúdio responsável pela série Persona, o novo jogo é uma versão expandida do título de mesmo nome lançado originalmente para PlayStation 3 e Xbox 360. Dentre as várias novidades, temos Rin, uma nova personagem que pode ser um dos interesses amorosos do protagonista Vincent, novos puzzles, modo online e mais. O resultado é uma experiência mais completa e com novidades suficientes para fazer veteranos jogarem novamente o título.

Uma multitude de dilemas amorosos

Vincent Brooks  é um homem de 32 anos que tem uma vida tranquila e sem maiores preocupações. Ele mora em um quarto simples, trabalha em um emprego atende suas necessidades e tem um namoro estável de cinco anos com uma garota chamada Katherine McBride. Além disso, sua maior diversão é beber na companhia dos amigos no bar Stray Sheep sempre que possível.

As coisas começam a mudar quando Katherine começa a falar em casamento — Vincent ainda não está preparado para assumir o compromisso e evita o assunto sempre que possível. Para deixar as coisas ainda mais complicadas, Vincent conhece uma bela garota chamada Catherine e os dois começam a se envolver. O rapaz entra em um dilema e fica em indecisão: investir no relacionamento estável, mas estagnado; ou ficar na companhia da garota sedutora e empolgante?


Em paralelo a isso, há um boato sobre homens que morrem misteriosamente durante o sono após terem pesadelos estranhos. Não se sabe ao certo a veracidade desses fatos, porém as pessoas afirmam que somente aqueles que traem seus parceiros são afligidos por tal terror noturno. E, coincidentemente, Vincent passa a ter pesadelos logo após hesitar de confirmar o compromisso com Katherine: neles, o homem precisa escalar imensas paredes de blocos para sobreviver. Pouco a pouco, o protagonista descobre que tudo está relacionado e vai ter que se virar para resolver a situação sem morrer no processo.

Catherine: Full Body introduz uma nova personagem chamada Rin. Vincent salva a garota, que estava sendo perseguida por uma sombra estranha, e a partir deste dia eles passam a ser amigos. Com o trauma, Rin perdeu sua memória e agora ela trabalha no bar Stray Sheep enquanto busca respostas. Naturalmente, Vincent se torna íntimo da garota, complicando ainda mais sua vida amorosa.


Entre drinks e puzzles

A trama de Catherine é complicada, mas por trás há um jogo relativamente simples. A aventura é dividida em dois principais momentos. Durante o dia, acompanhamos a odisseia de Vincent por meio de cenas não interativas, e quando a noite chega ele vai para o bar Stray Sheep. Lá é possível conversar com outros personagens, responder mensagens no celular e experimentar diferentes bebidas. O foco em conversas e interações lembra bastante um visual novel.


Depois de voltar do bar, Vincent tenta dormir e começa a parte do pesadelo. Neste momento, Catherine vira um puzzle de ação cujo objetivo é escalar imensas paredes feitas de blocos. O protagonista só consegue subir um bloco por vez, sendo assim é necessário mover os objetos para criar estruturas para prosseguir. Para complicar, Vincent precisa agir rápido, pois a base da parede desmorona constantemente. O resultado é um puzzle que exige agilidade e muita noção espacial para conseguir construir caminhos escaláveis. Errar movimentos ou criar situações impossíveis de avançar é comum, mas, por sorte, é possível desfazer alguns passos por meio do comando Undo.

Eu fiquei surpreso como um conceito tão simples de puzzle pode ser tão complexo. Isso se dá pela complicada configuração de blocos que aparecem pelo caminho, nos forçando montar estratégias para subir com rapidez. No decorrer da jornada, novos elementos são introduzidos aos desafios, como blocos explosivos, inimigos, armadilhas, itens e mais, o que torna o jogo progressivamente mais difícil. No começo até mesmo as fases mais básicas são tensas de vencer, no entanto vamos aprendendo técnicas (por meio de experimentação ou por dicas de outros personagens), o que traz a sensação de evolução. Mas, mesmo assim, há trechos muito frustrantes e complicados, mesmo para aqueles já acostumados com puzzles densos.


Por fim, o jogo conta com um sistema de carma: perguntas são feitas durante várias vezes pela aventura e as respostas afetam um medidor que determina a moralidade de Vincent. Respostas mais seguras e estáveis levam o marcador para o lado da “Ordem”, já opiniões mais audaciosas tencionam para o lado do “Caos”. O medidor afeta levemente alguns diálogos durante o jogo e ele determina quais finais podem ser alcançados no fim da história.

Um quadrado amoroso complicado e desconexo

A trama de Catherine pode ser classificada como uma mistura de romance e horror, e de fato fiquei com a sensação disso. Vincent encontra inúmeros dilemas pelo caminho ao mesmo tempo em que tenta sobreviver a pesadelos horríveis que podem acabar com a sua vida, e os vários diálogos e cenas do jogo reforçam isso com reviravoltas, mistério e tensão. Achei interessante os temas abordados em Catherine, como responsabilidades da vida adulta, compromisso, traição, amor e sensualidade — muito disso é explorado nas conversas com os outros vários personagens, logo é uma boa interagir com todos eles. Contudo, fiquei um pouco decepcionado com a solução preguiçosa de alguns mistérios e conflitos, assim como a abordagem tímida (e às vezes até mesmo de gosto duvidoso) de assuntos mais espinhosos.

Vincent, naturalmente, é o personagem mais bem explorado do jogo. Por meio de seus pensamentos e diálogos, percebemos suas dúvidas e aflições, todas elas relacionadas à questões da vida adulta. No início confesso que eu o achava insuportável, pois ele se deixava levar por tudo, era altamente indeciso e nunca assumia as responsabilidades de seus atos. No entanto, após inúmeras provações pelo caminho, Vincent amadurece um pouco e se torna uma pessoa (um pouco) melhor. Algo interessante é a dualidade das garotas Katherine e Catherine: suas personalidades complexas são exploradas de diversas maneiras, o que fez com que eu mudasse de opinião sobre elas com frequência.


Em Full Body temos a adição de Rin, uma nova garota que entra na vida de Vincent. Ela traz um contraste bem legal ao universo do jogo com sua personalidade amigável, sincera e gentil, fazendo bom contrapeso às outras duas de personalidade forte. Um detalhe curioso é que Rin não é uma possibilidade amorosa desde o início, sendo necessário fazer certos passos para que ela e o protagonista se tornem íntimos. No geral a garota é bem inserida na trama e parece que estava ali desde o início, salvo na parte final da história — dependendo das ações do jogador, ela simplesmente desaparece. Caso os passos corretos sejam feitos, há uma linha de história completamente nova focada em Rin.

Um detalhe que me incomodou bastante é a desconexão entre os dois momentos distintos do jogo: as cenas de interação pouco afetam os puzzles, e vice-versa. Fora uma única e simples mecânica, os dois trechos parecem jogos separados, pois não se influenciam diretamente. As perguntas e o medidor de carma também têm pouco impacto, sendo mais determinantes somente no final da aventura. É uma pena, afinal na história os dois elementos estão constantemente ligados entre si.


Novidades em uma versão melhor trabalhada

Fora a nova personagem, Catherine: Full Body tem várias outras novidades que tornam a experiência mais interessante. A principal delas é o modo Remix: nesta modalidade, os estágios apresentam blocos unidos que mudam completamente os puzzles, sendo perfeito para aqueles que já experimentaram o original. Os desafios remixados estão disponíveis tanto na história principal como no minigame Rapunzel.

A parte de puzzle de Catherine é considerada muito difícil por alguns. De fato, algumas fases, principalmente as do final da história, são brutalmente complicadas até mesmo para jogadores experientes. Sendo assim, várias opções para facilitar o jogo foram adicionadas, como uma opção de “piloto automático” e uma dificuldade menor. Um recurso inédito notável é uma opção que permite pular completamente os trechos de puzzle, sendo uma ótima opção para quem somente quer ver a história ou quem busca ver os outros finais de forma mais rápida.


Um detalhe curioso é que Catherine é considerado um jogo altamente competitivo pela comunidade, mas o original limitava as possibilidades por ser exclusivamente local. Pensando nisso, Full Body adiciona uma modalidade online para dois jogadores. Nele é possível jogar tanto o modo competitivo Coliseum como o cooperativo Babel Tower. É um recurso notável, no entanto minha experiência nele foi mista: algumas partidas funcionaram bem, já outras foram repletas de lag e problemas.

Tecnicamente o jogo continua competente, sendo que o visual teve poucas mudanças. As cenas inéditas são claramente de qualidade superior e apresentam modelos e movimentação mais elaborados, mas não há tantas alterações a ponto de ser dissonante do resto do título. Já a trilha sonora teve algumas adições e continua ótima, principalmente as composições de jazz. Destaque para a excelente dublagem: todos os personagens esbanjam personalidade com suas interpretações vocais expressivas.


Uma combinação exótica

Catherine: Full Body oferece uma aventura curiosa na forma de trechos que remetem a visual novels e puzzles de ação. A história é atraente e aborda temas pouco usuais, por mais que alguns aspectos sejam previsíveis ou mal desenvolvidos. Já as sessões de puzzle são criativas e extremamente desafiadoras, com opções para diferentes tipos de jogadores. A nova versão do jogo traz várias melhorias bem-vindas, como mais opções de dificuldade, ajustes na jogabilidade e até mesmo a possibilidade de se concentrar exclusivamente na história. Mesmo com falhas, Catherine: Full Body é uma experiência peculiar recomendada para aqueles que procuram uma trama envolvente ou puzzles desafiadores.

Prós

  • Puzzles de conceito simples, mas de alto desafio e variedade;
  • História e personagens interessantes;
  • Muitas opções de dificuldade flexibilizam a experiência de jogo;
  • Muito conteúdo inédito, principalmente puzzles.

Contras

  • Os dois momentos de jogo (puzzle e história) são desconexos entre si;
  • Pouca influência geral das escolhas feitas durante a trama.
Catherine: Full Body — PS4 — Nota: 8.0
Análise produzida com cópia digital cedida pela Sega

é brasiliense e gosta de explorar games indie e títulos obscuros. Fã de Yoko Shimomura, Yuzo Koshiro e Masashi Hamauzu, é apreciador de boardgames, game music, fotografia e livros.

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