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Análise: Etherborn (Multi) é uma inteligente e um pouco monótona aventura gravitacional

O novo jogo da Altered Matter tem um excelente design de fases, mas peca um pouco em ritmo lento demais.

Muitos podem passar despercebidos por Etherborn (Multi) e achar que ele é “só” mais um jogo independente entre tantos outros que vemos por aí. Entretanto, o jogo de puzzle focado no ambiente possui algumas características que o diferenciam dos demais de seu gênero. Para começar, ele é o primeiro projeto independente publicado pela 20th Century Fox pelo selo FoxNext Games. Além disso, o jogo vem colecionando alguns prêmios em eventos de desenvolvedores independentes já há alguns anos.


Disponível a partir de hoje para todas as plataformas da atual geração,Etherborn apresenta foco quase que total na jogabilidade, enquanto nos mostra uma história que se equilibra entre a confusão e o instigante. Mas o que mais chama atenção em sua experiência é justamente a jogabilidade que, mesmo que não seja totalmente original, é muito bem executada em fases inteligentemente construídas.


Um corpo sem voz, uma voz sem corpo

O enredo de Etherborn é um tanto efêmero, com poucas apresentações e uma introdução curta até demais para o tema. Aqui, você é um ser que acabou de nascer, sem saber onde está, os motivos de estar ali ou qualquer outro aspecto que enriqueça essa experiência. Na verdade, o único aspecto relevante é de que este ser não possui voz ou capacidade de fala.

Ao mesmo tempo, somos convidados por uma suposta voz sem corpo a nos encontrarmos com ela, possivelmente para virar um único ser. A voz que aguarda nossa chegada nos induz então a percorrer uma jornada em três dimensões bem complexa para alcançá-la. E assim começamos o jogo, com o simples objetivo de alcançar essa voz etérea para entender completamente nossa própria existência.



A narrativa não evolui muito depois daí, somente quando chegamos de fato na reta final para encontrar a voz. Sem dúvidas, Etherborn é um jogo mais conceitual e bem mais focado na experiência de jogatina do que em exatamente contar de forma literal uma história. Entretanto, é possível tirar algumas interpretações projetivas interessantes durante o percurso. Porém, isso varia muito dependendo de quem joga, por ser algo bastante individual.

Um “cubo mágico” como ambiente

Mais de uma vez durante o tempo que joguei Etherborn, me lembrei das vezes que tentei resolver o clássico brinquedo de enigmas Cubo Mágico. Isso porque a experiência de tentar jogar cada fase de Etherborn causa exatamente a mesma sensação e comportamentos parecidos com os que uma pessoa geralmente tem enquanto tenta resolver o clássico brinquedo dos anos 80.



Fora isso, nada mais temos de semelhanças entre o Cubo Mágico e Etherborn. Mas a analogia é impossível de não ser feita. Nas fases iniciais, temos uma experiência um pouco mais linear, por conta do aprendizado das mecânicas de jogo. Como estamos falando de um jogo com gravidade mutável, é preciso um pouco de tempo para o cérebro acostumar com as mudanças de perspectiva constantes, além das possibilidades que podemos ter a cada mudança.

Porém, com o aumento da dificuldade das fases progressivamente, começamos a ficar mais inertes apenas ao objetivo de resolver aquele puzzle, indo e voltando entre os lados de cada fase, pensando em seis ou mais posições diferentes, tentando encontrar a resolução para aquele enigma. Isso, inclusive, é o ponto mais positivo do jogo, pois é uma das únicas coisas que podem manter o jogador engajado em Etherborn por mais tempo.


A física como aliada e principal vilã

Um dos aspectos mais interessantes de Etherborn é a sua física. Isso porque, em seu mundo, as leis da física se comportam de modo que desafiam a imaginação e raciocínio lógico do jogador, o que é ótimo. A força gravitacional aqui sempre terá peso na direção perpendicular à superfície onde nosso personagem se encontra. Desse modo, mudando a cada mudança de perspectiva.

Explicando assim parece até simples, mas ao jogar é preciso certo tempo para começar a pensar desse modo, principalmente nas fases mais para o meio do jogo. A capacidade do level design de esconder caminhos completamente à vista apenas utilizando deste recurço da gravidade mutável é impressionante, um dos pontos mais surpreendentes de Etherborn.



Isso faz da gravidade a principal ferramenta a ser dominada no jogo. Ao mesmo tempo em que temos a junção da força gravitacional com a perspectiva, ambas em constante mudança, como o maior desafio para resolver os puzzles; temos também justamente estes recursos como principais aliados para encontrar caminhos os mais simples possíveis para alcançar o objetivo.

O perigo da monotonia

Como Etherborn tem uma atmosfera de muita calmaria, relaxamento e reflexão, isso pode acabar por atrapalhar a experiência de alguns jogadores vez ou outra. Não que essa atmosfera introspectiva do jogo seja ruim, mas a movimentação mais lenta somada aos ambientes em tons bem claros e espaçados com uma trilha sonora tranquilíssima podem fazer da experiência de jogo sair de “relaxante” e beirar a monotonia diversas vezes.



Isso porque o enredo por si só não é nem um pouco cativante para que o jogador se inspire para buscar a resolução dos puzzles, ao mesmo tempo em que a progressão do jogo pode parecer lenta em alguns momentos, dando pouca sensação de recompensa aos jogadores que resolvem os puzzles com proeza. Por fim, o que mais mantém o jogador de fato em jogo é a construção das fases e a resolução destes puzzles, o que, infelizmente, pode não ser o suficiente para se jogar Etherborn por mais de uma hora consecutiva. 

Um jogo relaxante e inteligente

Etherborn (Multi) é um jogo que se distingue bastante do que vemos normalmente por aí. Claro que em sua jogabilidade ele lembra alguns aspectos da franquia Mario Galaxy e principalmente do famoso game independente FEZ (Multi). Porém, experimentar Etherborn dá ao jogador uma sensação relaxante e curiosa como estes jogos não dão. E isso por si só já faz ele valer minimamente a pena de ser jogado, principalmente pelos amantes de puzzles.

Porém, ele não é tão instigante como poderia ser, para manter o jogador engajado em jogá-lo até resolver todos os seus puzzles ou então quebrar a cabeça por horas a fio para tentar passar das fases mais avançadas. Talvez a indústria tenha nos deixado muito mal acostumados com colecionáveis, recompensas constantes e sensação de progressão. Assim, as mecânicas pouco recompensadoras somadas à experiência relaxante demais e um enredo solto demais fazem dele um bom jogo, mas não interessante o suficiente para gerar curiosidade e senso de desafio para que seus jogadores continuem ali envolvidos por muito tempo.

Prós

  • Fotografia exuberante, mesmo com visual simples;
  • Cenários belíssimos e muito bem construídos;
  • Level design criativo, inteligente e desafiador;
  • Trilha sonora relaxante combina bem com a jogatina;
  • Mecânicas de gravidade complexas e bem construídas.

Contras

  • Ritmo de jogo pode ser tornar monótono;
  • Desafios não são tão instigantes para manter o jogador engajado;
  • Narrativa solta demais tira o interesse pela história.
Etherborn - PC/PS4/XBO/Switch - Nota: 6.5
Versão utilizada para análise: PS4

Análise produzida com cópia digital cedida pela Altered Matter.

Gilson Peres é Psicólogo e Mestre em Comunicação pela UFJF. Está no Blast desde 2014 e começou sua vida gamer bem cedo no NES. Atualmente divide seu tempo entre games de sobrevivência e a realidade virtual.

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