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Análise: Sea of Solitude (Multi) é uma bela, porém monótona, jornada pela solidão

Acompanhe uma mulher solitária em uma aventura de autoconhecimento e aceitação que, infelizmente, peca pelo ritmo arrastado.


Uma garota transformada em monstro que se vê presa em uma cidade alagada repleta de estranhas criaturas é a premissa de Sea of Solitude. O jogo indie produzido pelo pequeno time da Jo-Mei Games usa as experiências da equipe em uma aventura que explora vários temas, como solidão, depressão e frustração. A jornada tem visuais cativantes e discute questões importantes, no entanto o andamento lento, a simplicidade das mecânicas e algumas escolhas infelizes na narrativa atrapalham a experiência.

Presa em um mundo alagado

Kay é uma garota que um dia acorda em uma estranha cidade submersa e descobre que se transformou em um monstro. Para piorar, ela descobre que o local está repleto de criaturas sombrias que a conhecem bem e que dizem coisas horríveis sobre ela — a garota é taxada como egoísta e insensível. Por meio de um barco, Kay vai desbravar a região à procura de respostas: por que ela virou um monstro? Quem são essas outras criaturas? Como sair dessa situação desoladora?


Em sua essência, Sea of Solitude é uma aventura de plataforma e puzzle. No entanto, as mecânicas são bem simples, o que é justificável pelo fato do foco ser a narrativa e experiência emocional. Com a ajuda do barco, Kay explora a cidade alagada em busca do próximo ponto de interação da história. Para isso, a garota realiza tarefas leves: escalar estruturas, nadar por pontos alagados, superar alguns trechos de plataforma, interagir com alguns objetos, e mais. É possível lançar um sinalizador luminoso que indica com exatidão o próximo ponto que devemos ir, sendo que ele também é utilizado para resolver alguns pequenos puzzles.

Um ponto importante no mundo de Sea of Solitude são monstros negros que desejam impedir o avanço de Kay. Um deles é uma criatura aquática que engole a garota quando entramos na água, o que nos força a observar seu movimento para avançar nos momentos corretos. Já outro monstro bloqueia passagens, sendo necessário encontrar orbes de luz espalhados nas proximidades para lançar um feixe luminoso concentrado para liberar o obstáculo. Por fim, pontos de corrupção precisam ser encontrados e purificados para liberar trechos do cenário. Essas situações funcionam como puzzles e não são difíceis de superar.


Uma jornada de autodescobrimento

Sea of Solitude parece ser um jogo de plataforma, mas na verdade é uma experiência centrada em temas e reflexões. Tudo no jogo é uma metáfora: a grande cidade vazia e alagada nos remete a estar sozinho, os monstros são interpretações sombrias dos relacionamentos problemáticos de Kay, o barco que espanta a escuridão representa a tentativa de seguir em frente e superar os problemas.

É uma história sobre a solidão, autoaceitação e superação. Pelo caminho, Kay encontra outros monstros, que rapidamente ela percebe que são pessoas importantes da vida dela. Seu irmão, por exemplo, se tornou um imenso pássaro negro e foge constantemente dela. Já seu namorado é um lobo agressivo que, aos poucos, revela sua verdadeira forma. A garota precisa entender os problemas de todos eles ao mesmo tempo em que reflete sobre suas próprias atitudes.


As questões abordadas são variadas e relatáveis — aos poucos Kay percebe o quanto é egoísta e autocentrada e evolui durante o processo doloroso de aceitação. A narrativa é representada principalmente por inúmeros diálogos, mas o visual também contribui nesse aspecto. Um dos momentos que mais me marcou foi o trecho em que Kay vê a representação física dos problemas do irmão: ela percebe que ele era vítima de bullying quando explora uma escola sombria em que versões assustadoras e agressivas dos colegas do garoto tentam impedir nosso avanço. É uma parte em que o visual e diálogo criam uma atmosfera tensa e palpável.

Os temas são reforçados pelo visual belíssimo que lembra uma pintura. A aventura se passa em uma cidade alagada cujo o nível de água altera constantemente, o que cria algumas cenas muito interessantes — minhas preferidas são aquelas em que parte da água abre e andamos no chão enquanto trechos do cenário permanecem submersos. A dualidade da atmosfera é representada por cores: o barco, que funciona como um porto seguro, ilumina tudo com cores quentes; as partes mais tensas são acompanhadas de muito cinza e chuva, reforçando os sentimentos negativos; já os monstros causam impacto com seus olhos vermelhos brilhantes e silhuetas repletas de pontas.


Simplicidade e ausência de nuances

Solidão, autoaceitação, relacionamentos abusivos e mais são assuntos importantes e contemporâneos abordados pelo jogo, no entanto algumas escolhas pouco acertadas comprometem a experiência. É importante, também, se conectar aos dramas da protagonista para aproveitar a jornada.

Um detalhe que me incomodou bastante foi a falta de sutileza na narrativa. A jornada de Kay é repleta de diálogos, no entanto eles são muito diretos, descritivos e soam nada naturais. Além disso, algumas conversas são tão repetitivas que parecem intermináveis e desinteressantes. Também me incomodou a abordagem simplista temas, o que deixa o desenvolvimento óbvio e previsível — isso pode ser justificado pelo fato de Kay ser uma jovem europeia de classe média cuja característica mais marcante é pensar somente em si própria. A reflexão e a evolução da garota pelo jogo também é bem rasa. No fim, fiquei com a impressão que o título pegou os temas e os explorou de maneira exagerada e dramática. Eu entendo que Sea of Solitude representa experiências da equipe de desenvolvimento, mas sinto que ele seria mais interessante se a narrativa fosse mais sutil e elaborada.

Como jogo, Sea of Solitude é mais um walking simulator do que uma aventura de exploração. Há trechos de plataforma e puzzles, mas é tudo básico e a progressão é extremamente linear. Para piorar, alguns enigmas são repetidos várias vezes em sequência sem modificações significativas. Isso, em conjunto com os diálogos constantes que pouco adicionam à narrativa, torna a experiência cansativa — eu demorei três horas para chegar ao final, mas a sensação é que gastei o dobro de tempo no jogo. Colecionáveis, como garrafas com mensagens e gaivotas que podem ser espantadas, estão espalhados pelo mundo, normalmente em locais um pouco fora do caminho principal, mas as recompensas são tão simples que não vale muito a pena ir atrás deles. É uma pena, pois os cenários são elaborados e bem construídos.


Belo, mas cansativo

Sea of Solitude apresenta uma premissa instigante, no entanto falha em cativar por causa de problemas em sua execução. A utilização de metáforas e elementos visuais para representar sentimentos e sensações é um recurso acertado, resultando em um mundo belo e bem construído. A história em si explora temas importantes e relevantes, nos fazendo refletir por meio de algumas cenas e diálogos impactantes, contudo faltou sutileza nos diálogos e na abordagem dos assuntos. A parte de jogo em si beira a monotonia com suas mecânicas extremamente básicas e muita repetição. No fim, Sea of Solitude é uma experiência emocional interessante, mas que não fica guardada na mente por muito tempo.

Prós

  • Exploração de temas importantes, como autoaceitação e solidão;
  • Ambientação impressionante com um mundo bem construído e ótimo uso de cores e elementos visuais para representar metáforas.

Contras

  • Mecânicas simples e repetitivas tornam a aventura enfadonha e cansativa;
  • Andamento arrastado e com interpretação direta e simplista dos temas.
Sea of Solitude — PC/PS4/XBO — Nota: 6.5
Versão utilizada para análise: PS4

Análise produzida com cópia digital cedida pela EA

é brasiliense e gosta de explorar games indie e títulos obscuros. Fã de Yoko Shimomura, Yuzo Koshiro e Masashi Hamauzu, é apreciador de boardgames, game music, fotografia e livros. Pode ser encontrado nas redes sociais por meio do nick FaruSantos.

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